domingo, 27 de maio de 2007

O cofre

abri o cofre dos acasos e entornei-os por cima da cama, vasculhando-os até pegar naquele instante em que soltaste um como está? quase indiferente. virei-o e e revirei-o, raspando-lhe as escamas e o halo negro que o mantinham vivo, há anos em clausura, dividindo o exíguo espaço do cofre com todos os outros acasos. os meus, os nossos e os do afinador de pianos que nos regava as rosas nas férias e me confiara, há meio século e um dia, os seus.
olhaste-me com olhos de incrédulo verde enquanto eu ensaiava palavras na minha cabeça, procurando-lhes uma musicalidade há muita perdida.
não dizia nada há 32 horas. sentia o tempo íngreme a dar saltos para a frente e para trás, fazendo tremer o guindaste que prendia a minha alma ao éter desde aquela já remota manhã de outono em que o granito, pedra a pedra como um túmulo no meu âmago, se tornou uma espada de água. a manhã da tua chegada.
tornei a arrumar os restantes acasos e fiquei a ver esse instante morrer. demorou pouco, pelo menos não o suficiente para que os teus olhos mudassem de cor.
entreguei-te o cadáver e tu beijaste-o, engolindo o espaço ao seu redor. e no extremo do meu braço nasceu então uma mão nova, pela qual falei.
disse: os ecos do amor extinto ainda queimam a liberdade.
nessa noite o teu corpo tornou-se uma árvore selvagem no meu mundo intratável.

7 comentários:

claudia c disse...

em boa hora a leio... que gosto de gente que se sabe mundo e de mundos intratáveis.

Mei disse...

aguardo o próximo episódio, a páginas soltas. beijo para as cem mil bertas em ti*

Berta Cem Mil disse...

ainda bem que gostou, cara amiga. volte sempre a este mundo em permanente transformação (ou, pelo menos, em permanente agitação interior). um beijo.

Berta Cem Mil disse...

querida mei... um beijo único para todas? ou um para cada uma delas?

Mei disse...

um de cada vez e a cada história, assim ao estilo mil e uma noites*

laura disse...

voltei a passar e voltei a gostar.

Berta Cem Mil disse...

mil e uma noites, mei? com ou sem véus?

laura: volte sempre. eu estou aqui.