eras um náufrago,
eu outro,
sem ilhas onde ancorar,
sem onde descalçar os pés, deitar
e caminhar.
e eu gostava de te fazer rir
e do teu abraço redondo à chegada,
da forma como sandálias vermelhas
e fragrâncias místicas
surgiam do nada,
a tempo de um beijo redentor.
mas o prazer, por mais puro,
sei-o agora,
nunca é grande companheiro:
veda-nos ao silêncio onde mais somos nós,
e por momentos esconde a inexorável dor da existência,
essa dor voraz
que é sempre permanecer do lado de fora
de quem queremos acender por dentro.
hoje invento e reinvento
ainda,
dia a dia,
a nossa casa na adraga,
virada a noroeste e batida pelo vento,
pedra sobre pedra,
em construção,
com estas mesmas mãos que nos fizeram,
estas mãos que só em nós
não eram redundância.
e nesta morna solidão
vou reconhecendo outros impossíveis
que em realidades paralelas gritam
para que eu os contemple
na minha deriva.
náufrago ainda
hoje sei que o pavio só se extingue
quando outra chama lhe chega
e lhe promete calor
e uma ilha onde arder.
mas sei também,
essa verdade desde sempre,
que o pior de tudo é nunca ter amado.
Mostrar mensagens com a etiqueta poema 21. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poema 21. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Subscrever:
Mensagens (Atom)
