não espero riquezas nem ambiciono alegrias,
ou que me oiças os versos
e os repetidos risos
(sei que só a boca pelo amor tocada
ganha voz
pois também as folhas
mudas permanecem nos ramos
enquanto o vento não as faz cantar.
e assim nas formas balsâmicas do silêncio
encontro eu a casa das minhas palavras
(tuas
como o velho sofá
onde jaz o pequeno buda de pedra
há anos escondido
da inveja.
nenhuma morte nos afastará
(segredou-me ele antes da queda
e eu quase acreditei: no calor da tua mão
a fé era fácil como caminhar.
passo, como sabes,
pela tua vida e a minha
como passei
de asas caladas e alta glória
e hei-de passar ainda
rasando a tua janela
na plumagem do pássaro de yeats
apontando a bizâncio e junto aos sábios
descarnada e a rebentar de febre
(alma e coração no artifício
trabalhoso da eternidade.
só os frutos nas árvores são perfeitos e mesmo assim
nem todos,
dizes quando passo.
eu aceno ao mundo aí em baixo e digo,
que múltiplas manhãs de verão te sucedam,
em tremenda e perfeita humanidade
(contradição de quem nada pede, exigindo tudo
tanto dá.
morrerás, como eu
de flor ao peito e fios de esperança no cabelo.
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012
Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
hoje não há festejos
queria contar-te os meus dias novos
e de como consertei
os meus sonhos e as persianas
que me descem sobre os calafrios
até à espinha (dura de acordar
gostava de te falar dos mundos que estranho,
das guerras sem tradução no teu idioma,
das pazes que não fizemos, das mãos quentes
apagadas no cinzeiro,
e não forçosamente ao ouvido
nem abraçada (sequer
queria mostrar-te como abro e fecho as portas desertas
por onde passam as noites a caminho do bairro
de braço dado
às duzentas mortes com nome de mulher
que conheci
e dizer-te que a vista me abisma e a luz do amor me doi
mais ainda do que a memória
mas hoje
não há festejos, não há
chuva e dilúvio
nem prato e faca
ou vinho ou queijo (ou chá e pão
só este canto maduro, enxuto de lágrimas
a rasgar (teimoso
o silêncio de gelo dos teus últimos olhos.
e de como consertei
os meus sonhos e as persianas
que me descem sobre os calafrios
até à espinha (dura de acordar
gostava de te falar dos mundos que estranho,
das guerras sem tradução no teu idioma,
das pazes que não fizemos, das mãos quentes
apagadas no cinzeiro,
e não forçosamente ao ouvido
nem abraçada (sequer
queria mostrar-te como abro e fecho as portas desertas
por onde passam as noites a caminho do bairro
de braço dado
às duzentas mortes com nome de mulher
que conheci
e dizer-te que a vista me abisma e a luz do amor me doi
mais ainda do que a memória
mas hoje
não há festejos, não há
chuva e dilúvio
nem prato e faca
ou vinho ou queijo (ou chá e pão
só este canto maduro, enxuto de lágrimas
a rasgar (teimoso
o silêncio de gelo dos teus últimos olhos.
Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
Se lhe pões um ponto
esse verso diário
que na tua boca
se forma às nove
trago no ouvido
(disfarçado pelo sol nos cabelos
o amor que me dás
arrumo na lancheira
e como à secretária
quando bate a uma
(com talheres de tinta e verbo
pára-me o pulso
à roda das seis
treme-me a folha
as mãos descaem
(pela imprestável memória
às oito sacudo
o vento do casaco
sento-me à mesa,
mordo o lábio
(enquanto chegas para jantar
o silêncio vem
abraça a alma
abro-me, dispo-te
passa das onze
(ressoam suspiros pelo quarto
e cresce, cresce
como menino
o nosso poema
noite adentro
(tão bem ajustado ao tempo
se lhe pões um ponto, eu ainda o publico
que na tua boca
se forma às nove
trago no ouvido
(disfarçado pelo sol nos cabelos
o amor que me dás
arrumo na lancheira
e como à secretária
quando bate a uma
(com talheres de tinta e verbo
pára-me o pulso
à roda das seis
treme-me a folha
as mãos descaem
(pela imprestável memória
às oito sacudo
o vento do casaco
sento-me à mesa,
mordo o lábio
(enquanto chegas para jantar
o silêncio vem
abraça a alma
abro-me, dispo-te
passa das onze
(ressoam suspiros pelo quarto
e cresce, cresce
como menino
o nosso poema
noite adentro
(tão bem ajustado ao tempo
se lhe pões um ponto, eu ainda o publico
Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
Nessa funesta casa de campo
nessa funesta casa de campo
de onde nunca nasceram flores
nem sequer se abriram bocas de espanto
(se não ao fim dos ossos,
segurei a tua morte e ascendi à poesia,
de pão de centeio no bolso,
tomate, folhas de prata e três fatias de rosbife,
sem relógio.
ouvia-se a fome na cidade
(triunfante
os assobios do asfalto, as paredes remendadas
e por vezes havia luar nas janelas
a deslizar-nos para as entranhas.
e quando sob a manta me tocavas
parecia que me atavas um nó por dentro
de modo a que jamais nos separássemos.
mas
(tudo em ti era um corvo,
partias todas as noites enquanto te falava
com a cabeça inclinada, voando
de mãos paradas nas minhas
e os olhos em filmes dos Óscares,
dardejados de fantasmas.
e eu, num débil gesto de vida extraviada,
agarrava-me ao útero vazio e cobria-te
(de alma silenciosa
à espera que regressasses.
já não espero nada.
de onde nunca nasceram flores
nem sequer se abriram bocas de espanto
(se não ao fim dos ossos,
segurei a tua morte e ascendi à poesia,
de pão de centeio no bolso,
tomate, folhas de prata e três fatias de rosbife,
sem relógio.
ouvia-se a fome na cidade
(triunfante
os assobios do asfalto, as paredes remendadas
e por vezes havia luar nas janelas
a deslizar-nos para as entranhas.
e quando sob a manta me tocavas
parecia que me atavas um nó por dentro
de modo a que jamais nos separássemos.
mas
(tudo em ti era um corvo,
partias todas as noites enquanto te falava
com a cabeça inclinada, voando
de mãos paradas nas minhas
e os olhos em filmes dos Óscares,
dardejados de fantasmas.
e eu, num débil gesto de vida extraviada,
agarrava-me ao útero vazio e cobria-te
(de alma silenciosa
à espera que regressasses.
já não espero nada.
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
Como quando me perguntas
vens gritar-me sem razão aparente
o teu secreto desalento
em espuma,
dentes e volume
de pedra por esculpir
chegas-me pelo avesso
a fintar a chuva açucarada
que te cai liricamente
do meu peito ruminante
e não sabes que mais fazer ao desejo
que descarregas das mãos
para as gavetas
e a tábua de engomar
eu entrego-me ao jogo inútil
de esfacelar a felicidade
sem sequer te beber os olhos
ou secar os meus,
como quando me perguntas,
julgando que sei, se o amor é importante
e eu te digo,
tanto como a água,
enquanto deito os dedos
na matemática dos teus gestos
e viro a cabeça para sul.
o teu secreto desalento
em espuma,
dentes e volume
de pedra por esculpir
chegas-me pelo avesso
a fintar a chuva açucarada
que te cai liricamente
do meu peito ruminante
e não sabes que mais fazer ao desejo
que descarregas das mãos
para as gavetas
e a tábua de engomar
eu entrego-me ao jogo inútil
de esfacelar a felicidade
sem sequer te beber os olhos
ou secar os meus,
como quando me perguntas,
julgando que sei, se o amor é importante
e eu te digo,
tanto como a água,
enquanto deito os dedos
na matemática dos teus gestos
e viro a cabeça para sul.
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Melhor (talvez
entrego-me ao amor sem saber o que sorver
desse sabor a estrelas (de lume essencial
que trazes nas mãos.
entendo apenas o que o teu rosto (nada literário
me diz,
consciente de que (como todos os seres
temos os dias contados
apesar do ímpeto juvenil com que matamos o tempo
e prendemos enfeites (que caem um a um,
como as fachadas,
ao coração.
organizo as cores (noite dentro
em malas de brincar
e pinto épicas batalhas (tão inúteis como as outras
nesse silêncio de mágoas antigas
que nem quando bebes gargalhadas
consegues esconder.
deixo-te (em momentâneo aturdimento
abraçares-me pela cintura,
desconfiada do que me ofereces
quando consolo
é o que o teu olhar pede (cegamente dominador
como a minha mão direita
ao escrever.
melhor (talvez
seria levantar-me à hora dos padeiros
para (num vagar doméstico
negar cada verso que longe de ti levo
da imaginação.
e entregar-me (sem poemas
ao grande mundo onde (em chaga
nos afundamos.
desse sabor a estrelas (de lume essencial
que trazes nas mãos.
entendo apenas o que o teu rosto (nada literário
me diz,
consciente de que (como todos os seres
temos os dias contados
apesar do ímpeto juvenil com que matamos o tempo
e prendemos enfeites (que caem um a um,
como as fachadas,
ao coração.
organizo as cores (noite dentro
em malas de brincar
e pinto épicas batalhas (tão inúteis como as outras
nesse silêncio de mágoas antigas
que nem quando bebes gargalhadas
consegues esconder.
deixo-te (em momentâneo aturdimento
abraçares-me pela cintura,
desconfiada do que me ofereces
quando consolo
é o que o teu olhar pede (cegamente dominador
como a minha mão direita
ao escrever.
melhor (talvez
seria levantar-me à hora dos padeiros
para (num vagar doméstico
negar cada verso que longe de ti levo
da imaginação.
e entregar-me (sem poemas
ao grande mundo onde (em chaga
nos afundamos.
Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
Enquanto a massa
ponho-te ao peito, meu amor sem palavras de cortar,
e em sossego levo-te para casa
(de poema murmurado na rebentação das ondas
enquanto o teu mais belo par de olhos
trespassa de luz
as noites solitárias da minha memória.
as pedras brilham como luas cheias
à medida que sobre elas avançamos
(remorsos nenhuns, pés completos
os quatro
e as mãos quentes como conchas fechadas,
neste outono sem rasuras,
onde não reconheces o desfolhamento
que a terra te mostrou à entrada da infância.
não sei se há bibliotecas no mar,
dizes, ou igrejas sem enigmas nas nuvens.
e dás o braço ao meu coração
(nove meses sobranceiro aos filhos que criei
enquanto a massa ferve e me beijas.
eu
ainda antes do jantar
assisto um supremo instante
ao nosso milagre intacto.
e ponho-te ao peito, meu amor sem lágrimas de corroer,
pronta para negar o passado mais uma vez.
não têm rosto os pássaros que partem, digo
(nem os de forma humana,
na celeste brisa oceânica desta cidade
onde nos tornamos de um sangue só.
tu
vertes um suspiro para dentro de mim e
(sem preces
serves a massa.
e em sossego levo-te para casa
(de poema murmurado na rebentação das ondas
enquanto o teu mais belo par de olhos
trespassa de luz
as noites solitárias da minha memória.
as pedras brilham como luas cheias
à medida que sobre elas avançamos
(remorsos nenhuns, pés completos
os quatro
e as mãos quentes como conchas fechadas,
neste outono sem rasuras,
onde não reconheces o desfolhamento
que a terra te mostrou à entrada da infância.
não sei se há bibliotecas no mar,
dizes, ou igrejas sem enigmas nas nuvens.
e dás o braço ao meu coração
(nove meses sobranceiro aos filhos que criei
enquanto a massa ferve e me beijas.
eu
ainda antes do jantar
assisto um supremo instante
ao nosso milagre intacto.
e ponho-te ao peito, meu amor sem lágrimas de corroer,
pronta para negar o passado mais uma vez.
não têm rosto os pássaros que partem, digo
(nem os de forma humana,
na celeste brisa oceânica desta cidade
onde nos tornamos de um sangue só.
tu
vertes um suspiro para dentro de mim e
(sem preces
serves a massa.
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011
Na última pedra bordada de sal
dobro a onda que me enrola
de flanela rente à tua respiração litoral
e estico o mar nos olhos
(tingidos de cinza,
espreitam-te a morte nas acções distantes.
as chamas arranham-me o espírito (sem novas palavras
desfaço
a ternura em farrapos, as dores em gotas
(altos luxos
despenham-se das nuvens que perguntam as horas
despenham-se no sítio das cantigas, do medo natural
despenham-se sem coroa nem brilho
na última pedra bordada de sal
(e lavo os dentes contigo, lado a lado,
a perda de tempo prevenindo.
todos os dias
bebemos demasiadas certezas, digo.
e tu dizes, nada há mais instável que o desejo.
sob o mistério da luz ofereço-te as mãos em florido desespero,
enquanto roda soul (your love was meant for me
na orla do sol
e os teus gestos reservados ao amor repetem-se no meu corpo.
todos os dias
o consolo chega tarde, digo.
e tu dizes, também as folhas falam ao vento sem que as oiçam.
e os meus gestos (vulneráveis, cantando
abraçam a longa travessia de regresso à solidão.
como sabes,
espera-nos outra vida.
de flanela rente à tua respiração litoral
e estico o mar nos olhos
(tingidos de cinza,
espreitam-te a morte nas acções distantes.
as chamas arranham-me o espírito (sem novas palavras
desfaço
a ternura em farrapos, as dores em gotas
(altos luxos
despenham-se das nuvens que perguntam as horas
despenham-se no sítio das cantigas, do medo natural
despenham-se sem coroa nem brilho
na última pedra bordada de sal
(e lavo os dentes contigo, lado a lado,
a perda de tempo prevenindo.
todos os dias
bebemos demasiadas certezas, digo.
e tu dizes, nada há mais instável que o desejo.
sob o mistério da luz ofereço-te as mãos em florido desespero,
enquanto roda soul (your love was meant for me
na orla do sol
e os teus gestos reservados ao amor repetem-se no meu corpo.
todos os dias
o consolo chega tarde, digo.
e tu dizes, também as folhas falam ao vento sem que as oiçam.
e os meus gestos (vulneráveis, cantando
abraçam a longa travessia de regresso à solidão.
como sabes,
espera-nos outra vida.
Terça-feira, 22 de Novembro de 2011
Entre estas paredes
o amor é agora,
quando damos as mãos à minha incontinência romântica
e atravessamos sete colinas e um sonho
no teu silencioso olhar.
o amor é agora,
quando não largamos a cama enquanto há sol e há chuva,
dois vulcões de carne sem ponderação nenhuma
e as horas a esvair-se nos lençóis.
saímos de braço dado,
como as marroquinas sem malícia
e os casacos até aos dentes fechados como cartas.
há festa no cais do sodré, os sorrisos perdem-se pelas esquinas
e resvalam em desperdício pelas sarjetas.
a música já esteve pior, dizes.
e eu digo,
só não danço sem ti.
até voltarmos para casa.
o amor é agora,
quando a massa dos crepes escorrega na sertã
e em turva lucidez misturamos o gershwin na canela.
o amor é agora,
quando a minha boca molhada jamais termina a visita à tua pele.
o amor é agora, entre estas paredes.
e é fácil. mas a cidade não vê.
quando damos as mãos à minha incontinência romântica
e atravessamos sete colinas e um sonho
no teu silencioso olhar.
o amor é agora,
quando não largamos a cama enquanto há sol e há chuva,
dois vulcões de carne sem ponderação nenhuma
e as horas a esvair-se nos lençóis.
saímos de braço dado,
como as marroquinas sem malícia
e os casacos até aos dentes fechados como cartas.
há festa no cais do sodré, os sorrisos perdem-se pelas esquinas
e resvalam em desperdício pelas sarjetas.
a música já esteve pior, dizes.
e eu digo,
só não danço sem ti.
até voltarmos para casa.
o amor é agora,
quando a massa dos crepes escorrega na sertã
e em turva lucidez misturamos o gershwin na canela.
o amor é agora,
quando a minha boca molhada jamais termina a visita à tua pele.
o amor é agora, entre estas paredes.
e é fácil. mas a cidade não vê.
Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
Pelo sim pelo não
à cautela abro um pouco a porta e deixo entrar
a tua história (luz fendida em solo gasto,
todos os momentos
das tuas outras vidas.
e oiço-te. vasculho-te. aliso-te.
e digo,
tens direito a não saber como viver.
e tu dizes, faço-me à ternura
pelo sim pelo não.
arranjas, como o cabelo, o coração
antes de saíres à rua e voares
do meio-dia ao desmaio, até aos meus braços
(demora só mais cinco minutos, vale a pena
e vês-me enfim, reconhecendo
o meu tamanho de nada e pó
(no teu colo redentor.
pelo sim pelo não ao dependuro largo
no hall os segredos (que me vestiam
enquanto o sol incendeia
os teus olhos mendigos
(pedem fulgor à corrida do rio
e encontram-me ao poente.
a oriente
minaretes perfuram o céu,
crianças morrem soterradas,
mulheres em asfixia gatinham de preto.
e tu ainda te queixas,
no passeio liso,
no jardim suspenso,
no tempo limpo,
a arrancar espinhos ao amor.
dizes, já não sou a mesma rapariga que sobreviveu
ao chocolate do natal de oitenta e oito
(vale à flor da cascata.
mas ainda te derretes em calda
(fio a metro que te mede,
digo eu.
e o mar canta pleno
universal, nas nossas mãos abertas
uma na outra,
pelo sim pelo não.
a tua história (luz fendida em solo gasto,
todos os momentos
das tuas outras vidas.
e oiço-te. vasculho-te. aliso-te.
e digo,
tens direito a não saber como viver.
e tu dizes, faço-me à ternura
pelo sim pelo não.
arranjas, como o cabelo, o coração
antes de saíres à rua e voares
do meio-dia ao desmaio, até aos meus braços
(demora só mais cinco minutos, vale a pena
e vês-me enfim, reconhecendo
o meu tamanho de nada e pó
(no teu colo redentor.
pelo sim pelo não ao dependuro largo
no hall os segredos (que me vestiam
enquanto o sol incendeia
os teus olhos mendigos
(pedem fulgor à corrida do rio
e encontram-me ao poente.
a oriente
minaretes perfuram o céu,
crianças morrem soterradas,
mulheres em asfixia gatinham de preto.
e tu ainda te queixas,
no passeio liso,
no jardim suspenso,
no tempo limpo,
a arrancar espinhos ao amor.
dizes, já não sou a mesma rapariga que sobreviveu
ao chocolate do natal de oitenta e oito
(vale à flor da cascata.
mas ainda te derretes em calda
(fio a metro que te mede,
digo eu.
e o mar canta pleno
universal, nas nossas mãos abertas
uma na outra,
pelo sim pelo não.
Terça-feira, 13 de Setembro de 2011
O rio que sei
trocas de chapéu mais uma vez
e sais para a noite à espera do fim.
imaginas gravatas nos decotes,
andas sem tréguas pelas pedras irregulares,
adivinhas derramamentos de sal nas caras bêbadas.
e a cada curva inventas segredos líquidos,
sem medo de deixares outra vida a meio.
encontras-me em tinta fresca na ponte das duras penas.
não há esquina nenhuma por perto,
só um chilrear sem asas a bater no caminho,
o rio que sei ainda branco a guardar o silêncio,
a medida certa de luz amarela.
falas-me da cor e do espírito guerreiro,
das imagens que sentes e dos gritos que dás.
queres saber o que poderás ter e te ensine o rumo,
a lua parada de todo
a prometer-te pouco e vago descanso,
os joelhos trémulos, os olhos a boca as mãos secas,
uma dor inexplicável no pé direito.
eu elevo-me ao muro da ponte num fio de palavras
e não danço.
falo-te do amor que pede,
mas nada exige. das coisas transitórias imateriais,
do sonho que aqui morreu há onze anos e um dia,
do desapego.
depois acendo-te um cigarro.
fazes-me chorar, dizes.
e eu digo, preferia fazer-te.
então recolho-me ao correr da página
e tu reapareces em poema.
e sais para a noite à espera do fim.
imaginas gravatas nos decotes,
andas sem tréguas pelas pedras irregulares,
adivinhas derramamentos de sal nas caras bêbadas.
e a cada curva inventas segredos líquidos,
sem medo de deixares outra vida a meio.
encontras-me em tinta fresca na ponte das duras penas.
não há esquina nenhuma por perto,
só um chilrear sem asas a bater no caminho,
o rio que sei ainda branco a guardar o silêncio,
a medida certa de luz amarela.
falas-me da cor e do espírito guerreiro,
das imagens que sentes e dos gritos que dás.
queres saber o que poderás ter e te ensine o rumo,
a lua parada de todo
a prometer-te pouco e vago descanso,
os joelhos trémulos, os olhos a boca as mãos secas,
uma dor inexplicável no pé direito.
eu elevo-me ao muro da ponte num fio de palavras
e não danço.
falo-te do amor que pede,
mas nada exige. das coisas transitórias imateriais,
do sonho que aqui morreu há onze anos e um dia,
do desapego.
depois acendo-te um cigarro.
fazes-me chorar, dizes.
e eu digo, preferia fazer-te.
então recolho-me ao correr da página
e tu reapareces em poema.
Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011
Há coisas que não têm palavras
esquecida das duzentas dores que carrego no peito
sou capaz de voar no teu breve abraço,
anterior à rotina da manhã.
e o dia começa.
na cama ainda quente ficou o desalinho,
nas mãos a nudez, gemidos misturados a pender das cortinas.
e junto à nuca suada as velhas decisões que te tenho lido ao acaso,
como notícias de jornal.
sorrio por seis metros, entre o quarto e a banheira,
e conto-te os sinais sem que notes.
na água do duche deslocam-se de vida,
minúsculas ilusões em carne escura a impor-se aos meus olhos,
mais que o umbigo ou a linha das ancas ou o declive dos ombros,
e procuro cuidar do que trazes dentro
enquanto me ensaboas.
e o dia espera.
dos copos por lavar à cabeceira
espreitam lágrimas do vinho que ontem
nos encheu de precária alegria,
oxidado de vez.
e tu viras-lhes as costas para pintares as unhas.
e o dia avança.
redefines as sobrancelhas, soltas-te no espelho,
ignoras o meu desejo.
há coisas que não têm palavras, dizes.
eu visto-me de bálsamos de ternura disfarçada
e afasto as paredes ao encontro da tua pele.
em vão.
todo o inefável é ausência, digo.
tu vês as horas em vez dos meus lábios cosidos ao teu nome
e apertas os sapatos.
arrumas o tabaco, as chaves, os segredos
e o dia leva-te.
eu baixo a cabeça de sonhos e já ao volante penso,
o amor é de pedra. mas eu, não.
sou capaz de voar no teu breve abraço,
anterior à rotina da manhã.
e o dia começa.
na cama ainda quente ficou o desalinho,
nas mãos a nudez, gemidos misturados a pender das cortinas.
e junto à nuca suada as velhas decisões que te tenho lido ao acaso,
como notícias de jornal.
sorrio por seis metros, entre o quarto e a banheira,
e conto-te os sinais sem que notes.
na água do duche deslocam-se de vida,
minúsculas ilusões em carne escura a impor-se aos meus olhos,
mais que o umbigo ou a linha das ancas ou o declive dos ombros,
e procuro cuidar do que trazes dentro
enquanto me ensaboas.
e o dia espera.
dos copos por lavar à cabeceira
espreitam lágrimas do vinho que ontem
nos encheu de precária alegria,
oxidado de vez.
e tu viras-lhes as costas para pintares as unhas.
e o dia avança.
redefines as sobrancelhas, soltas-te no espelho,
ignoras o meu desejo.
há coisas que não têm palavras, dizes.
eu visto-me de bálsamos de ternura disfarçada
e afasto as paredes ao encontro da tua pele.
em vão.
todo o inefável é ausência, digo.
tu vês as horas em vez dos meus lábios cosidos ao teu nome
e apertas os sapatos.
arrumas o tabaco, as chaves, os segredos
e o dia leva-te.
eu baixo a cabeça de sonhos e já ao volante penso,
o amor é de pedra. mas eu, não.
Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011
Serra
já a noite engoliu os rochedos
na varanda teimam
as memórias a tremeluzir nas velas,
ainda te espera um copo de vinho
uma ladainha fraterna
um palácio de beijos.
e sentas-te num degrau de pedra
para rezar
missas inteiras com aroma a love story,
as horas a passar-te confusas pelo sangue
as mãos nervosas por distracção,
a música em vez da língua
o sonho em estado de pele.
e os uivos em eco.
eu chego-me a ti
com as minhas elaboradas concepções do mundo
o casaco de lã, os cigarros
um tremor nas pernas com cadência de tango
dois suspiros para tentares agarrar com os olhos
e um presente de instantâneo amor
que desembrulhas sem sorrir.
dizes inverosímil,
que a queda não te aconteça.
e eu digo,
nunca antes de me seres essencial.
pisamos atabalhoadamente
de mãos dadas, à tua vontade
os juncos que deveriam estar no rio,
chão nosso por um instante,
e só o teu desejo fala ao meu consolo.
depois
as árvores calam-nos
quando nos encostamos
a ternura abre-nos um sulco na carne
e mistura-nos como ar.
eu digo impassível,
há luar nos teus braços.
e tu dizes,
todo o abraço tem uma gota de azul.
então afastas-me
cambaleando desligas as estrelas
sobes devagar os degraus de pedra
e puxas-me para casa.
na varanda teimam
as memórias a tremeluzir nas velas,
ainda te espera um copo de vinho
uma ladainha fraterna
um palácio de beijos.
e sentas-te num degrau de pedra
para rezar
missas inteiras com aroma a love story,
as horas a passar-te confusas pelo sangue
as mãos nervosas por distracção,
a música em vez da língua
o sonho em estado de pele.
e os uivos em eco.
eu chego-me a ti
com as minhas elaboradas concepções do mundo
o casaco de lã, os cigarros
um tremor nas pernas com cadência de tango
dois suspiros para tentares agarrar com os olhos
e um presente de instantâneo amor
que desembrulhas sem sorrir.
dizes inverosímil,
que a queda não te aconteça.
e eu digo,
nunca antes de me seres essencial.
pisamos atabalhoadamente
de mãos dadas, à tua vontade
os juncos que deveriam estar no rio,
chão nosso por um instante,
e só o teu desejo fala ao meu consolo.
depois
as árvores calam-nos
quando nos encostamos
a ternura abre-nos um sulco na carne
e mistura-nos como ar.
eu digo impassível,
há luar nos teus braços.
e tu dizes,
todo o abraço tem uma gota de azul.
então afastas-me
cambaleando desligas as estrelas
sobes devagar os degraus de pedra
e puxas-me para casa.
Terça-feira, 9 de Agosto de 2011
Sonata
na ânsia fátua do segundo andamento
(dolente
que abstracta vibra no meu peito à espera de continuação
tento interminavelmente viver para hoje
(sem pressa.
estremece comigo o teu corpo
em milagre acontecendo no calor
das minhas mãos.
investigo-lhe os sinais escavados na pele,
mapas em relevo que de noite vejo melhor
e em silencioso rosário
oiço avançar
como bravos navios nas pautas imateriais.
do espelho recorto as chamas,
crepitante chuva de pessoas caídas
diluindo-se breves
nas águas da memória,
lamentáveis como mortes prematuras,
para guardar no fundo dos erros mais imprudentes.
e esqueço as violetas de lume
(dengosas
que ainda brincam na imagem,
como na outra vida, minha
sem a leveza dos beijos.
e apago as manhãs sempre velhas
(devagar
como corvos, enlutadas
apesar do balanço do sol nas janelas
que diariamente de coração aberto
se fechavam à entrada dos sonhos.
agora contigo
estremece
(pouco a pouco
o meu corpo
em cascatas
(variantes
de remanescentes harmonias.
e no teu abraço
(em todos os tempos
atraso
a conclusão.
(dolente
que abstracta vibra no meu peito à espera de continuação
tento interminavelmente viver para hoje
(sem pressa.
estremece comigo o teu corpo
em milagre acontecendo no calor
das minhas mãos.
investigo-lhe os sinais escavados na pele,
mapas em relevo que de noite vejo melhor
e em silencioso rosário
oiço avançar
como bravos navios nas pautas imateriais.
do espelho recorto as chamas,
crepitante chuva de pessoas caídas
diluindo-se breves
nas águas da memória,
lamentáveis como mortes prematuras,
para guardar no fundo dos erros mais imprudentes.
e esqueço as violetas de lume
(dengosas
que ainda brincam na imagem,
como na outra vida, minha
sem a leveza dos beijos.
e apago as manhãs sempre velhas
(devagar
como corvos, enlutadas
apesar do balanço do sol nas janelas
que diariamente de coração aberto
se fechavam à entrada dos sonhos.
agora contigo
estremece
(pouco a pouco
o meu corpo
em cascatas
(variantes
de remanescentes harmonias.
e no teu abraço
(em todos os tempos
atraso
a conclusão.
Terça-feira, 2 de Agosto de 2011
Rotação
enquanto acordas, eu
lucidamente consigo ouvir-te a largar dos membros
o repouso.
vejo acender-se claramente
essa pequena, como eu
temerária chama
de terno amor jovem (à
um quarto para as duas,
afadigada e radiante
como os anjos de luz, as ameixas e as alvoradas tardias
que à volta dos teus braços se enrolam,
pulseiras de lume
em rotação,
rosas dos ventos com sentido,
ramos frágeis numa equação em espiral
sem esfera definida
ou categoria sequer. liberdade em movimento.
enquanto tu,
nua,
acordas, eu (à
um quarto para as três,
sorrio horas adentro
em contido júbilo, mas real.
és minha e viva
e quase te permites aceitar
a vontade da alegria, o meu tamanho e inclinação.
acordas (à
um quarto para as cinco,
para o meu rosto sonhador,
e tocas-me
até ao coração enquanto o mundo dorme
e os morcegos cantam
ainda.
abres os braços, as pernas,
a alma,
e eu (à
um quarto para as seis,
esqueço-me do tempo
e naturalmente
entro em ti.
lucidamente consigo ouvir-te a largar dos membros
o repouso.
vejo acender-se claramente
essa pequena, como eu
temerária chama
de terno amor jovem (à
um quarto para as duas,
afadigada e radiante
como os anjos de luz, as ameixas e as alvoradas tardias
que à volta dos teus braços se enrolam,
pulseiras de lume
em rotação,
rosas dos ventos com sentido,
ramos frágeis numa equação em espiral
sem esfera definida
ou categoria sequer. liberdade em movimento.
enquanto tu,
nua,
acordas, eu (à
um quarto para as três,
sorrio horas adentro
em contido júbilo, mas real.
és minha e viva
e quase te permites aceitar
a vontade da alegria, o meu tamanho e inclinação.
acordas (à
um quarto para as cinco,
para o meu rosto sonhador,
e tocas-me
até ao coração enquanto o mundo dorme
e os morcegos cantam
ainda.
abres os braços, as pernas,
a alma,
e eu (à
um quarto para as seis,
esqueço-me do tempo
e naturalmente
entro em ti.
Terça-feira, 12 de Julho de 2011
De feição
corre de feição este vento de amor possível
a desatar nós à memória,
a fibrilar o algodão das nuvem cinza
para que perdure,
a soprar açúcar (colado aos dentes
ao ouvido deste animal desvairado que
(repetidamente
marra de frente
(sem guia
contra os muros do tempo.
avança de feição este vento
(exactamente
para onde deve ir,
exactamente
à medida
da silhueta do meu desejo
desenhada na tua pele.
voa de feição este vento de imodesta vontade,
vai sem alarme pelas margens da ternura
a despejar canções sobre os meus dedos
e a beijar-me a nuca de brisas solares
(como essas que à noite me entregas
na almofada virada a oeste,
alinhada com a janela dos autocarros
mas falta (talvez
delicadeza ao mundo
para segui-lo,
tomá-lo nas mãos e dividi-lo
(como pão
pelos dias magros da cidade.
morre-me (pois
de feição outro vento
recortado no espelho
à imagem do que não és.
a desatar nós à memória,
a fibrilar o algodão das nuvem cinza
para que perdure,
a soprar açúcar (colado aos dentes
ao ouvido deste animal desvairado que
(repetidamente
marra de frente
(sem guia
contra os muros do tempo.
avança de feição este vento
(exactamente
para onde deve ir,
exactamente
à medida
da silhueta do meu desejo
desenhada na tua pele.
voa de feição este vento de imodesta vontade,
vai sem alarme pelas margens da ternura
a despejar canções sobre os meus dedos
e a beijar-me a nuca de brisas solares
(como essas que à noite me entregas
na almofada virada a oeste,
alinhada com a janela dos autocarros
mas falta (talvez
delicadeza ao mundo
para segui-lo,
tomá-lo nas mãos e dividi-lo
(como pão
pelos dias magros da cidade.
morre-me (pois
de feição outro vento
recortado no espelho
à imagem do que não és.
Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Dedicatória
pergunto-me como estará marraquexe este verão.
em madrid há portuguesinhas atrevidas
ao méxico vou de tequilla
goa arde-me nos olhos.
atavio-me para o mundo por ver, a mala o chapéu
cigarros e cinto
a fronteira só azul
o tempero de não saber
sol e vento na pele quente
e escrevo,
desde que passe por corações humanos
na viagem de tempo a ruir
dedico-te o meu passaporte.
em madrid há portuguesinhas atrevidas
ao méxico vou de tequilla
goa arde-me nos olhos.
atavio-me para o mundo por ver, a mala o chapéu
cigarros e cinto
a fronteira só azul
o tempero de não saber
sol e vento na pele quente
e escrevo,
desde que passe por corações humanos
na viagem de tempo a ruir
dedico-te o meu passaporte.
Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
Este é o meu encontro
este é o meu encontro contigo.
preparo-me de aromas e visto-me de música transparente,
há muito cansada de me envelhecer neste canto
a fumar sarcasmos
sem objectivo
a cavar
e a enterrar sombras
em camas de trigo.
analiso-te as unhas e o tremor
à chegada,
dois pingos de ternura depois
aterro no teu abraço
e abro a boca quase tua. digo,
o medo é um amigo falso.
e tu dizes, como sabes tenho a fé por baixo do verniz.
agora, por mais bravo
sem os teus olhos é trivial
cada gesto
meu.
pede anteontem.
preparo-me de aromas e visto-me de música transparente,
há muito cansada de me envelhecer neste canto
a fumar sarcasmos
sem objectivo
a cavar
e a enterrar sombras
em camas de trigo.
analiso-te as unhas e o tremor
à chegada,
dois pingos de ternura depois
aterro no teu abraço
e abro a boca quase tua. digo,
o medo é um amigo falso.
e tu dizes, como sabes tenho a fé por baixo do verniz.
agora, por mais bravo
sem os teus olhos é trivial
cada gesto
meu.
pede anteontem.
Terça-feira, 14 de Junho de 2011
São as horas
longas são as horas em que redesenho o teu rosto
na superfície indefinida da memória
só o espelho sabe que ainda me mexo
enquanto retomo o tremendo amor
que numa noite despida me entregaste,
muito antes de te escrever o primeiro poema
e do efeito secundário dos teus olhos na minha boca.
longas são as horas em que me adio pelo teu corpo
na superfície segura da memória
observo-te a dançar she works hard for the money
e depois a fatiar corações numa tábua de pinho
como se não tivesses outro quotidiano que te servisse.
pergunto-te por mim,
se me vês e se
ainda te lembras do sismo suado que nos fendeu o peito.
tu dizes,
sou uma menina sem maldades,
e temendo que eu duvide apressas-te a puxar o decote.
longas são as horas em que te cubro de terra
na superfície calada da memória
em êxtase olho a paisagem que me resta até ao fim da fome
e desconvoco o cheiro a flores e os violinos.
tu encostas-te ao parapeito e sonhas comigo.
na superfície indefinida da memória
só o espelho sabe que ainda me mexo
enquanto retomo o tremendo amor
que numa noite despida me entregaste,
muito antes de te escrever o primeiro poema
e do efeito secundário dos teus olhos na minha boca.
longas são as horas em que me adio pelo teu corpo
na superfície segura da memória
observo-te a dançar she works hard for the money
e depois a fatiar corações numa tábua de pinho
como se não tivesses outro quotidiano que te servisse.
pergunto-te por mim,
se me vês e se
ainda te lembras do sismo suado que nos fendeu o peito.
tu dizes,
sou uma menina sem maldades,
e temendo que eu duvide apressas-te a puxar o decote.
longas são as horas em que te cubro de terra
na superfície calada da memória
em êxtase olho a paisagem que me resta até ao fim da fome
e desconvoco o cheiro a flores e os violinos.
tu encostas-te ao parapeito e sonhas comigo.
Sábado, 11 de Junho de 2011
O silêncio é de pedra
é ascendente o trajecto que me leva aos teus braços.
vou resoluta como quando atava fios de pranto aos pulsos
e temia os teus olhos.
atropelo a mulher descalça
que caminha no sentido contrário do amor,
a atirar-se contra os passeios
e a espreitar pelas janelas.
ignoro o homem de cinza que vende
pantomimas tão perfeitas que parecem vidas
e parece feliz e sabe onde vou.
enfio pelas ruas impossíveis, pelas arestas
pelos passos sombrios.
na subida
não reparo nos anjos como dantes
nem nos lábios bravios das raparigas,
às vezes encosto-me a uma rocha e durmo
e aos sábados paro para sonhar.
pela manhã
lentamente dou corda ao relógio da nostalgia
e na solidão que procuro encontro a tua voz que repete
o silêncio é branco
o silêncio é preto
o silêncio é de pedra
não parte.
vou resoluta como quando atava fios de pranto aos pulsos
e temia os teus olhos.
atropelo a mulher descalça
que caminha no sentido contrário do amor,
a atirar-se contra os passeios
e a espreitar pelas janelas.
ignoro o homem de cinza que vende
pantomimas tão perfeitas que parecem vidas
e parece feliz e sabe onde vou.
enfio pelas ruas impossíveis, pelas arestas
pelos passos sombrios.
na subida
não reparo nos anjos como dantes
nem nos lábios bravios das raparigas,
às vezes encosto-me a uma rocha e durmo
e aos sábados paro para sonhar.
pela manhã
lentamente dou corda ao relógio da nostalgia
e na solidão que procuro encontro a tua voz que repete
o silêncio é branco
o silêncio é preto
o silêncio é de pedra
não parte.
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