quarta-feira, 15 de abril de 2009

Cores

vejo as cores esbaterem-se, diluídas no éter celeste que pela manhã me enlaça. é a minha única hora lúcida, sem remédios do diabo nem venenos divinos, só cheiro a chuva e saudade,
e a ternura toda escondida na dobra do lençol.
poderei renunciar ao meu breve casulo, pergunto-me.

sinto ainda a tua respiração nos ombros, no pescoço o aroma dos teus beijos, nos ouvidos o rumor da tua pressa, nas mãos o teu corpo a tremer.
e um arrepio atravessa-me as costas como um chicote.
então deslizo para fora da cama e abro a janela num gesto teatral.
há vapores de desejo que se elevam, tornados materiais quando os inspiro. têm a sua densidade própria, mas facilmente se moldam aos caminhos do meu interior. e tomam livremente o seu espaço dentro do exíguo espaço que me resta depois dos sonhos da noite. e assolam-me. e indagam-me.
e embriagam-me mais uma vez.
desconexa dou-me então ao mundo,
tornada de novo mulher com cabeça
e destino nenhum para além da linha de partida há muito riscada na minha pele pelo teu punho.
mas por vezes o medo rasga-me a alma.
eu coso-a e refaço-me, coso e aplico-me mais uma lição.

e vejo as cores recuperarem vida nas minhas manhãs.
e acredito nelas e em nós.
mas continuo sem perceber por que o nosso amor
às vezes pende para a terra
como se nunca voasse.

3 comentários:

ana disse...

enquanto continuares a fazer o que de melhor se faz na blogosfera, eu continuarei a passar. beijo

Narcisa disse...

Pronto. Isto sim é comovente. E humano. E lindo, lindo.


Adorei.

Kiss kiss bang bang


A babe.

Lara disse...

Concordo... de facto, é comovente. Ainda existe alguém que "vê" os entimentos desta forma?!
Deveras surpreendente! (das melhores "histórias" que já li).