sexta-feira, 1 de junho de 2007

O inimigo

cobravas à noite as tuas promessas e pagavas os teus vícios com a palidez perene, tez e dentes de uma mesma tonalidade, o ventre dilatado de álcool, ouvidos insuflados de batidas minimais, olhos fragmentados como fotografias, cabelos bêbados, dedos nus como o coração e botas pretas.
dançavas para dentro, com um realejo no peito e as asas fechadas.
eu plantava árvores de fruto no meu exíguo quarto forrado a livros, sob luzes brancas, incandescentes como o sol.
às vezes meditava na cor das auroras que inauguravam os dias da minha infância e quase conseguia sentir o rumor das nascentes do mundo exterior.
posso ter-te, perguntaste.
e eu disse: a minha carne é lenta.
encrustada em mim mesma, não conseguia ver-te. podia olhar o teu rosto por mil anos e jamais perceber-te. só entendo as palavras, só sei ler a abstracção. a concreta cicatriz dos teus receios escapou-me sempre, tal como as raízes das minhas árvores, desde tempos imemoriais enterradas no verniz indelével das tábuas do chão. a salvo, como tu, da minha acelerada vaniloquência e do som húmido do meu tumultuoso oceano interior.
de lágrimas encolhidas na fímbria dos olhos, percebi certa tarde que em ti não era mais do que um grão de areia entre os outros que há muito se acotovelavam na praia das tuas mentiras gentis. um grão de terra clara demasiado incómodo, um ruído surdo subtraído ao magma da paixão, a invadir os teus sonhos e as vielas rugosas do teu corpo.
a sugar-te a humanidade e o temperamento.
a perturbar-te a marcha dançante, rumo à febre eterna.
então disse: abomino o teu desejo.
e tu disseste: é o inimigo do teu prazer.
quando arrancaste o realejo do peito, vesti-te o coração e tirei-te as botas.
então desembrulhaste as asas e voaste velozmente para dentro de um dos meus livros. tão velozmente que não vi qual.
ando a folheá-los há séculos, à tua procura, sem sair deste quarto enregelado, onde já não crescem frutos que me ajudem a meditar. perco-me de fome, mastigo as luzes brancas e não oiço o mundo nem vejo o teu rosto.
mas ainda morro de amor.

3 comentários:

Frambú disse...

Babe, se morreres de amor vem a miss piggy e fulmina-te a alma com as suas curvas deliciosas, abre na tua boca gomas em forma de ursinhos multicolores e depois. . . bem, depois renasces e a vida é uma festa. . .

Bisou *

Berta Cem Mil disse...

alma fulminada e gomas de ursinhos... mas que grande festarola! tens por aí uma miss piggy que me dispenses?

Frambú disse...

oh yeah my love, right here, next to my belly. . .