quinta-feira, 31 de maio de 2007

O enigma

esculpias raparigas frescas em polpa de terra molhada e tecias sombras fantasmagóricas na colcha tricotada à mão. não desertavas. mas também não vivias. realizavas a tua obra, bebias catedrais nas férias, visitavas ribanceiras ao sábado à noite e era tudo.
eu vinha de dentro de um silêncio cheio de gente que me apedrejava. no interior obscuro dos meus poemas tinha havido sempre enigmas indecifráveis, que amedrontavam os homens e os seus cães. devorava lâminas e escrevia a sangue, directamente dos pulsos cortados.
encontrei-te no alto de um penhasco trepidante de decibéis, entre luzes e lantejoulas e corpos dementes. sussurrei-te dois versos baixos, quase ao nível do chão, que inexplicavelmente abriram as asas e subiram lentamente pelas tuas pernas, tocaram ao de leve as dobras dos teus joelhos e continuaram a voar intrépidos até se aninharem no teu colo.
conduziste-me pela mão até às tuas raparigas e deitaste-me entre os teus fantasmas. com eles sorri de lábios queimados e renunciei ao silêncio num desespero excessivo, tão alto como as tuas ribanceiras. delgado e pronto a vergar-se como um junco.
passei a morar a bordo de uma catedral em eterna peregrinação, onde saciavas a sede entre canções difusas, nos dias de trabalho e nos outros.
na madrugada do sismo, estilhaçaram-se os vitrais, ruiu a catedral e as tuas raparigas partiram, de braço dado com as sombras. choraste pela primeira vez.
e eu disse:
podia ter-te amado com outras palavras.
e tu disseste: o teu amor é um país fechado.
hoje o horizonte é tudo o que me resta.
no relógio do meu coração são sempre cinco da manhã.
só tu sabes porquê.

4 comentários:

Mei disse...

gostei. bastante. e o horizonte é um espaço onde cabem muitas horas ***

Berta Cem Mil disse...

horas demais, na verdade. e tão vazias...

TL disse...

Despertei de estar num sono acordada agora.
Eu senti(-me)/as palavras.
.
e,
zzz...

Berta Cem Mil disse...

que as minhas palavras te embalem... um soninho descansado, sim?