quarta-feira, 11 de março de 2026

Depois da matiné

passo por ti na matiné de domingo.

os ombros chocalham, os olhos nem tanto.
as tuas ágeis mãos
pousadas no balcão
remetem-se ao silêncio.
mas ainda aceitas um brinde
de coração rachado, desinteressado do futuro
e distraidamente
deixas a triste saliva da memória
escorrer e desenhar-te um sorriso no rosto. 

contam-me que pagaste com intenso choro
todo o mal que te fiz
mas agora a saudade já não te pesa
e com o tempo foste perdendo a urgência de retribuir.

sinto muito.

à noite,
deitada num fio precário de sono e suor,
beijo o teu corpo de cabeça
(ainda o sei de cor)
como quem coça um membro amputado.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Eterno Retorno

de novo o horror nos apouca.

doidos nos comandos 

pilhas de ódio

indiferença

uma dúzia com tanto 

quanto quatro mil milhões.


e no entanto continua a chover e a fazer sol 

as mesas a encher-se a horas mais ou menos certas

os aviões a descolar e o povo nas filas, 

feio e torto e sem esperança. 

noites a suceder a tardes a suceder a manhãs

e costas a doer, corações a zunir, vontade de gritar.


para onde vamos pouco importa

se afinal a memória nem uma geração dura. 

também a juventude se extingue, 

num ápice reduzida a carne flácida 

diante da nossa pressa travada pelo colesterol.


o mundo que recebemos 

olhava para as nuvens 

mas era baixo, mal nos dava pela cintura.


o que deixamos dirá o mesmo de nós.