há um sonho de morte nesse olhar.
um desvio claro
da clareza da vida,
uma febre doida
na penumbra esticada.
e há o medo da dor
e a fé no futuro.
e o ataque inumano de todos os passados
em espelhos repetidos,
virados para dentro.
e o desconforto de nunca saberes
para onde correrão os rios
enquanto não secam.
secos estão os teus olhos agora.
enxutos nesse imenso pano turco
que trazes à cabeça,
embrulhados como as nossas mãos
(um dia) uma na outra,
calados por meio dessa catarse fúnebre
onde te moves.
e já não reconheces a doçura no beijo
nem acreditas no amor,
único elemento puro do humano que somos.
segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
É assim
sonho o dia em que os teus lábios regressam aos meus
e mesmo que não aconteça
sonho ainda
e mais uma vez
sem com o sonho lutar.
traz-me vida
este sonho
como se fosse vivida
e tem uma crosta de sal que me tempera os versos.
e é consciência
e é espírito
e toma-me de luz pelos poros do avesso.
é um sonho de ti
que me ocupa por inteiro
e transborda
e fala e chora
mas nunca sai de mim.
para quem a imortalidade interessa,
é assim.
e mesmo que não aconteça
sonho ainda
e mais uma vez
sem com o sonho lutar.
traz-me vida
este sonho
como se fosse vivida
e tem uma crosta de sal que me tempera os versos.
e é consciência
e é espírito
e toma-me de luz pelos poros do avesso.
é um sonho de ti
que me ocupa por inteiro
e transborda
e fala e chora
mas nunca sai de mim.
para quem a imortalidade interessa,
é assim.
sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
Indução
o desejo abre-te ao mundo.
depois cega-te.
e a tua mente sagaz,
raramente em uníssono
com o teu volúvel coração,
só tem paz na fé.
mas a fé induz-te em erro,
leva-te a acreditar no impossível.
e só no possível
poderás ser feliz.
e repousar.
depois cega-te.
e a tua mente sagaz,
raramente em uníssono
com o teu volúvel coração,
só tem paz na fé.
mas a fé induz-te em erro,
leva-te a acreditar no impossível.
e só no possível
poderás ser feliz.
e repousar.
quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010
Enquanto me lembro
parto para encontrar o medo.
talvez sem amor possa conhecer o seu sabor
e inventar a coragem
neste mundo sujo,
que nem respirar merecia
e no entanto é.
parto enquanto me lembro
desse tempo onde
me deitava para olhar as estrelas
e ainda me espantava se
pelos baldios
tropeçasse em deus.
não levo verdades na língua,
só perguntas
(reclusas nas suas sábias sensações,
tão sábias como a pele.
nem céu que ver
(sem acreditar, não há brilho que brilhe,
ou surpresa possível.
os dias sucedem-se,
transfiguram o passado,
abrem buracos no tempo.
e os meus olhos jorram alegria falsa.
hoje nem morrer vale a pena.
por isso parto no poema.
talvez sem amor possa conhecer o seu sabor
e inventar a coragem
neste mundo sujo,
que nem respirar merecia
e no entanto é.
parto enquanto me lembro
desse tempo onde
me deitava para olhar as estrelas
e ainda me espantava se
pelos baldios
tropeçasse em deus.
não levo verdades na língua,
só perguntas
(reclusas nas suas sábias sensações,
tão sábias como a pele.
nem céu que ver
(sem acreditar, não há brilho que brilhe,
ou surpresa possível.
os dias sucedem-se,
transfiguram o passado,
abrem buracos no tempo.
e os meus olhos jorram alegria falsa.
hoje nem morrer vale a pena.
por isso parto no poema.
quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Às asas
imagino a minha voz a subir as tuas escadas.
lá fora as pedras choram e o sol acabou.
aí dentro o gato enrosca-se onde eu gostaria.
e o mundo dá uma resposta concisa à minha demanda.
diz: sobe as escadas.
é uma turba louca, inumerável, que o diz.
e me mostra o que já sei,
que querer-te é tudo o que faço,
e só o desejo de não te querer me ocupa tanto o espírito
como a saudade.
mas eu já não sei como chegar às tuas escadas.
abro as asas e descubro-as mutiladas.
o mundo não percebe nada.
não sabe, como nós, que não te chega
esse quase nada sem tempo nem sossego.
já o conheces e não te serve.
antes a dor.
e as mãos livres.
voar foi-me interdito
no dia em que pediste paz.
caminhar é fácil.
para consertar as asas, preciso de ti.
lá fora as pedras choram e o sol acabou.
aí dentro o gato enrosca-se onde eu gostaria.
e o mundo dá uma resposta concisa à minha demanda.
diz: sobe as escadas.
é uma turba louca, inumerável, que o diz.
e me mostra o que já sei,
que querer-te é tudo o que faço,
e só o desejo de não te querer me ocupa tanto o espírito
como a saudade.
mas eu já não sei como chegar às tuas escadas.
abro as asas e descubro-as mutiladas.
o mundo não percebe nada.
não sabe, como nós, que não te chega
esse quase nada sem tempo nem sossego.
já o conheces e não te serve.
antes a dor.
e as mãos livres.
voar foi-me interdito
no dia em que pediste paz.
caminhar é fácil.
para consertar as asas, preciso de ti.
domingo, 17 de Janeiro de 2010
Subitamente na noite
nunca mais verei o teu rosto. nunca mais como era antes,
como era um minuto antes da separação.
quando o amor ainda prometia algo de bom.
já então não havia possível que te bastasse,
e até a essência dos dias nos separava.
mas ainda sorrias quando concordávamos que talvez o amor fosse mesmo aquele tumulto desejado, que vem sempre quando menos se espera e para o qual nunca estamos preparados.
promessas nunca fizeste, essas são para os românticos e para os mentirosos e tu nunca foste nem uma coisa nem outra.
e soubeste sempre que o amor também vem de onde menos se quer, e que por isso num minuto nos consola,
mas no seguinte já nos consome.
e que nem sempre triunfa, mas inevitavelmente nos atrai.
agora
é a ausência interminável dos teus olhos.
e ver-te continuamente em pensamento,
com estes lábios cegos que tão facilmente te beijaram
há 700 noites.
esvaziámos o amor de nós,
e agora
é a ausência interminável dos teus olhos.
e uns raios de sol que por vezes despontam
subitamente a um canto do bar. sem medo.
à espreita do meu próximo verso.
como era um minuto antes da separação.
quando o amor ainda prometia algo de bom.
já então não havia possível que te bastasse,
e até a essência dos dias nos separava.
mas ainda sorrias quando concordávamos que talvez o amor fosse mesmo aquele tumulto desejado, que vem sempre quando menos se espera e para o qual nunca estamos preparados.
promessas nunca fizeste, essas são para os românticos e para os mentirosos e tu nunca foste nem uma coisa nem outra.
e soubeste sempre que o amor também vem de onde menos se quer, e que por isso num minuto nos consola,
mas no seguinte já nos consome.
e que nem sempre triunfa, mas inevitavelmente nos atrai.
agora
é a ausência interminável dos teus olhos.
e ver-te continuamente em pensamento,
com estes lábios cegos que tão facilmente te beijaram
há 700 noites.
esvaziámos o amor de nós,
e agora
é a ausência interminável dos teus olhos.
e uns raios de sol que por vezes despontam
subitamente a um canto do bar. sem medo.
à espreita do meu próximo verso.
sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010
Quanto baste
devotas ao charme da decadência,
amávamos o cheiro a sexo a furar a penumbra,
o êxtase das sensações ébrias,
aquela arte de viver em temerário funambulismo,
incêndios por dentro e o chão resumido a uma densa linha de pó.
quero o teu tempo e a tua luz, disseste.
e eu disse: só me restam sonhos e madrugada.
mais não tinha que te desse, mas mesmo assim ficaste,
por um instante esquecida do teu rumo
e decidida a indagar-me até ao âmago.
e eu ingenuamente alardeei a minha felicidade a quem quisesse ouvir-me, tomando nos braços a tua imperceptível dádiva, corroída por dentro e em permanente agitação.
e convidei-te a entrar na minha história acreditando num futuro de mãos dadas, a dançar a alegria contigo,
enquanto tu passeavas a tua pesada tristeza pelo mundo, secretamente desejando que alguém te lambesse as feridas
e te resgatasse à noite.
mas ninguém veio senão o silêncio, um imenso silêncio onde te deitaste às cegas, como se fosse um farfalhudo tapete de nuvens.
então soltaste a minha mão para agarrar a vida
e perguntaste: quanto te amas.
e eu disse: quanto baste.
depois recolhi a minha verdade e guardei-a.
entreguei-te uma pedra branca
para pores no coração, no meu lugar.
abri o teu peito, vesti o casaco
e saí.
amávamos o cheiro a sexo a furar a penumbra,
o êxtase das sensações ébrias,
aquela arte de viver em temerário funambulismo,
incêndios por dentro e o chão resumido a uma densa linha de pó.
quero o teu tempo e a tua luz, disseste.
e eu disse: só me restam sonhos e madrugada.
mais não tinha que te desse, mas mesmo assim ficaste,
por um instante esquecida do teu rumo
e decidida a indagar-me até ao âmago.
e eu ingenuamente alardeei a minha felicidade a quem quisesse ouvir-me, tomando nos braços a tua imperceptível dádiva, corroída por dentro e em permanente agitação.
e convidei-te a entrar na minha história acreditando num futuro de mãos dadas, a dançar a alegria contigo,
enquanto tu passeavas a tua pesada tristeza pelo mundo, secretamente desejando que alguém te lambesse as feridas
e te resgatasse à noite.
mas ninguém veio senão o silêncio, um imenso silêncio onde te deitaste às cegas, como se fosse um farfalhudo tapete de nuvens.
então soltaste a minha mão para agarrar a vida
e perguntaste: quanto te amas.
e eu disse: quanto baste.
depois recolhi a minha verdade e guardei-a.
entreguei-te uma pedra branca
para pores no coração, no meu lugar.
abri o teu peito, vesti o casaco
e saí.
terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
Por onde começar
era o seu primeiro amor adulto
e não sabia por onde começar o fim da saudade.
todos os seus sonhos adoeceram
com um sorriso em falta.
e a voz da culpa voltou a apontar-lhe as falhas.
viu-se ao espelho e não se reconheceu,
deu-se ao caderno em branco
e diluiu-se em tinta para soletrar o amor.
passou a frequentar templos de enganar vácuos
e hospitais para comparar feridas.
tornou a enrolar-se no tecido do medo,
de espada em punho e grito mudo e o corpo dela intacto,
lá por dentro do seu corpo dorido, até à lava.
só lhe restava reescrever a memória
(como fez o proust
e o rimbaud, quem sabe),
incendiar as gavetas das metáforas,
calar o desejo
e esperar.
e não sabia por onde começar o fim da saudade.
todos os seus sonhos adoeceram
com um sorriso em falta.
e a voz da culpa voltou a apontar-lhe as falhas.
viu-se ao espelho e não se reconheceu,
deu-se ao caderno em branco
e diluiu-se em tinta para soletrar o amor.
passou a frequentar templos de enganar vácuos
e hospitais para comparar feridas.
tornou a enrolar-se no tecido do medo,
de espada em punho e grito mudo e o corpo dela intacto,
lá por dentro do seu corpo dorido, até à lava.
só lhe restava reescrever a memória
(como fez o proust
e o rimbaud, quem sabe),
incendiar as gavetas das metáforas,
calar o desejo
e esperar.
sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
Medida certa
amor perfeito, amor,
só se for com deus.
e a tua estridente humanidade, embora cintile,
jamais terá a medida do sublime
(senão para mim.
respiramos por acaso.
não por vivermos
porque este viver sem o calor de um abraço é morte já.
respiramos por acaso.
e na geada que nos cerca, em pedra de túmulo esculpida,
sobram correntes de ar muito antigas,
correntes que se enrolam ao pensamento e apertam a alma,
em permanência insinuando-se no rasto da liberdade.
não há parco amor nem excessivo, amor,
só se for infeliz.
e a minha inexorável humanidade desfoca-me o olhar
e morde-me o coração
com a voragem dos abismos funestos,
apartando-me de ti,
(mas ainda o sinto tremer
como lábios a rir
ou corpos em fusão.
e mesmo dentro desta palidez de véus sobrepostos
em que as minhas horas se verteram,
ainda acredito
numa medida certa para nós.
só se for com deus.
e a tua estridente humanidade, embora cintile,
jamais terá a medida do sublime
(senão para mim.
respiramos por acaso.
não por vivermos
porque este viver sem o calor de um abraço é morte já.
respiramos por acaso.
e na geada que nos cerca, em pedra de túmulo esculpida,
sobram correntes de ar muito antigas,
correntes que se enrolam ao pensamento e apertam a alma,
em permanência insinuando-se no rasto da liberdade.
não há parco amor nem excessivo, amor,
só se for infeliz.
e a minha inexorável humanidade desfoca-me o olhar
e morde-me o coração
com a voragem dos abismos funestos,
apartando-me de ti,
(mas ainda o sinto tremer
como lábios a rir
ou corpos em fusão.
e mesmo dentro desta palidez de véus sobrepostos
em que as minhas horas se verteram,
ainda acredito
numa medida certa para nós.
quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009
Pouco tempo
lembro-me do tempo em que trazia raparigas escondidas na dobra da saia. era sempre Outono e as folhas caíam na praça sem ruído, enquanto eu sonhava milagres e coleccionava canções. às vezes escrevia, às vezes gritava. exigia coerência em todos e admirava a rebeldia de quem a cada dia se reinventava.
tinha um mealheiro, um balde de gelo, uma hipoteca, uma máquina de riso. e um melro preferido e uma flor entre as árvores. e um travo a liberdade falsa, como a que sentem as andorinhas quando partem e os gatos quando arranham e os cavalos quando galopam.
diziam-me emotiva e eu tudo calava.
era sempre Outono e eu repetia o meu disfarce até ficar puído e estrear um outro idêntico, talvez menos largo ou mais discreto. talvez apenas de outra gradação de azul.
mas um dia a fé visitou-me. com a mão segurei o seu gesto de paz e segui-a, passo a passo nas minhas botas de viagem.
fechei os olhos e consegui cheirar o amor,
senti-lo a marinhar e vê-lo a desmesurar-se até não caber no mundo e finalmente me ferir.
tive medo. hesitei.
mas então já era tarde demais para recolher ao marasmo das fantasias felizes.
já o inverno se agigantava no meu peito, assobiando à nova aurora que jamais me despertara. já o oceano de todas as vagas se abria à minha frente,
varrendo praça e árvores
e melros e gatos e medo
numa única espiral.
já era tarde para seguir em linha recta até ao final.
então voei do Outono com as folhas e descansei no teu peito.
era Fevereiro e trovejava.
a dobra da minha saia vazia dançava no teu encalço e o chão da praça tinha o brilho das pedras monumentais.
e havia luz no teu rosto. e entusiasmo no teu riso. e sonhos por viver nas tuas mãos.
estendi os meus olhos e alcancei-te.
compreendi a utilidade da fé e a redundância da dor.
ousei o sorriso, o repouso, a certeza.
e saboreei a plenitude da vida, com os dedos flamejantes no tornozelo da felicidade.
mas em pouco tempo te perdi nas colinas do tempo.
não soube escalá-las e transpor o seu flanco em fluxo permanente.
faltavam-me as botas certas. ou terei serenado demasiadas vezes nas tuas palavras,
repousado demais no teu colo, afinal intranquilo.
agora
já nos resta pouco tempo para dizer o amor como fruto novo.
pouco tempo para sermos.
para nos desvendarmos,
para chorarmos
e sermos felizes.
já nos resta pouco tempo.
para restaurar Fevereiro
nos nossos corações de Agosto descendente.
tinha um mealheiro, um balde de gelo, uma hipoteca, uma máquina de riso. e um melro preferido e uma flor entre as árvores. e um travo a liberdade falsa, como a que sentem as andorinhas quando partem e os gatos quando arranham e os cavalos quando galopam.
diziam-me emotiva e eu tudo calava.
era sempre Outono e eu repetia o meu disfarce até ficar puído e estrear um outro idêntico, talvez menos largo ou mais discreto. talvez apenas de outra gradação de azul.
mas um dia a fé visitou-me. com a mão segurei o seu gesto de paz e segui-a, passo a passo nas minhas botas de viagem.
fechei os olhos e consegui cheirar o amor,
senti-lo a marinhar e vê-lo a desmesurar-se até não caber no mundo e finalmente me ferir.
tive medo. hesitei.
mas então já era tarde demais para recolher ao marasmo das fantasias felizes.
já o inverno se agigantava no meu peito, assobiando à nova aurora que jamais me despertara. já o oceano de todas as vagas se abria à minha frente,
varrendo praça e árvores
e melros e gatos e medo
numa única espiral.
já era tarde para seguir em linha recta até ao final.
então voei do Outono com as folhas e descansei no teu peito.
era Fevereiro e trovejava.
a dobra da minha saia vazia dançava no teu encalço e o chão da praça tinha o brilho das pedras monumentais.
e havia luz no teu rosto. e entusiasmo no teu riso. e sonhos por viver nas tuas mãos.
estendi os meus olhos e alcancei-te.
compreendi a utilidade da fé e a redundância da dor.
ousei o sorriso, o repouso, a certeza.
e saboreei a plenitude da vida, com os dedos flamejantes no tornozelo da felicidade.
mas em pouco tempo te perdi nas colinas do tempo.
não soube escalá-las e transpor o seu flanco em fluxo permanente.
faltavam-me as botas certas. ou terei serenado demasiadas vezes nas tuas palavras,
repousado demais no teu colo, afinal intranquilo.
agora
já nos resta pouco tempo para dizer o amor como fruto novo.
pouco tempo para sermos.
para nos desvendarmos,
para chorarmos
e sermos felizes.
já nos resta pouco tempo.
para restaurar Fevereiro
nos nossos corações de Agosto descendente.
terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
Posso
a cada instante
posso ser tudo o que quiser.
a cada instante
gato faca macaco mulher.
a cada instante
sombra sapo pele roupa.
a cada instante
anjo água roda chama.
a cada instante
posso ser tudo o que quiser,
neste quarto em suspenso
nesta vida que me suga.
só não posso ser o teu amor
(e é tudo o que quero ser
porque
quando eu era o teu amor
o mundo parecia mais bonito,
embora eu não reparasse nele,
nem nas árvores a crescer,
nem no incrível azul do céu,
nem nos sorrisos das crianças.
só em ti e na incrível luz dos teus olhos
e no teu abraço
onde era feliz como quem chega a casa).
só não posso ser o teu amor
porque
ser o teu amor
depende de ti
(e não do que eu sinto).
agora sem abrigo,
renasço-me em cinza que nenhum vento quer levar.
e sobra penumbra ao sol
e, aos poemas, fé.
mas
a cada instante
ainda posso ser tudo.
até voltar a ser tua.
posso ser tudo o que quiser.
a cada instante
gato faca macaco mulher.
a cada instante
sombra sapo pele roupa.
a cada instante
anjo água roda chama.
a cada instante
posso ser tudo o que quiser,
neste quarto em suspenso
nesta vida que me suga.
só não posso ser o teu amor
(e é tudo o que quero ser
porque
quando eu era o teu amor
o mundo parecia mais bonito,
embora eu não reparasse nele,
nem nas árvores a crescer,
nem no incrível azul do céu,
nem nos sorrisos das crianças.
só em ti e na incrível luz dos teus olhos
e no teu abraço
onde era feliz como quem chega a casa).
só não posso ser o teu amor
porque
ser o teu amor
depende de ti
(e não do que eu sinto).
agora sem abrigo,
renasço-me em cinza que nenhum vento quer levar.
e sobra penumbra ao sol
e, aos poemas, fé.
mas
a cada instante
ainda posso ser tudo.
até voltar a ser tua.
sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
Podia
podia ter sido amor
aquele calafrio escada acima.
podia ter sido amor
aquela febre a deslizar na noite,
o sangue a ferver,
o coração desenfreado.
podia ter sido amor
aquele abraço ascendente
e o riso em espiral
e o pranto a derreter.
podia ter sido amor
a gota de ternura depois da briga
e aquela teimosa incerteza
sempre a cintilar nos teus olhos.
podia ter sido, amor,
tudo o que é do mundo
e mais uma vida.
é outra porta fechada.
aquele calafrio escada acima.
podia ter sido amor
aquela febre a deslizar na noite,
o sangue a ferver,
o coração desenfreado.
podia ter sido amor
aquele abraço ascendente
e o riso em espiral
e o pranto a derreter.
podia ter sido amor
a gota de ternura depois da briga
e aquela teimosa incerteza
sempre a cintilar nos teus olhos.
podia ter sido, amor,
tudo o que é do mundo
e mais uma vida.
é outra porta fechada.
terça-feira, 24 de Novembro de 2009
Crime não
matar amor devia ser crime.
delito grave com punição à altura.
a forca, a faca, a solidão.
matar amor devia ser crime.
mas não.
é um mal menor apenas
quando aos poucos é o amor que te mata.
delito grave com punição à altura.
a forca, a faca, a solidão.
matar amor devia ser crime.
mas não.
é um mal menor apenas
quando aos poucos é o amor que te mata.
segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Pensamento indómito
queríamos um amor tranquilo, mas não soubemos domá-lo.
hoje subsistimos,
abraçadas à dor que nos sobrevive.
sem consolo neste mundo.
hoje subsistimos,
abraçadas à dor que nos sobrevive.
sem consolo neste mundo.
sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Fui
fui à memória recolher incêndios nossos.
(sem alimento, as línguas extinguiam-se aos poucos.
mas eu ainda conseguia arder.
fui à memória recolher incêndios nossos.
embalei-os ao colo e como anjos ascenderam às nuvens.
(deparei-me a sós com o espelho
e a sensação de ti esvaziada de carne.
colada às mãos.
a minha pele que
como um casaco te agasalhava
emagrece agora
nesta abrupta noite de estrelas apagadas,
neste instante que me sufoca.
neste instante que me sufoca
dobro-me sobre mim, empilho imagens
e fico a repetir-me no eco.
em silêncio o coração dói melhor?
(sem alimento, as línguas extinguiam-se aos poucos.
mas eu ainda conseguia arder.
fui à memória recolher incêndios nossos.
embalei-os ao colo e como anjos ascenderam às nuvens.
(deparei-me a sós com o espelho
e a sensação de ti esvaziada de carne.
colada às mãos.
a minha pele que
como um casaco te agasalhava
emagrece agora
nesta abrupta noite de estrelas apagadas,
neste instante que me sufoca.
neste instante que me sufoca
dobro-me sobre mim, empilho imagens
e fico a repetir-me no eco.
em silêncio o coração dói melhor?
domingo, 1 de Novembro de 2009
Breve
naquele tempo deixava-me ficar nas horas tristes. guardava sorrisos de ternura na algibeira, nas veias inércia, pássaros melancólicos amarrados ao pensamento. asas atadas, vida nenhuma. só a minha carne a amadurecer no veludo do sofá e as manhãs a chegar tarde demais.
depois encontrei-te.
havia um desejo palpável sentado à mesma mesa, presença real como um amigo, na cadeira do medo ao nosso lado.
tu eras o prodigioso fruto, a frescura feita luz a despenhar diamantes.
breves no mundo somos, disseste,
breves como punhais.
e de repente falámos de amor.
tudo começa como começa a chover e nós começámo-nos nesse instante. e eu disse:
o amor é um labirinto de renda,
sempre com enigmas por percorrer.
e tu disseste: o amor é a resposta.
mas, como eu, sabias.
depois encontrei-te.
havia um desejo palpável sentado à mesma mesa, presença real como um amigo, na cadeira do medo ao nosso lado.
tu eras o prodigioso fruto, a frescura feita luz a despenhar diamantes.
breves no mundo somos, disseste,
breves como punhais.
e de repente falámos de amor.
tudo começa como começa a chover e nós começámo-nos nesse instante. e eu disse:
o amor é um labirinto de renda,
sempre com enigmas por percorrer.
e tu disseste: o amor é a resposta.
mas, como eu, sabias.
quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
Declive
essa mesma ausência que me come a cabeça
(abutre fantasma galinha tubarão
alimenta-me nos dias de pedra
em que venço a montanha
(de tornozelos feridos e sapatos de neve.
noutros
desço da cerejeira,
embrulho-te os olhos que tão atabalhoadamente me amam
e sinto asas a crescer na solidão.
(por que não vens comigo,
o declive te petrifica e a pressão te tolhe,
terei eu de voar?
acredito ainda numa verdade para a minha fome
sem te entregar o arco-íris nem pranto que se veja.
mas
preferia aterrar no teu peito,
assomar aos teus sonhos
e descansar.
(abutre fantasma galinha tubarão
alimenta-me nos dias de pedra
em que venço a montanha
(de tornozelos feridos e sapatos de neve.
noutros
desço da cerejeira,
embrulho-te os olhos que tão atabalhoadamente me amam
e sinto asas a crescer na solidão.
(por que não vens comigo,
o declive te petrifica e a pressão te tolhe,
terei eu de voar?
acredito ainda numa verdade para a minha fome
sem te entregar o arco-íris nem pranto que se veja.
mas
preferia aterrar no teu peito,
assomar aos teus sonhos
e descansar.
terça-feira, 8 de Setembro de 2009
terça-feira, 4 de Agosto de 2009
Essência
já deixaste há anos de coleccionar corações,
eu sei.
o teu perene desejo persiste voltado para fora,
como todas as vestes humanas, asas e ventres incluídos,
que só existem com sentido no mundo,
como quase dizia o ponty.
também eu e tu somos fenómenos,
como o são as tempestades e as árvores e os livros e os outros,
nada de essências e interioridades,
apenas coisas transformadas em longos e curtos vocábulos,
tão antigos como o céu.
a essência é o vazio, qual arquitectura, como quase dizias tu.
e nesse vazio fluem as nossas ideias,
umas mais flutuantes do que outras.
umas navegáveis, outras caminhantes, poucas voadoras, todas mutantes. é nele que acumulamos o nomeável e o indizível, emoções e sons e cores. e colecções. de gritos e risos e mortes e memórias de cordel. e corações. e pulsações.
e sorrisos grandes como a rússia.
é nele, nesse nosso vazio profundo que nos é essencial,
que perdemos e ganhamos o mundo,
significando o real, essa maravilha azul onde quase existimos.
deixaste de coleccionar corações,
eu sei.
agora penduras fitas coloridas no quarto,
que esvoaçam ao sopro da tua voz e pedem atenção em silêncio.
eu só peço um sorriso de país pequeno com lágrimas embrulhadas na cabeça.
e quase digo que ainda é cedo
para espalhar o meu tempo no teu corpo
e morar dentro de ti.
eu sei.
o teu perene desejo persiste voltado para fora,
como todas as vestes humanas, asas e ventres incluídos,
que só existem com sentido no mundo,
como quase dizia o ponty.
também eu e tu somos fenómenos,
como o são as tempestades e as árvores e os livros e os outros,
nada de essências e interioridades,
apenas coisas transformadas em longos e curtos vocábulos,
tão antigos como o céu.
a essência é o vazio, qual arquitectura, como quase dizias tu.
e nesse vazio fluem as nossas ideias,
umas mais flutuantes do que outras.
umas navegáveis, outras caminhantes, poucas voadoras, todas mutantes. é nele que acumulamos o nomeável e o indizível, emoções e sons e cores. e colecções. de gritos e risos e mortes e memórias de cordel. e corações. e pulsações.
e sorrisos grandes como a rússia.
é nele, nesse nosso vazio profundo que nos é essencial,
que perdemos e ganhamos o mundo,
significando o real, essa maravilha azul onde quase existimos.
deixaste de coleccionar corações,
eu sei.
agora penduras fitas coloridas no quarto,
que esvoaçam ao sopro da tua voz e pedem atenção em silêncio.
eu só peço um sorriso de país pequeno com lágrimas embrulhadas na cabeça.
e quase digo que ainda é cedo
para espalhar o meu tempo no teu corpo
e morar dentro de ti.
terça-feira, 12 de Maio de 2009
Deriva
em certos momentos perfeitos (sem palavras
mas não mudos, e irrecuperáveis senão à memória)
foste a minha espera
e a minha chegada
até que (por próprio engenho,
a cabrestante) se içou a sólida âncora ilusória
de osso e fé
e me naveguei para fora do teu calor
ao mar, ao mar (imenso mar
turbulento) me entreguei então
e a praia desapareceu no horizonte cor de longe
tenho agora um pássaro de asas presas à cabeça
e um rochedo solitário
no lugar do coração
possa o pássaro voar
e ver-te sorrir (por arte de um sorriso
qualquer no mundo) para que eu volte
a ver a praia
e torne a estender o rochedo (como massa
para pastéis) sem molde para além do teu corpo
mas vivo outra vez
mas não mudos, e irrecuperáveis senão à memória)
foste a minha espera
e a minha chegada
até que (por próprio engenho,
a cabrestante) se içou a sólida âncora ilusória
de osso e fé
e me naveguei para fora do teu calor
ao mar, ao mar (imenso mar
turbulento) me entreguei então
e a praia desapareceu no horizonte cor de longe
tenho agora um pássaro de asas presas à cabeça
e um rochedo solitário
no lugar do coração
possa o pássaro voar
e ver-te sorrir (por arte de um sorriso
qualquer no mundo) para que eu volte
a ver a praia
e torne a estender o rochedo (como massa
para pastéis) sem molde para além do teu corpo
mas vivo outra vez
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