sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Rio

o que em mim é coração ama-te,
o que em mim é pele deseja-te,
o que em mim é água para ti transborda
rio em busca de mar, humedecendo a terra de beijos

assim me cumpro para lá das metáforas litorais,
indiferente ao tempo,
com uma música muito doce a reverberar no sangue,
mapeando a ternura entre os meus velhos ossos

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O teu lugar

o que fiz enquanto o meu coração te aguardava
foi fugir ao passado,
passar-lhe rasteiras e esquivar-me aos seus esgares,
para que não soubesse como encontrar-me, e onde.

deixei-me ficar muito tempo,
flutuando dia a dia num mar de quotidiana indiferença,
leda de cegueira, a salvo do amor, teimosa,
num perpétuo presente com falta de sal.

até que me estalou nas veias a saudade calada
e, com remos de esperança, venci as ondas da memória,
galguei as águas antigas,
os oceanos agitados de lembranças,
ainda a medo.

o passado trouxe-te então de volta,
em vagas mansas, intemporais, gritando.
e como um náufrago recém-chegado à praia,
beijando a areia molhada dos meus sonhos,
tomaste o teu lugar
ao meu lado
e fizeste-nos futuro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Diariamente

um dia quis saber das regras
e fiz caso da maioria
para me fundir nela.

depois reparei nas estrelas
e tu chegaste.

não sabias para onde ias
ou eu não entendi ao que vinhas
em todo o caso esmoreceste.

hoje liga-nos uma década
de conversas caladas,
o fio de sol que bem conheces
adiado nas nossas mãos,
o beijo sempre armado em regresso,
as canções de amor eternas
a pele na pele
como casa reencontrada.

não sei se sabes para onde vais
ou se eu entendo ao que vens
em todo o caso
oxalá te faça sorrir
diariamente.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Uma cortante melancolia

entorna o mundo nas minhas veias
uma cortante melancolia
que tudo toma
e torna orações em gritos,
sufocando-me o riso à nascença, abaixo da garganta,
até me alcançar o coração,
sinfonia movida a címbalos e tambores de carne e sangue.

colhendo dela as minhas eternas ambições
(transformar os meus beijos no pão que te alimenta,
os meus braços no teu vestido,
os meus pés no teu caminho,
a minha pele nos teus sentidos,
lembro-me então que a felicidade tem um nome
(é o teu
e consigo, a custo, devolvê-la ao mundo,
escondida no perfume da vida
que ponho a dançar nos meus versos.

não tenho porém sabedoria que chegue
para me afundar no teu corpo quando não me espera
e fazer do teu sono fechado,
onde nenhuma melancolia do mundo cabe,
o meu abrigo.

sábado, 8 de setembro de 2018

Sem nome

acordas nos meus braços
sem vontade de largar os sonhos, momentaneamente
esquecida da magia do real,
a única que importa.

lânguida, dolente,
voltas-te para o outro lado
e quase sorris,
desligada das sensações mundanas,
fracas por definição,
e enganadoras,
demasiadas vezes,
no passado.

depois estremeces
e recordas-te do amor
ontem aceso
nos nossos corpos,
táctil como mais nada,
em lençóis de gemidos envolvido,
e dizes o que aprendeste
recentemente,
que a vida te dá o que tu dás à vida.

atira-te a ela sem hesitação,
continuas,
não temas um sofrimento
que não podes saber se virá
(e se vier
come-o com a boca toda,
como se fosse doce de leite
a barrar a minha pele
numa vertigem de prazer.

o amor há-de,
naturalmente,
sem rodeios nem alarido,
mostrar-te o seu poder,
sólido e determinado
como os soldados devem ser,
como ele ė o tempo todo,
até nas trincheiras da noite,
e trazer-te, nua,
ao meu colo.

toma-me, digo eu,
admitindo pela primeira vez
a utilidade da lua,
das estrelas, dos oceanos,
meus confidentes de sempre e a desoras.

tu obedeces,
de constelações nos dedos,
a ir e a voltar
impreterivelmente,
como as marés.

eu, orgulhosa,
hasteio a bandeira
e ergo um país
de pedra e alegria
entre o meu coração
e o teu
(onde um dia moraremos juntas

vamos chamar-lhe abraço,
mas ambas sabemos que é mais do que isso

e não tem nome.

nomear é
quase sempre
apenas o princípio da viagem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Nunca te esqueças

apaixonada pelo teu sorriso,
presa aos teus olhos,
amarrada ao teu ser,
caminho inteira,
toda vestida de verdade,
na direcção exacta do teu abraço,
para me despir
sem temer,
sem sequer um tremor,
na concha das tuas mãos,
quente e salgada
como o mar dos trópicos.

e desato os nós do passado,
esse que não entendes
mas vives à beira de perdoar,
esse em que te não via
senão em sonhos,
sem reconhecer que eras tu que os habitavas.

pelo que digo,
sabes a intensidade do que sinto.
pelo que faço,
conheces a face concreta do que digo.
pelo que dou,
adivinhas a eternidade.

e ficas.

de uma vez.
por todas.

colada ao meu suor,
na minha pele exausta,
na paz do meu coração a chamar por ti,
até de longe,
até do outro lado do mar,
até ao silêncio.

oxalá
nunca deixes de me ouvir,
nem esqueças o mais importante.
a minha língua na tua língua,
sem palavras,
a falar eloquente
como só o corpo sabe.

mesmo sem trazeres o meu retrato ao peito
ou o meu nome tatuado num recanto.

tudo o que o nosso amor precisa
é de tempo

e de um horizonte claro
a acertar-nos o passo.

terça-feira, 24 de julho de 2018

O tempo livre

enquanto recortas papéis e os reinventas,
absorta,
esculpindo figuras do teu inesgotável mundo interior,
numa intensa labuta de quem conquista o espaço,
eu, terrestre como uma ilha,
migo legumes
e aprendo as castas das uvas
e vou às compras
e amanho peixes
e preocupo-me com a combinação de cores da marinada.

este é o tempo livre, dizes,
picando a ponta do polegar no bico da tesoura
como se procurasses verificar se sonhas,
tão leve te sentes.

todo o meu tempo está preso a ti, digo eu, toda orgulho e serenidade,
e levo o copo ao nariz, ou o nariz ao copo, nem sei bem ou se tanto faz,
mergulhando nos aromas de um distinto avesso,
dourado mas verde
de nome
tomado às encostas de onde vem.

pousas a tesoura
e por instantes analisas a menina alada no centro da tua obra,
depois corriges o gancho no cabelo
e estendes-me as mãos, oferecendo-me a boca
num movimento tão suave e natural como o das ondas.

o teu decote incita ao desejo, os teus olhos lambuzam-me de alegria,
a tua língua sabe-me a urgência,
e ali mesmo, atravessando o nosso quotidiano sem calendário,
um anel solar, vindo da janela, envolve-te os dedos
e veste-te de uma luz muito doce, quase silenciosa,
tão fina e translúcida como o cristal que encostas aos lábios,
esses lábios por mim beijados a todas as horas do dia.

vejo o amanhã e não ė voraz mas tranquilo, dizes, sorrindo.
e brindamos ao tempo livre, todo o que nos resta,
ansiamos muito,
o meu preso a ti,
o teu sublimado em gotas de amor à temperatura certa,
vivaças como o orvalho e a bolha do vinho.

sento-me à mesa.
almoçamos?

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Já não

acendo o desejo mais uma vez,
a última enquanto me extingo.

ainda não me gastei por completo,
resta um pedaço de pele por trilhar,
uma réstia de juventude neste caminhar esmaecido,
o coração ainda se desenfreia, quase vibrante.

e páro os meus olhos nos teus, indómita,
como se os esperasses.

na surpresa, recuas.
de braços imóveis, apertas devagar o sorriso e neutralizas a expressão,
mas sentes a aflição desse amor terrivelmente passageiro
a latejar-te nas coxas, um rumor de delicadeza a arrasar-te,
a doçura a voltar-te às memórias, o ardor incompreensível no sexo.
nada que te prenda.

deixas-me um silêncio quente no pescoço
antes de fugires.
e então digo
falta-me morrer no teu corpo. mas já não podes ouvir-me.

domingo, 15 de abril de 2018

Desamparo

ao compreenderes que o amor longevo
adormece a mais natural inquietação,
a teia de mistérios que impele à busca de um sentido para os dias,
iniciaste o processo de despojamento.

a solidão não é menos trágica que o tédio, disseste.

com o pouco que te restou
em três malas de viagem
partiste, renunciando à felicidade
nos braços da poesia.

as chagas no peito cicatrizaram, secou o desejo,
a inquietação transformou-se numa máscara de éter colada ao rosto,
o sentido persistiu incomunicável, mas
pelo menos
sentias-te desperta.

fundias-te no mundo e
enquanto cobrias de cinza os meus olhos na fotografia
e no oblívio deitavas a memória dos meus beijos
para que te fosse menos penosa a demanda
eu continuava a escrever as mesmas linhas sentimentais
guardando objectos e livros e imagens como se fossem importantes
e pudessem arrancar-me à terra,
certeza concreta,
dura e fértil como os primeiros instantes do amor,
esses instantes inquietos, à imagem da natureza.

um dia preveni-te.
a morte muda de voz, reconhece a tragédia.

tu sorriste
de costas para o espelho, não fosses reparar nas rugas,

e não quiseste ouvir-me.
paz à tua alma.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Corre

quando do meu coração ao teu ia apenas uma palavra, o vagar das coisas miúdas demorava-se nos nossos braços, apertados nas costas, conscientes do fim, na dobra da década.

depois desaprendemos o tempo, folheando os dias esfaimados de ternura, o medo da dor a revestir a memória, a esconder a evidência de que a vida é uma queda constante, imparável.

nem sempre é igual, a velocidade do mundo, só a dos ponteiros, dizes.
e eu digo, iludes-te. enquanto durar a empreitada, recomendo-te que corras. mas corre para dentro.
tu espreguiças-te no tempo veloz dos teus encontros com o amor, a pensar que vale a pena sentir tudo o que ele te dá.
como, se há tanto do lado de fora.

eu observo, mas evito abrir a janela.
não vá a frieza do mundo gelar-me, agora que nada nos nossos braços, apertados nas costas, se demora.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pianos

visito a última praia em que nos tocámos
(e toca olafur no rádio do carro

saio para caminhar e molho os pés na nossa história,
então ainda sem desfecho,
ajustando-se melhor ao incómodo de um quarto bafiento
que ao imprevisto óptico que dele nos tirou.

abro a porta desenhada na minha memória de nós,
atravessada de lumes e silêncios agarrados à pele
(e o rádio cala-se, à minha espera
depois reparo que cresceram árvores nas dunas,
talvez para dar sombra ao teu nome,
que ao sol me seca o coração,
e deixo-me ficar até sentir na boca
a água atlântica
que a tua boca deixava na minha,
até sentir nos braços o tempo escasso
em que trocávamos magias
com as mãos enlaçadas
como poemas de carne e amor e sal.

vejo a luz estilhaçar-se nas ondas
(e todos os pianos anoitecem no rádio do carro

enquanto o horizonte escurece,
imune à fogueira que acendo
nas trevas,
neste areal luminoso como janelas
(agora sem gonzales sequer
despeço-me,
de novo, e já sem mágoa,
de ti.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Ouço um fado

parto o que encontro, quebro por dentro, a saudade fala
ouço um fado, quadras, mais nada.

não sei que faça a tanta noite
como não sei que fazer a este dia
ao nascer já magoado
a ranger como papel de jornal
sem as tuas doces mãos a impedir-me
de partir o que encontro
de partir,
por dentro quebrada,
a fingir que não ouço a saudade
forçando-me a chorar.

ouço um fado, quadras, mais nada.
e piso a chuva no caminho.
são lágrimas, digo.

tu pedes silêncio e apagas a luz ao sol.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ainda que me separe

acordei com o teu nome na boca
dobrei-o ao meio
encaixei-o (silencioso
entre dois livros
e desliguei o rumor de escrita
que ameaçava tornar-se carne (ruinosa
nas minhas mãos

e desconheci-me
nesta tranquilidade satisfeita
entre monges e predadores
a tricotar gorros de desejo (ruidoso
na minha cabeça

como sabes
procurei por muito tempo
o sentido do nosso tempo
sem calcular o tempo do teu ódio (sagaz
nem a extensão da tua ausência

mas nunca esqueci as cores
em que preferes vestir-te
a tua colecção de botas
a altura das tuas pernas
o reflexo da minha pele no teu olhar (impaciente
o tamanho do teu sorriso a dançar

não sei para quê

como também sabes
não posso apagar os segredos que me consolam
ainda que me separe do coração (mudo
e demais de ti

terça-feira, 2 de julho de 2013

Enquanto não me vês igual

pensas em mim
como uma estrela que grita
um grão solitário entre a areia
à procura (contra a própria natureza
de uma cor que o faça único

porque sabes de mim
pela dramaturgia
que te imponho
estendida ao sol (às primeiras horas do dia
tão limpa e ainda toda por usar
tranquila como as camisas lavadas
dos rapazes caídos do céu
e escrita ao ponto de te iludir


de vez em quando
olhas para mim (espelhada na noite
a soletrar
em paz a paixão desamparada
e supões que o mar jamais seca ou a lua se apaga
enquanto não me vês
igual aos outros

terça-feira, 25 de junho de 2013

Mais uma vez

num silêncio amoroso
olho as ondas de pés
mergulhados na areia molhada
e conservo os teus olhos no meu aquário interior.

ouço o mundo dizer
era aqui que devia ter aninhado, o teu passarinho,
mas ignoro-o tal como às redes
a rebentar de palavras de que já não preciso.

e namoro as coisas do verão:

o sol a estalar sem dizer nada,
a água impossível de contar,
o peixe à espera das estrelas,

enquanto o mar aberto te fecha
os olhos
mais uma vez.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sem legendas

preciso de encontrar a imperfeição certa
para te dizer o que só a música pode
(sem legendas

até lá brinco às escondidas
com outras artes, esse engodo para predadores
(de beleza

em perfeito silêncio

terça-feira, 9 de abril de 2013

Reclusão

de lagartos amarrados uns aos outros ao pescoço
e uma ideia remota de sol
(incapaz de te secar as poças de dentro
espremes insónias para cima do piano
e acolhes a criança encolhida há anos no armário
nos teus braços
bem dobrados

lá fora
recuperas. e quase consegues ver.
bebes da taça de granito
(a dos pássaros que sobrevoam a primavera
e sem receio voltas-te para o frio
repartindo as frutas pelo arvoredo japonês.

mas não avanças.

de volta à casa
vasculhas na gaveta
(impoluta como um cemitério de aldeia
o vazio do tempo perdido
onde lês que os olhares nunca se perdem
nem sequer se esgotam no acto de olhar,
numa carta esmaecida que um dia
(muito antes de teres escolhido a reclusão
te cobriu de beijos.

em êxtase cais
de rosto ainda virado para a noite
e o mais novo testamento
(esculpido pelas traças
inscreve-se no teu peito.

a porta do armário fecha-se,
acidental.
o piano desata a rir,
os lagartos despertam.

mas nem pestanejas.

longe de mim e do mundo
deixas fugir a criança.
e enredas os fios
da tua própria mortalha.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Para voltar à nuvem

a chuva inunda a natureza
e eu repetidamente
estendo pontes entre a minha boca e a tua
enxuta como a raiz dos cabelos
na semântica da tarde

sonolenta escondo na terra
tudo o que merece ser poema

e lavo a memória neste inverno póstumo
simplificado pelo amor feliz

para voltar à nuvem que desagua nas tuas mãos

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As mãos lembram

as mãos lembram.
decorados os contornos
dos corpos
nelas permanece
(como chaga antiga
a textura da pele.

as mãos lembram.
livres hoje das conjecturas
que as petrificavam
sóbrias entre a multidão
(nunca escondidas
ninguém dá por elas.

nada mudou, no entanto.
ainda me esqueço de tirar os sapatos à chegada
e passo tempo a mais à procura de papéis.
os meus olhos dilatam-se na televisão
mas ainda não precisam de óculos.
continuo sem gato, nem saias, nem cortinados,
uso o mesmo código no multibanco
e às vezes paro à tua porta
a reescrever o teu rosto
nos mapas e nas multas da emel.
desfigurado
(como numa velha fotografia
dá-me um silêncio de voz nítida
que cheira a água e relva.

que
as mãos lembram.
mas o coração não responde.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Casa morta

esta manhã senti a tua luz inesgotável
a bater em cheio nos meus olhos
e encostei ao ouvido as tuas palavras
fechadas no búzio onde
(para meu consolo
só assobiam mares de solidão.

à noite, quando apertar nas mãos
o rio da minha consciência
dizendo-me que o tamanho das coisas depende da perspectiva
e lembrando-me que ao teu lado
tive tudo o que os outros tiveram,
nem mais nem menos
amor
música
cimento
ginástica,
tentarei esquecer mais uma vez que a nossa casa morreu
(e os recantos todos do jardim também
no dia em que fechaste a janela
aos meus quatro sonhos diários,
entalados no pão de deus.

nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
resta agora
apenas uma memória de pranto
com três anos e cor nenhuma
que sedentariamente se senta
(de manta sobre os joelhos
no sofá da melancolia,
relendo vezes infindas
(até se tornar pedra
aquela frase roubada ao kafka,
a esperança existe mas não para nós.

nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
hoje é só mais uma quarta-feira
(de cinza
pendurada no cabide do tempo
e justa de mais para te servir.