quarta-feira, 6 de maio de 2020

Penélope

neste tempo espartano,
inacreditavelmente igual a outro,
o dos nossos antepassados,
vedado à ambição da plenitude,
(comida na mesa,
vinho doce pelas festas,
tecto e cama, roupa lavada,
nenhum destino maior a que aspirar,
igualo-me à natureza,
qual folha ao vento,
pólen de flores,
pássaro entre corolas
(e já não é pouco.

o sonho teima, porém.
mesmo neste tempo espartano,
em que nada se pode desejar,
não consigo evitá-lo.

nesta casa que é uma ilha,
Ítaca inundada de luz, mas vazia até ao cume,
perduro humana, e envolta em fumo,
sem nitidez ao reflectir-me nas gotas unidas da água do banho,
ainda te espero.

e diariamente teço e desteço a memória
materializada em laços e nós de fios de cabelo branco,
mais grossos que os outros,
quase agasalhos,
que anunciam o teu regresso:

o abraço mais longamente sonhado.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Mais um quarto crescente

um tempo de incerteza estugou-me o passo.
de repente a pressa de chegar a um fim
voltou-me para o princípio,
o bem maior de um novo começo,
e um turbilhão de ondas
desfez-me contra as cintilações do passado,
ainda vivo do outro lado das noites quietas.

adormecida, julgando-me desperta,
de olhos turvos, fingindo atenção,
de tornozelos presos a correntes
a ensaiar a prudência,
passei as mãos por todas as estações
e direcções,
escolhendo a mais dolorosa
para te poupar ao drama de me veres definhar
enquanto te ouvia enumerar desilusões imponderáveis
e disparar invisíveis gritos
contra os meus poemas quotidianos.

músicas e danças de todas as nações fizeram-me companhia,
a mil trabalhos me entreguei,
sem argumentos que pudessem atrasar a morte,
e na lua cheia encontrei-me com o remorso,
de garganta em nó a pedir-te perdão em sonhos,
por orgulho inefável,
na manhã seguinte.

agora que o quarto cresce, nem acredito no que vejo:
esta boca fechada já se fundiu na tua,
este lençol deserto chegou a ter a forma do teu corpo,
estas cinzas, este pó a cobrir tudo
foram outrora o nosso amor.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Peter Pan

triste herói
este, que voa
e portanto se crê acima dos sonhos mortais.


regressado da sua viagem,
extenuado e distante,
sem alma viva que o possa contradizer,
não pode evitar aquela sensação de carência a alastrar.

é então que começa a ficar agressivo,
transformando em palavras audíveis
o que nesses momentos pensa,
que toda a terra do nunca o desaponta
e o amor não basta
por jamais coincidir com a resposta exacta,
escrita a espada e fogo,
aos seus desejos de menino encantado.

trazendo na pele o vento e as tempestades na boca,
espera ser adivinhado,
mas é sempre um novo enigma
que o aguarda no regresso,
enquanto todos se recolhem,
temendo a sua fúria,
velha conhecida em crescimento constante.

leva anos a decifrá-lo
e de caminho pratica a solidão,
corajoso como um rio em cortejo pelas matas da memória,
sem que ninguém lhe testemunhe as lágrimas.

e lentamente
o amor apodrece, de raízes encharcadas.

quando finalmente ele está pronto para a doçura,
capaz de admitir a carência, parar com as viagens
e conformar-se com o amor possível,
já é tarde para recuperar toda e qualquer criança perdida.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Branca de Neve

diariamente,
na mais perfeita solidão,
ao espelho mágico perguntava,
espelho meu, espelho meu,
porque é que todos os outros são
mais felizes do que eu?
e o espelho,
cumprindo a sua natureza de coisa inanimada,
embora mágico, incapaz de mentir,
não respondia.

passaram-se semanas, meses.
e ele calado.

uma vez esteve quase.
o reflexo embaciou-se,
diluindo-lhe as rugas,
reconstruindo-lhe o sorriso de menina,
dando-lhe nova vivacidade à pele,
como um filtro do Instagram.
e ela ficou ainda mais bela,
com aquele rosto de vinte anos
e o olhar calejado dos quarenta.
mas o silêncio persistiu.

ano a ano, passou-se uma década
em que
ela drenou os lagos dos seus pensamentos chorosos,
arranjou sete amigos de ocasião na floresta e, para se sentir útil,
arrumou-lhes a casa,
foi com eles à pesca e numerosas vezes ao supermercado,
tricotou cachecóis,
regou flores, abraçou animais, plantou árvores
e descodificou o enredo das missas
e os mistérios da confeitaria.
ainda falou com fantasmas e aprendeu o nome dos pássaros
e a medir a humidade do ar
e a entender as suas próprias comoções.
mas nunca abriu a porta
a ninguém.

certo dia o espelho,
fazia já tantos anos que lhes perdera a conta
e tanto tinha feito sem reparar nisso
que já era incapaz de confiar em magias,
sem que ela nada perguntasse,
quebrou o silêncio:
podes acreditar num amor encantado, imortal,
maior que todas as alegrias precárias,
sujeitas à passagem do tempo.
é certo que nada é mais humano que a solidão
e nenhuma princesa alguma vez foi feliz para sempre,
mas, com a porta fechada, nem um dia.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Educação

a poesia é leal:
tantas vezes sem tempo para ela,
ocupada a viver,
e nunca me abandona.

mesmo que não fale dela a ninguém,
não a apresente nos foyers dos teatros, nos cafés,
não lhe dê nome nem espessura ou carinho,
fica ali, à minha espera no branco da página,
e nada pede em troca.

às vezes pergunta,
porque é que me guardas?
talvez por habitar em mim,
ou por outra razão que desconheço,
tem aquela necessidade de chamar a atenção,
como a que me define.
e eu, sabendo como ela gosta
de se sentir importante,
respondo-lhe,
és modesta e só ocupas duas gavetas.
ela parece acatar,
mas duvido que entenda.

poder ser que um dia descubra,
sem que lho diga,
porque é o meu mais fundo segredo,
que não a posso dar ao mundo
porque é tua,
como o corpo e o coração.
e a minha mãe,
que tão bem me educou,
à moda antiga,
ensinou-me que não se pode dar
o que não é nosso.

permanecerá comigo depois?

domingo, 26 de abril de 2020

Marcas


era um dia quente de outono
depois de uma noite feliz.

a cama ainda desarrumada,
as notícias lidas,
os copos por lavar,
os dentes escovados,
mais uns beijos e um ar de leveza,
o teu abraço a esculpir uma nuvem no meu ombro,
a minha face a deixar marcas na tua,
à nascença condenadas ao inevitável desaparecimento
como os pés na areia a caminho do mar.

estava a calçar os sapatos quando disseste,
mesmo que não fique contigo
vou amar-te para sempre.
e eu disse,
se não estiveres comigo,
para nada o teu amor servirá.

depois fomos dar um passeio,
como se fosse outro dia qualquer.

não era, mas eu não sabia
porque não percebi o que dizias.
que a expressão do amor é como deus,
intermitente,
e por mais que os joelhos se dobrem,
as mãos se unam,
as preces se repitam,
ora existe, ora não.

havia nas tuas palavras,
sei-o agora,
o prenúncio do silêncio
que por estes dias me obriga
a conjugar os verbos no condicional.
mas na hora seguinte,
mergulhada no momento,
era como se não te tivesse ouvido.

o passeio durou até de madrugada e até chegámos a dançar.

sábado, 25 de abril de 2020

Revolução

por esta altura, arreliada por não ganhares o feriado,
porque é importante o trabalho,
a subsistência, o pé de meia,
talvez planeasses descer a avenida de braço dado comigo
e fotografar os homens e as mulheres da liberdade,
escravos dos juros bancários,
das contas da luz
e da responsabilidade familiar,
suposta fonte de máximas alegrias,
deslumbrada com a tenacidade deles,
embora definidos,
pouco mais,
pelo prazer de uma cerveja na esplanada do bairro
e mais uma vitória do benfica na televisão.

é o que agora mais falta lhes faz,
muito mais que o cravo na lapela e a grândola na voz.

por esta altura, provavelmente temerias mais uma noite em claro,
a ouvir-me dormir em tumulto inexplicável,
praguejando contra o vinho e a minha fraqueza.

todavia, sem o esperarmos ou querermos,
o curso dos planos foi interrompido,
a cidade esvaziada,
os sinais mediúnicos baralhados,
o sussurro do espontâneo
vertido numa janela de grades invisíveis,
que num pestilento ápice nos congelou.

por isso, e devido a este incontrolável escrevinhar,
meu pão de cada dia,
por esta altura já gastei
inteiramente
o caderninho vermelho que me deste
com pensamentos avulsos,
que jamais conhecerão o prelo
ou o retorno em pé de meia que idealizaste.
são perfeitamente imprestáveis
como esta mania de viver os dias um a um,
qual gato caseiro,
acreditando que a tudo tem direito
menos a caçar para comer.

por esta altura,
sem ti,
uma chaga reaberta,
cada hora é uma revolução calada.

bato na mesa,
ergo-me, visto o casaco, calço os sapatos e digo,
agora é que vou lá, seja feita a minha vontade,
tenho pernas para andar
e lábios para beijar
e mãos para tocar.

mas logo a seguir esmoreço.
dispo o casaco, descalço os sapatos, respiro fundo
e de peito em sangue
arranco às entranhas o que sinto,
despejando todo o tumulto no copo.

por esta altura, bebo-te em silêncio.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Motown

um golpe no indicador,
a pele num instante branca
como o vinco de um lençol
e logo a seguir aquele vermelho todo,
recorda-me que talvez prefira a morte
a este silêncio insípido,
a estes gestos doentes que não vês,
estes lábios mordidos de nervos
e o coração partido em dois.

depois reparo que o sol nasce sempre
apesar da noite que carrego dentro
sem que alguém mo aponte,
e levanto-me.

a sombra deste amor
é um abismo de ruídos estridentes que não ouço.
quem dera fossem harmoniosos
para me esgueirar neles e dançar.
assim vivo em queda
como se pudesse morrer muitas vezes.

pergunto-me
onde estão as pedras para as covas dos olhos,
agora que só me restam as fotografias,
onde sorris parada, mais uma vez?
o que faço destas memórias esfumadas,
irrecuperáveis,
que me dão a impressão,
como o branco dos teus olhos nos retratos,
das coisas belas que aniquilam?

se um dia te fizer falta,
eu e os meus erros,
a jactância,
a inquietude,
o riso que me desponta ao teu lado,
o cheiro peculiar,
diz,
não hesites.
é tudo teu, como é teu este amor antigo,
a passar de moda como uma canção da Motown.
e tua cada inútil lágrima que deito.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Natural

se me empurras para longe, só me apontas as falhas
e a minha maneira de salvar os dias
apenas te parece um erro de empatia que não podes entender,
se a ternura não chega quando a carne se cala,
amputados os nossos corpos por tua vontade,
eu afasto-me.
a reacção é natural,
também aqui estou de rastos,
com as tuas raízes no meu coração insignificante,
sob os astros que se não vêem,
a subir esta íngreme colina onde gostava de levar-te,
fizesse a minha existência alguma diferença no teu mundo.

é a raiva que te alimenta os versos, dizes.
e eu digo, julgas-me maior do que sou,
prosaica e terrena como o quotidiano,
estou melhor sem poesia do que sem ti.

mas
se me dás um caminho, eu ando.
a reacção é natural,
também aqui estou neste jardim nascente
com um lago ao centro,
amorosa companhia que nada exige,
onde as memórias flutuam descompassadas
e os pássaros se refrescam mudos
e as flores se olham ao espelho, altivas,
tão conscientes da sua justa beleza como tu.

mesmo que não escutes o som dos meus passos,
eles só conhecem uma direcção,
a luz dos teus olhos apagada de momento
e a paz do teu abraço, naturalmente.

domingo, 19 de abril de 2020

Navegável

não sou do tamanho da minha tristeza,
mas mais pequena,
grão de terra da herdade imensa,
poeira vocal no cântico dos fantasmas
que me trazem crianças pela mão
e se misturam nas teias de nuvens suspensas dos tectos.

ainda não é a hora, dizem.
e eu digo, que o desejo não se consuma
nem o fulgor da noite me disperse. e tu dizes,
isso não é o que quero dizer,
sei bem do que preciso
e nada me isolará do futuro.

as plantas contra a morte distraem-me da fome,
no pensamento ardem-me,
imagino-as florestas góticas,
de ramos desmanchados e folhas acumuladas
como leitos a abraçar os nossos corpos,

agiganto-me a imaginar, enquanto me
esqueço que o prazer existia,
e o surpreendente amor, em fios de cabelos tecidos,
se ajustava ainda à medida da minha dor.

os mendigos mendigam,
os alegres alegram,
os herdeiros herdam,
os tristes enfadam, eu sei.
e sou todos ao mesmo tempo,
temor nenhum
porque já fui o teu suspiro,
rica só em presságios.

hoje em lágrimas navegável,
cozinho duas vezes por dia
como as mães extremosas de antigamente,
simulacro de uma sinfonia doméstica em busca de sentido,
sem rumo.

fosse eu maior que a minha tristeza
e não deixaria rasto no universo.

dava-te novas vagas de gestos musicais
e o que precisasses.

então poderíamos ser felizes.

mas há quem prefira conclusões à tona da água.

sábado, 18 de abril de 2020

Ilegível

bravas no primeiro passo,
logo nos acobardamos no seguinte,
presas afiadas,
tementes à loucura,
por hábito parceiras da solidão
em defesa do que somos,
uma no caos por poder,
outra na pressa por querer,
para lá do amor por cumprir.

há pequenos acontecimentos que persistem, dizes.
têm aparência humana,
em múltiplas combinações de corpos,
corações e mentes, digo eu,
no teu bairro, estrangeira
na tua casa, visita
na tua cama, sem descanso,
na minha natureza própria,
ilegível mesmo quando me prostro nua à tua frente.

nada há de objectivo no que sinto,
só que o amanhã me dói dos pés à alma,
tanto quanto ontem desejava abraçar-te uma e outra vez, digo agora.
não duvido, dizes tu, distante.

e a luz respira como no tempo das primeiras palavras,
enquanto o mundo desperta
de novo
não propício ao toque,
brincando connosco na sua impecável limpeza
de risos e beijos.

ainda te lembras da nossa velhice?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Marioneta

suspensa no tempo como uma marioneta
de cigarro nos dedos
fumo para me agasalhar
(o teu abraço em falta,
o teu olhar longínquo,
a tua raiva ainda ardente.

é um jogo sem fim, este,
em que como uma marioneta
de cigarro nos dedos
dou voltas ao meu papel na tua vida,
a fumar
enquanto luto por um caminho de paz.

mas todos sabem
que lutar a sós
é tão inútil como fumar:
não dá rumo às marionetas que somos,
suspensas no tempo que nos coube para sermos
(sem direcção, texto ou didascálias,
sempre a improvisar
mesmo quando o acertado talvez seja sair de cena,
depor armas
e fumar apenas,
em silêncio, na paz submersa
(e esquecer.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O medo era uma página em branco

o medo era uma página em branco
a bloquear o poema.

na verdade não passava de um rumor,
indistinto como nevoeiro,
mas nunca parava,
e ainda se punha em bicos de pés
quando eu tinha a coragem de desviar os olhos dele.

às vezes corria as cortinas sobre aquela brancura,
resguardada em dias novos onde nada me tolhia,
entre brincadeiras vagas e jogos absurdos,
feitos de ilusões, com sabor a alegria.

mas ele encontrava sempre maneira de as atravessar,
vibrante de luz, resiliente,
a magoar os meus tristes olhos,
despojados de ti.

caminhava contra ele, a favor do vento,
e ia envelhecendo,
com vista panorâmica sobre o sal das minhas rugas
e as ruínas dos meus desejos,
lembrando as nossas mãos entrelaçadas
a cada manhã
sem esforço nem expectativa.

depois vi-te passar
e o teu gracioso balanço
encheu de força o meu pensamento,
ansioso por voltar àquela noite
em que pela primeira vez
as nossas mãos se entrelaçaram,
gritando-nos que o nosso princípio era anterior a esse momento,
que o nosso amor já o era
antes de o começarmos,
antes de começar a ser esta árvore tímida
que se agiganta nos céus,
indiferente ao peso dos pássaros
e aos cabos eléctricos que lhe servem de vizinhos.

então afiei as garras
e, de dentes cerrados, num impulso feliz,
rasguei-lhe a luz e,
qual fera à mercê de Sansão,
despedacei-o heroicamente.

e, alisando as rugas e a alma,
de desejos reconstruídos com os fios da esperança,
verti-o em poema,
para ti.

tu aceitaste-o. ainda bem que vieste, disseste.
já era tempo, disse eu.
e sorri com olhos audazes, de frente para o futuro,
reconhecendo finalmente
que o medo só afronta quem do amor duvida
e que o maior perigo é perdê-lo enquanto ainda respira,
enquanto nos pode guiar, sábio, vida fora,
a partir dos nossos corações a bater juntos,
das nossas bocas unidas em beijos,
dos nossos corpos incansáveis,
misturados num frenesim de riso, ritmo e suor,
a escrever sem medo,
a sangue verdadeiro,
as páginas que nos sobreviverão.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Janeiro feliz

neste janeiro feliz
que o teu abraço aquece com fogo verdadeiro,
procuro as palavras justas para dizer como o teu corpo e o meu
são um do outro
e por isso os nossos corações batem juntos,
tentando acertar-se a todas as horas.

neste janeiro luminoso
pintas-me de sol a vida num amplexo vertiginoso,
nua na minha cabeça,
as tuas curvas a dançar comigo,
rumo ao céu, ao chão,
rosa dos ventos inteira,
e quase desfaleço de alegria.

promessa de verão em pleno inverno
nascida das tuas mãos para a minha boca,
sorriso que não esmorece,
antes se propaga, contagia,
é lume só nosso e
não há quem não repare nele,
a subir-nos pelas costas,
a descer-nos pelos queixos,
desenhando primaveras secretas na nossa pele e enfim
aconchegando esta interminável queda,
ornada de flores,
soprada pelas cores da audácia
e pelos sabores do desejo
a que sem receios nos abandonamos.

neste janeiro suave,
em que me permito ser só riso e dádiva,
orgulhosamente tua,
estatelo-me no amor,
com gosto,
como gosto,
agarrada a ti.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Rio

o que em mim é coração ama-te,
o que em mim é pele deseja-te,
o que em mim é água para ti transborda
rio em busca de mar, humedecendo a terra de beijos

assim me cumpro para lá das metáforas litorais,
indiferente ao tempo,
com uma música muito doce a reverberar no sangue,
mapeando a ternura entre os meus velhos ossos

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O teu lugar

o que fiz enquanto o meu coração te aguardava
foi fugir ao passado,
passar-lhe rasteiras e esquivar-me aos seus esgares,
para que não soubesse como encontrar-me, e onde.

deixei-me ficar muito tempo,
flutuando dia a dia num mar de quotidiana indiferença,
leda de cegueira, a salvo do amor, teimosa,
num perpétuo presente com falta de sal.

até que me estalou nas veias a saudade calada
e, com remos de esperança, venci as ondas da memória,
galguei as águas antigas,
os oceanos agitados de lembranças,
ainda a medo.

o passado trouxe-te então de volta,
em vagas mansas, intemporais, gritando.
e como um náufrago recém-chegado à praia,
beijando a areia molhada dos meus sonhos,
tomaste o teu lugar
ao meu lado
e fizeste-nos futuro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Diariamente

um dia quis saber das regras
e fiz caso da maioria
para me fundir nela.

depois reparei nas estrelas
e tu chegaste.

não sabias para onde ias
ou eu não entendi ao que vinhas
em todo o caso esmoreceste.

hoje liga-nos uma década
de conversas caladas,
o fio de sol que bem conheces
adiado nas nossas mãos,
o beijo sempre armado em regresso,
as canções de amor eternas
a pele na pele
como casa reencontrada.

não sei se sabes para onde vais
ou se eu entendo ao que vens
em todo o caso
oxalá te faça sorrir
diariamente.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Uma cortante melancolia

entorna o mundo nas minhas veias
uma cortante melancolia
que tudo toma
e torna orações em gritos,
sufocando-me o riso à nascença, abaixo da garganta,
até me alcançar o coração,
sinfonia movida a címbalos e tambores de carne e sangue.

colhendo dela as minhas eternas ambições
(transformar os meus beijos no pão que te alimenta,
os meus braços no teu vestido,
os meus pés no teu caminho,
a minha pele nos teus sentidos,
lembro-me então que a felicidade tem um nome
(é o teu
e consigo, a custo, devolvê-la ao mundo,
escondida no perfume da vida
que ponho a dançar nos meus versos.

não tenho porém sabedoria que chegue
para me afundar no teu corpo quando não me espera
e fazer do teu sono fechado,
onde nenhuma melancolia do mundo cabe,
o meu abrigo.

sábado, 8 de setembro de 2018

Sem nome

acordas nos meus braços
sem vontade de largar os sonhos, momentaneamente
esquecida da magia do real,
a única que importa.

lânguida, dolente,
voltas-te para o outro lado
e quase sorris,
desligada das sensações mundanas,
fracas por definição,
e enganadoras,
demasiadas vezes,
no passado.

depois estremeces
e recordas-te do amor
ontem aceso
nos nossos corpos,
táctil como mais nada,
em lençóis de gemidos envolvido,
e dizes o que aprendeste
recentemente,
que a vida te dá o que tu dás à vida.

atira-te a ela sem hesitação,
continuas,
não temas um sofrimento
que não podes saber se virá
(e se vier
come-o com a boca toda,
como se fosse doce de leite
a barrar a minha pele
numa vertigem de prazer.

o amor há-de,
naturalmente,
sem rodeios nem alarido,
mostrar-te o seu poder,
sólido e determinado
como os soldados devem ser,
como ele ė o tempo todo,
até nas trincheiras da noite,
e trazer-te, nua,
ao meu colo.

toma-me, digo eu,
admitindo pela primeira vez
a utilidade da lua,
das estrelas, dos oceanos,
meus confidentes de sempre e a desoras.

tu obedeces,
de constelações nos dedos,
a ir e a voltar
impreterivelmente,
como as marés.

eu, orgulhosa,
hasteio a bandeira
e ergo um país
de pedra e alegria
entre o meu coração
e o teu
(onde um dia moraremos juntas

vamos chamar-lhe abraço,
mas ambas sabemos que é mais do que isso

e não tem nome.

nomear é
quase sempre
apenas o princípio da viagem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Nunca te esqueças

apaixonada pelo teu sorriso,
presa aos teus olhos,
amarrada ao teu ser,
caminho inteira,
toda vestida de verdade,
na direcção exacta do teu abraço,
para me despir
sem temer,
sem sequer um tremor,
na concha das tuas mãos,
quente e salgada
como o mar dos trópicos.

e desato os nós do passado,
esse que não entendes
mas vives à beira de perdoar,
esse em que te não via
senão em sonhos,
sem reconhecer que eras tu que os habitavas.

pelo que digo,
sabes a intensidade do que sinto.
pelo que faço,
conheces a face concreta do que digo.
pelo que dou,
adivinhas a eternidade.

e ficas.

de uma vez.
por todas.

colada ao meu suor,
na minha pele exausta,
na paz do meu coração a chamar por ti,
até de longe,
até do outro lado do mar,
até ao silêncio.

oxalá
nunca deixes de me ouvir,
nem esqueças o mais importante.
a minha língua na tua língua,
sem palavras,
a falar eloquente
como só o corpo sabe.

mesmo sem trazeres o meu retrato ao peito
ou o meu nome tatuado num recanto.

tudo o que o nosso amor precisa
é de tempo

e de um horizonte claro
a acertar-nos o passo.