quinta-feira, 21 de junho de 2007

O acordo

afago com os olhos as belas formas das raparigas que passam a caminho da noite. levam as memórias vazias e o peso desmesurado da juventude nos lábios pintados de vermelho seco, que deixam marcas indeléveis nos cigarros. riem-se sem razão e atam às blusas fios invisíveis com que se ligam umas às outras, como se fosse um grande perigo perderem-se no intrincado das horas. são personagens de filmes mudos e, em certos serões alegres, eu brindo contigo à sua desenvoltura sem palavras.
no nosso sossego refastelado, sou o teu relato dessas imagens mundanas, enlameadas pelos perfumes fúteis da cidade e decoradas com o ar baço que se estende para lá da varanda.
tu estás em recolhimento na órbita calcária dos teus pensamentos e só as abarcas depois de coadas pelo meu olhar abandonado por deus, tão asséptico como a solidão.
assim nos entendemos, num acordo diplomático sem assinaturas, que nos impele à vida. eu empurro a tua demência latente para os braços seguros da rotina, tu descerras navalhas ácidas no meu funeral sempre próximo e adiado.
e o nosso amor aumenta à medida que amarelecem as páginas dos livros em ordenado caos que revestem a nossa casa, em tudo semelhante às nossas mentes labirínticas.
dizes: o teu desgosto pulsa nos meus joelhos.
e eu digo: és o meu ópio de pétalas negras.
o rumor do tempo embala-nos e nós perduramos bebendo medronho no extenuado país da paz insípida, tal como perduram as minhas chávenas bafientas, empoleiradas umas nas outras, atrás do vidro martelado.
nas minhas piores madrugadas, apagas-me as luzes do sangue e lembras-me a doçura esquecida das minhas antigas raparigas, as que te levei à boca em cálices de ciúme. sorris na obscuridade das nossas feridas coalhadas nas crostas dos dias repetidos e voltas a ensinar-me as vantagens da prostração.
o pânico morre então nas mãos que entrelaçamos em gestos destituídos de significado. tu voltas a mergulhar na tua protectora cegueira e eu fecho os olhos para tornar a ver.
e adormeço-me à força, quase feliz, com a saudade a agasalhar-me os ombros.

14 comentários:

Carlos disse...

As palavras dobram-me os joelhos. Há árvores pretas e martírios de Cristo nos bosques em redor. Há um coador gigante por cima das nuvens e uma mão com um lenço de cetim. Saltam trutas com esclerose múltipla, há nenúfares e camiões enrolados nas ondas. "Gosto de silêncios", digo. "Gosto de gente prolixa", dizes tu. O non-sense bate-me à porta. "Agora estou a criar", grito. Acomodo-me e puxo o fecho éclair da minha morte.

Berta Cem Mil disse...

Que inspirado tu estás... deixa o nonsense entrar, ele é nosso amigo.

Lilith disse...

"L`Amour Fou", André Breton.

Berta Cem Mil disse...

lilith, não sei quem és nem o que queres dizer...
não há amor que não seja louco nem poeta que não tenha lido o breton. mas o surrealismo do seu manifesto já é só História.
volta sempre!

Mei disse...

mau, mau!! chá? torradas? saudade a servir de xaile?? that's not spicy bertie...

*beijo de anis estrelado e rooibos para revigorar :-p

Berta Cem Mil disse...

ai, só tu me fazias rir...
I'm not spicy all the time, you know?
beijos também para ti (mas declino o anis...)

TL disse...

é quase uma agência de viagens, este teu espaço. São viagens livres, gratuitas e que, nem por isso, todos têm A bagagem e um balão de ar quente para se deixar ir nelas.

Assim se comprova a dificuldade de vivermos e sabermos estar e sentir vidas que nos são oferecidas de bem de dentro dos outros e também, a comprovaçao do embaraço, de nos sentirmos livres da rigidez das trocas futéis e superficiais, que exigem obrigações e direitos.

Berta Cem Mil disse...

querida tl, só não há viagens gratuitas na vida real... nas outras todas que temos dentro, não há sequer bilhetes de embarque.
mas um dia ainda fazemos aquela viagem de balão, sobre a planície alentejana, sim?
beijos para ti.

TL disse...

No tal dia, do rapto, faremos maravilhas.
;)

Frambú disse...

a saudade cega os olhos dos amantes que deixaram de ver o amor.

o amor é um buraco negro.

branca disse...

Estava prestes a embarcar na Poesia, para navegar rumo ao surreal. Nem o medo de não regressar, nem a certeza de enjoar me dissuadiram. Mas a realidade sentada ao meu colo, comecou a tentar comer o teclado, e (desta vez) fiquei (a sorrir) no cais.

bjs

Berta Cem Mil disse...

embarca, sem medo. e nunca tires o sorriso, sim? um beijo atlântico.

Lilith disse...

Contudo, o conto parece-me de uma profunda e inalterável tristeza.

Berta Cem Mil disse...

lilith, nada é inalterável na vida. só a morte.
é verdade que aqui há tristeza. e profunda porque a tristeza não se manifesta à flor da pele, mas do lado de dentro...
e também existe tédio, claro.