quarta-feira, 2 de maio de 2018

Já não

acendo o desejo mais uma vez,
a última enquanto me extingo.

ainda não me gastei por completo,
resta um pedaço de pele por trilhar,
uma réstia de juventude neste caminhar esmaecido,
o coração ainda se desenfreia, quase vibrante.

e páro os meus olhos nos teus, indómita,
como se os esperasses.

na surpresa, recuas.
de braços imóveis, apertas devagar o sorriso e neutralizas a expressão,
mas sentes a aflição desse amor terrivelmente passageiro
a latejar-te nas coxas, um rumor de delicadeza a arrasar-te,
a doçura a voltar-te às memórias, o ardor incompreensível no sexo.
nada que te prenda.

deixas-me um silêncio quente no pescoço
antes de fugires.
e então digo
falta-me morrer no teu corpo. mas já não podes ouvir-me.

domingo, 15 de abril de 2018

Desamparo

ao compreenderes que o amor longevo
adormece a mais natural inquietação,
a teia de mistérios que impele à busca de um sentido para os dias,
iniciaste o processo de despojamento.

a solidão não é menos trágica que o tédio, disseste.

com o pouco que te restou
em três malas de viagem
partiste, renunciando à felicidade
nos braços da poesia.

as chagas no peito cicatrizaram, secou o desejo,
a inquietação transformou-se numa máscara de éter colada ao rosto,
o sentido persistiu incomunicável, mas
pelo menos
sentias-te desperta.

fundias-te no mundo e
enquanto cobrias de cinza os meus olhos na fotografia
e no oblívio deitavas a memória dos meus beijos
para que te fosse menos penosa a demanda
eu continuava a escrever as mesmas linhas sentimentais
guardando objectos e livros e imagens como se fossem importantes
e pudessem arrancar-me à terra,
certeza concreta,
dura e fértil como os primeiros instantes do amor,
esses instantes inquietos, à imagem da natureza.

um dia preveni-te.
a morte muda de voz, reconhece a tragédia.

tu sorriste
de costas para o espelho, não fosses reparar nas rugas,

e não quiseste ouvir-me.
paz à tua alma.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Corre

quando do meu coração ao teu ia apenas uma palavra, o vagar das coisas miúdas demorava-se nos nossos braços, apertados nas costas, conscientes do fim, na dobra da década.

depois desaprendemos o tempo, folheando os dias esfaimados de ternura, o medo da dor a revestir a memória, a esconder a evidência de que a vida é uma queda constante, imparável.

nem sempre é igual, a velocidade do mundo, só a dos ponteiros, dizes.
e eu digo, iludes-te. enquanto durar a empreitada, recomendo-te que corras. mas corre para dentro.
tu espreguiças-te no tempo veloz dos teus encontros com o amor, a pensar que vale a pena sentir tudo o que ele te dá.
como, se há tanto do lado de fora.

eu observo, mas evito abrir a janela.
não vá a frieza do mundo gelar-me, agora que nada nos nossos braços, apertados nas costas, se demora.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pianos

visito a última praia em que nos tocámos
(e toca olafur no rádio do carro

saio para caminhar e molho os pés na nossa história,
então ainda sem desfecho,
ajustando-se melhor ao incómodo de um quarto bafiento
que ao imprevisto óptico que dele nos tirou.

abro a porta desenhada na minha memória de nós,
atravessada de lumes e silêncios agarrados à pele
(e o rádio cala-se, à minha espera
depois reparo que cresceram árvores nas dunas,
talvez para dar sombra ao teu nome,
que ao sol me seca o coração,
e deixo-me ficar até sentir na boca
a água atlântica
que a tua boca deixava na minha,
até sentir nos braços o tempo escasso
em que trocávamos magias
com as mãos enlaçadas
como poemas de carne e amor e sal.

vejo a luz estilhaçar-se nas ondas
(e todos os pianos anoitecem no rádio do carro

enquanto o horizonte escurece,
imune à fogueira que acendo
nas trevas,
neste areal luminoso como janelas
(agora sem gonzales sequer
despeço-me,
de novo, e já sem mágoa,
de ti.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Ouço um fado

parto o que encontro, quebro por dentro, a saudade fala
ouço um fado, quadras, mais nada.

não sei que faça a tanta noite
como não sei que fazer a este dia
ao nascer já magoado
a ranger como papel de jornal
sem as tuas doces mãos a impedir-me
de partir o que encontro
de partir,
por dentro quebrada,
a fingir que não ouço a saudade
forçando-me a chorar.

ouço um fado, quadras, mais nada.
e piso a chuva no caminho.
são lágrimas, digo.

tu pedes silêncio e apagas a luz ao sol.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ainda que me separe

acordei com o teu nome na boca
dobrei-o ao meio
encaixei-o (silencioso
entre dois livros
e desliguei o rumor de escrita
que ameaçava tornar-se carne (ruinosa
nas minhas mãos

e desconheci-me
nesta tranquilidade satisfeita
entre monges e predadores
a tricotar gorros de desejo (ruidoso
na minha cabeça

como sabes
procurei por muito tempo
o sentido do nosso tempo
sem calcular o tempo do teu ódio (sagaz
nem a extensão da tua ausência

mas nunca esqueci as cores
em que preferes vestir-te
a tua colecção de botas
a altura das tuas pernas
o reflexo da minha pele no teu olhar (impaciente
o tamanho do teu sorriso a dançar

não sei para quê

como também sabes
não posso apagar os segredos que me consolam
ainda que me separe do coração (mudo
e demais de ti

terça-feira, 2 de julho de 2013

Enquanto não me vês igual

pensas em mim
como uma estrela que grita
um grão solitário entre a areia
à procura (contra a própria natureza
de uma cor que o faça único

porque sabes de mim
pela dramaturgia
que te imponho
estendida ao sol (às primeiras horas do dia
tão limpa e ainda toda por usar
tranquila como as camisas lavadas
dos rapazes caídos do céu
e escrita ao ponto de te iludir


de vez em quando
olhas para mim (espelhada na noite
a soletrar
em paz a paixão desamparada
e supões que o mar jamais seca ou a lua se apaga
enquanto não me vês
igual aos outros

terça-feira, 25 de junho de 2013

Mais uma vez

num silêncio amoroso
olho as ondas de pés
mergulhados na areia molhada
e conservo os teus olhos no meu aquário interior.

ouço o mundo dizer
era aqui que devia ter aninhado, o teu passarinho,
mas ignoro-o tal como às redes
a rebentar de palavras de que já não preciso.

e namoro as coisas do verão:

o sol a estalar sem dizer nada,
a água impossível de contar,
o peixe à espera das estrelas,

enquanto o mar aberto te fecha
os olhos
mais uma vez.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sem legendas

preciso de encontrar a imperfeição certa
para te dizer o que só a música pode
(sem legendas

até lá brinco às escondidas
com outras artes, esse engodo para predadores
(de beleza

em perfeito silêncio

terça-feira, 9 de abril de 2013

Reclusão

de lagartos amarrados uns aos outros ao pescoço
e uma ideia remota de sol
(incapaz de te secar as poças de dentro
espremes insónias para cima do piano
e acolhes a criança encolhida há anos no armário
nos teus braços
bem dobrados

lá fora
recuperas. e quase consegues ver.
bebes da taça de granito
(a dos pássaros que sobrevoam a primavera
e sem receio voltas-te para o frio
repartindo as frutas pelo arvoredo japonês.

mas não avanças.

de volta à casa
vasculhas na gaveta
(impoluta como um cemitério de aldeia
o vazio do tempo perdido
onde lês que os olhares nunca se perdem
nem sequer se esgotam no acto de olhar,
numa carta esmaecida que um dia
(muito antes de teres escolhido a reclusão
te cobriu de beijos.

em êxtase cais
de rosto ainda virado para a noite
e o mais novo testamento
(esculpido pelas traças
inscreve-se no teu peito.

a porta do armário fecha-se,
acidental.
o piano desata a rir,
os lagartos despertam.

mas nem pestanejas.

longe de mim e do mundo
deixas fugir a criança.
e enredas os fios
da tua própria mortalha.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Para voltar à nuvem

a chuva inunda a natureza
e eu repetidamente
estendo pontes entre a minha boca e a tua
enxuta como a raiz dos cabelos
na semântica da tarde

sonolenta escondo na terra
tudo o que merece ser poema

e lavo a memória neste inverno póstumo
simplificado pelo amor feliz

para voltar à nuvem que desagua nas tuas mãos

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

As mãos lembram

as mãos lembram.
decorados os contornos
dos corpos
nelas permanece
(como chaga antiga
a textura da pele.

as mãos lembram.
livres hoje das conjecturas
que as petrificavam
sóbrias entre a multidão
(nunca escondidas
ninguém dá por elas.

nada mudou, no entanto.
ainda me esqueço de tirar os sapatos à chegada
e passo tempo a mais à procura de papéis.
os meus olhos dilatam-se na televisão
mas ainda não precisam de óculos.
continuo sem gato, nem saias, nem cortinados,
uso o mesmo código no multibanco
e às vezes paro à tua porta
a reescrever o teu rosto
nos mapas e nas multas da emel.
desfigurado
(como numa velha fotografia
dá-me um silêncio de voz nítida
que cheira a água e relva.

que
as mãos lembram.
mas o coração não responde.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Casa morta

esta manhã senti a tua luz inesgotável
a bater em cheio nos meus olhos
e encostei ao ouvido as tuas palavras
fechadas no búzio onde
(para meu consolo
só assobiam mares de solidão.

à noite, quando apertar nas mãos
o rio da minha consciência
dizendo-me que o tamanho das coisas depende da perspectiva
e lembrando-me que ao teu lado
tive tudo o que os outros tiveram,
nem mais nem menos
amor
música
cimento
ginástica,
tentarei esquecer mais uma vez que a nossa casa morreu
(e os recantos todos do jardim também
no dia em que fechaste a janela
aos meus quatro sonhos diários,
entalados no pão de deus.

nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
resta agora
apenas uma memória de pranto
com três anos e cor nenhuma
que sedentariamente se senta
(de manta sobre os joelhos
no sofá da melancolia,
relendo vezes infindas
(até se tornar pedra
aquela frase roubada ao kafka,
a esperança existe mas não para nós.

nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
hoje é só mais uma quarta-feira
(de cinza
pendurada no cabide do tempo
e justa de mais para te servir.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A arte da fuga

lês o terror no espelho, arquivado sob os teus olhos
pensas no suicídio
em sexo
na arte da fuga de bach
(para sempre incompleta, como nós
com todos os dedos enfiados no lavatório
embora saibas que não basta lavares as mãos
para te desembaraçares de mim
terias de lavar o coração.

sem pressa, como de costume,
penduras a camisa
que a tua mãe zelosamente engomou
no charriot interminável do teu quarto
e lembras-te que há um fosso intransponível
entre o teu corpo e a roupa que vestes
como entre a minha pele e a tua,
(perpetuamente inacabadas até ao instante
em que me convidares a rasgar-te
e a beber o teu sangue inquieto
da nossa velha fotografia.

agora que nenhum pássaro te canta,
que não carregas estrelas nem pertences aos meus poemas
(inteira como um cadáver, já não ouves
o maior perigo é o fracasso que te precede, digo.
e tu dizes, deixo sempre para amanhã o que perdura.

e trancas-me a porta e as veias,
ameaças o terror ao espelho, de rosto fechado
e em verso extasias-te com um novo amor
enquanto me adias para o juízo final.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ao abrigo do passado

não invejo esses olhos devolutos
(fantasmas à espreita
como os dos palácios italianos
onde mortos deslizam nas paredes
a alimentar fendas de névoa e osgas

nem desejo esse majestoso tronco
(de peito inchado a suster a respiração
como os das estátuas gregas
e os das árvores que não merecem
como nós, o fim do mundo.

nos dedos
cinco direitos, outros esquerdos,
só guardo a infância
(de luvas e camisolões
no recreio arenoso,
teimoso de risos claros e sem relógio,
a correr contra a campainha.

assim me refaço
(ao abrigo do passado
para resolver o grande enigma.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O meu agora

verificas mensagens
ao dia dois
apagas versos
ao dia quatro
e ao dia sete não sais nem pestanejas
no patamar da casa onde
em dias distantes me esperaste
de abraço ferido
e memória carregada.

sempre que me lembras
dói-te cada um dos
trinta e cinco músculos
e os vinte e sete ossos das pontas dos dedos,
mas logo te recompões;
fechas a porta
desces as escadas sem pressa e atacas a marginal.

quando ao dia dezassete regressas
para arrumar o quarto
tudo se põe a morrer, incluindo a tua pele
como se eu tivesse no meu rosto retido
todo o teu sangue
e nas minhas mãos, como armadilhas
guardasse ainda o aterrorizado amor que
aos dias trinta desfazes em lume.

e nenhum fantasma te pára.

tenho a vida toda para te chorar, dizes.
podes dizê-lo porque o teu tempo continua barato.

o meu agora vale corações.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Exagero

o desespero leva-te a acreditar em dias felizes

sorrisos pasteleiros
vívidas experiências
cores de sol
facas de desejo atiradas ao coração
sangue prestável e futuro

não queres sal
nem mais fruta verde
amarga dureza ou
fome de morte
nos teus caminhos

avanças de voz baixa
cabeça erguida
resolutos passos
com os braços carregados de tudo o que
por fora
te acontece

já nem me acenas
e ao meu exagerado amor

no meu mundo deixaste outra
a fazer de ti
que parte pão eternamente

e nunca apanha as migalhas

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Exílio

enquanto ouvia os teus velhos segredos
a cair
(um a um
nas carruagens de trémulo azul,
o comboio continuava
(assombroso
a sua viagem ao sombrio vale
(rumo ao fumo
entre pontes de vinil e desesperados montes
feitos com caixas de ovos
revestidas a fungos e líquenes
tão antigos como a tua primeira morada

chegava-me a eles
de flanela nas mãos
e toda sorrisos sem preço
pronta a silenciá-los num suave embrulho
e a arrancar
(ao quarto
dois metros de carris
enquanto o rufus martelava
as vantagens do exílio
nas teclas pretas

mas a mudez
que à cadência dos teus segredos sucedia
como remo afundado
pássaro estendido
ramo seco
nunca me satisfez

por isso comecei a cavar
(de enxada ao alto no soalho
contra a fome
que em segredo deixaste
neste coração exilado

terça-feira, 5 de junho de 2012

Pai

cabe a minha infância
(e os teus afazeres
no ferro velho.
e aquela fotografia
contigo
(de dedos enlaçados
as botas ortopédicas
as jardineiras
os sonhos todos na medida da franja
no quarto atrás da escada.

serve o meu espanto
(e a tua ausência
para medir
(ainda
o amor que levaste
no padrão repetido da gravata
(em cinzas
que foi do meu irmão.

pudesse eu lembrar-te
sem me tremerem os olhos
(como me tremem as mãos
e permanecerias de pé
crescente na terra
entre as flores
(e os meus afazeres
apesar de nós.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Mas isso era se

sem apetência para o êxito
que à preguiça sempre escapou,
o teu amor (imprestável para poema
via-se ao espelho, indiferente à cor,
nas montras das sapatarias.

prosaica (como a passagem das horas
andavas descalça.
e dizias,
sou despida quase feliz
nas pedras, nas nuvens, nas almofadas.

só de cordas (sobre os ombros
para me atar
a ouvir o riso
das manhãs (sem roupa
arrepiada de medo
e com pássaros à cabeça,
deixavas-me estar
na sombra.

à noite eu tinha tempo
e colhia morangos do teu corpo
(nem sempre biológicos
no resto
desejava que te vestisses,
calçasses
e finalmente descesses à cidade.

mas isso era se
as montras tivessem a cor
(a forma dos olhos
das manhãs.