quarta-feira, 4 de julho de 2007

Letargia

a desilusão inaugurou-te a letargia. amortalhaste-te nela como se sentisses prazer na imobilidade, como se até o planeta tivesse parado para que melhor o olhasses, num instantâneo de verde e azul.
os fantasmas instalaram-se entre as tuas fotografias, adormeceram de rosto cansado nas tuas almofadas e beberam à vitória pelos teus lábios, sugando o amor do cálice que te estendi com inocência servil.
antes de te recolheres, segredaste-me que tinhas o coração espalhado pelo país dos pulsos rasgados e ainda enruborescias nas planícies do desejo. que eras de vidro e querias preservar-te dos estilhaços, evitar que o peso da vida te esmagasse.
e eu disse-te que te entendia e à tua renúncia a tudo o que não podes prever nem medir.
nem tentei dissuadir-te. limitei-me a ver-te desaparecer para dentro de uma curva apertada, informe e de voz sibilina, que te hipnotizou ao ponto da calepsia.
há mistérios que riem, disse eu.
mas tu tinhas as janelas do teu ser já viradas para dentro e sorriste apenas, muito levemente, em silêncio. como se dormisses desde sempre.
e eu parti em viagem, decidida a recolher cada um dos fragmentos de carne que devia estar a bater-te no peito.
desde então, tenho conhecido heróis e patifes, virgens e anjos, loucos e invisuais. tenho comido pássaros e rebolado no céu. e tenho visitado o teu refúgio de vez em quando, com as mãos em sangue, confiando que um dia devolverei a cor ao teu rosto.
mas às vezes só me apetece deitar-me ao teu lado a olhar o firmamento.

2 comentários:

Miss F. disse...

Adormeceria melhor com um daqueles poemas :)

Pronto já comentei!!! Satisfeita?


beijo

Xana disse...

Vim agradecer a tua visita e cumprimentar-te pela tranquilidade "inquietante" que se "respira" neste teu canto.

Excelente. gostei de te ler.

Boa noite.
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