terça-feira, 22 de maio de 2007

O espectro

chorei pelo espaço inocupado do meu ser com a pele colada à tua, na treva adocicada do teu quarto de persianas corridas. a consciência enlutava-se-me e o meu espírito despido era uma espécie de cegueira, disputando a inocência com a brancura das paredes e as gargalhadas da tua árida melancolia.
disseste: era de supor que a mão que te acariciava pudesse agredir-te um dia.
e eu disse: às vezes a roupa dói-me tanto como a nudez.
tirei o sorriso que guardava, suspenso na lembrança de uma manhã feliz, e meti-o por baixo das unhas, que cravei nas tuas costas. de súbito, ganhaste o tamanho do mundo e começaste a dançar. eu enxuguei as lágrimas, descolei-me de ti e tornei-me um espectro discreto, para sempre imerso na mais efémera das tuas memórias.

7 comentários:

Deusaça disse...

A plasticidade das palavras é fantástica na tua escrita, em metamorfose total no inédito da ideia; pudera eu tratá-las de igual modo, ou melhor, enriquecer assim a realidade inteira. Gostava. A sensação de liberdade que transparece para o lado de cá é fabulosa. Senti-la-ás também ao escrevê-las?

Berta Cem Mil disse...

Querida Deusaça,
A liberdade também pode ser uma prisão. Porque se transforma a realidade e se fica agarrado ao outro lado do espelho... e depois é deprimente voltar ao mundo real. Felizmente, nele existes tu, aos bocadinhos.
Um beijo, volta sempre.

Deusaça disse...

Sum, acredito que sim... Mas não respondeste: "A sensação de liberdade que transparece para o lado de cá é fabulosa. Senti-la-ás também ao escrevê-las?
"

Deusaça disse...

"Sum", não, claro..."sim"...

Berta Cem Mil disse...

Sensação de liberdade, confesso que não. Talvez uma vaga sensação de prazer ao reinventar o sentido das palavras, como se por momentos pudesse vencê-las, ganhar às suas limitações, ludibriá-las para que me mostrem o seu lado culto... De resto, todas as ideias são amarras, mesmo as que parecem mais livres.

Frambú disse...

"o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina

a seguir vem o sono

e o miraculado entra no voo dos cisnes

o dia cansa-se

na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões

quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri

dá-nos uma rosa em forma de estilete - fechamos os olhos

sabendo que este é o maior engano

da eternidade"

Berta Cem Mil disse...

a própria eternidade é um engano.
ainda bem que vieste *