na tua sombra breves passos, na tua carne o longo silêncio do tempo a passar.
no teu estômago nós marinheiros, no teu coração raízes vermelhas sem terra onde crescer. na tua pele um redondo agasalho, na tua boca um vértice de razão.
na tua viagem o meu destino, no teu espelho a estrada para um sonho meu.
chegas e paras. bates à porta com os nós dos dedos, de joelhos trémulos e pose teatral, à beira da acção.
deixa-me entrar, dizes.
agora, digo eu.
à poeira táctil do nossos abraço lanço então o meu medo. calor e frio entrelaçam-se, tão íntimos como os nossos membros despidos.
e nesta cruel harmonia, que em minutos se apaga como tudo o que é perfeito, refreio-te o pensamento e vejo-o planar em redor dos meus ombros, desligado de ti mas ainda verbal, frágil como uma lágrima oculta, lírico como um tumulto justo, espreitando as palavras que não profiro.
em ti me escrevo agora na caligrafia da música. o meu poema avança sobre ti numa cicatriz operática, enredada em quatro actos ornamentados a linhas de seda e árias sem refrão.
até que o pano caia, as tuas sábias mãos hão-de inventar-me em flores resplandecentes e renascer-me em cascatas de veludo.
e quando estalar a ovação estaremos já num âmago só nosso, nem meu nem teu, uma entidade nova, tão privada e interior como a linfa e a ilusão.
e será agora.
a unidade no instante concreto do amor.
ópera em filigrana.
