terça-feira, 12 de maio de 2009

Deriva

em certos momentos perfeitos (sem palavras
mas não mudos, e irrecuperáveis senão à memória)
foste a minha espera
e a minha chegada
até que (por próprio engenho,
a cabrestante) se içou a sólida âncora ilusória
de osso e fé
e me naveguei para fora do teu calor

ao mar, ao mar (imenso mar
turbulento) me entreguei então
e a praia desapareceu no horizonte cor de longe


tenho agora um pássaro de asas presas à cabeça
e um rochedo solitário
no lugar do coração

possa o pássaro voar
e ver-te sorrir (por arte de um sorriso
qualquer no mundo) para que eu volte
a ver a praia
e torne a estender o rochedo (como massa
para pastéis) sem molde para além do teu corpo
mas vivo outra vez

1 comentário:

Frambú disse...

VELHO POEMA ELECTRÓNICO.

as essências dos teus perfumes
e cosméticos fraquejam
ante o cheiro almiscarado
a sono que trazes ainda do quarto,
vou tacteando letras ao telemóvel e
em bico de olho recorto-te
contra o papel de um bosque
onde braçadas de frutos vermelhos
cobrem toda a parede

mulher a arder que de novo
me despertas para a emergência
de um novo amplexo
com um simples toque
no meu joelho forçando-me
a encarar a espantosa
beleza do teu rosto
invulgar que me lembra
uma clarice lispector
aos trinta e poucos

dois silêncios que embatem,
tu ao meu lado sorrindo para
um sol poente suspenso
no tecto e eu a sorrir
para um aparelho iluminado
registador da nossa falta
de química ou de feromonas,
da nossa falta de sorte -
minha e tua, da nossa uma
vez mais, solidão
que voltámos a apanhar
e agora as tuas unhas
firmemente cravadas na
minha rótula direita

é um bar invulgar
verdadeiramente,
muito cinéfilo, é, é,
como o teu vestido
meio chic mas ordinário
ou o inverso disso
e mais o teu cigarro
em órbita e tudo

esquece lá o que eu
disse da roupa, tu
és linda e estamos até
demasiado bem
vestidos, lembras-me
uma escritora brasileira
em retrato a sépia

«guardar a mensagem?»
pois

música, álcool, tempo,
fingir mais um bocado
que estou a gostar
de ir morrendo.
hugo roque



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