terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Falhar melhor

desde o começo, todas as palavras correram sem freio para o lume dos nossos corpos. coladas à pele, perderam o significado e tornaram-se adornos vibrantes, prenhes de sonhos,
porém incapazes de saciar a nossa imensa fome.
nenhum gesto te despe, disseste.
e eu disse: nenhum abraço me consola.
agora trazemos versos vestidos, abotoados a recursos estilísticos tão inúteis como trapos ou colares.
e o impaciente tamborilar dos meus dedos no trânsito continua a léguas da urgência febril que no escuro te toca.
mas tu não sabes.
não podes saber
que não são as mesmas mãos,
estas que trago comigo no banal vagar das horas
e as que, em certas noites nossas, sem meta nem pressa,
procuram ser seda acesa no teu interior.
a cada dia
desejo revelar-te os segredos contidos nos poemas, desembaraçar-te das dúvidas nos cabelos,
parar-me para desmontar as metáforas,
dar-te a mão e caminhar contigo,
juntar pedras inabalavelmente nobres
em vez de nobres vocábulos frágeis

e construir-nos um reino essencial.

mas a memória é tão difusa como a vida concreta,
a poesia etérea e as mãos impuras e demais mundanas
para rasgar a superfície e alcançar o coração.

falho (mas não sei falhar melhor como o beckett).
a minha boca muda ainda beija,
mas falta alegria ao seu riso.
e o sal seca os poros, bordando choro nos olhos
enquanto espero pelo instante exacto
em que o amor se ajoelha para morrer,
humanamente dobrado em espasmos
aos pés do fracasso.

alarde nenhum. ou verbo.
só mágoa. e um rumor de saudade que me diz:
tenta de novo.

2 comentários:

ana disse...

Está fantástico. Para mim há de ser sempre um mistério como consegues fazer isso...

Anónimo disse...

É delicioso ler-te.
E ainda agora comecei...