terça-feira, 18 de setembro de 2007

Elementar

chegaste de sorriso posto, subtraído à cintilação do mar, e o passo etéreo de quem mal toca o chão enquanto anda. pareceste-me tão leve que quase consegui ver-te planar acima da calçada branca.
depois a seda rosada dos teus lábios no meu rosto levou uma fagulha de desejo às minhas sinapses em rodilha. e a tua voz entreteceu escalas oníricas em espiral na música ambiente.
num harmónico embalo de violinos e flautas, trocámos confidências e retalhámos passados como melancias, com a espontânea naturalidade que só se espera de quem há muito se espera.
mais tarde misturámos as mãos e os corpos, as linhas perenes e as rugas novas, as dúvidas e as subtilezas, os poros e os pigmentos da pele.
e então espreitei-te para dentro.
tu retraíste-te por um instante. arqueaste as sobrancelhas, franziste a testa, dilataste as narinas. e recostaste-te numa hesitação humana, tentando esconder a frágil nudez que descobri nos teus olhos, suaves como o feltro das mesas de jogo.
és o meu elemento, disse.
sou a tua curva de montanha, disseste tu.
eu derrapei no trovão quase imperceptível do teu amor, puxei o fio das minhas sinapses e atei-as a ti.

4 comentários:

Arianne, H. disse...

espantoso o modo como tu o fazes, jogando o complexo elementarmente simples.minha cara.com o trivial ascendido a inesperados, por�m ineg�veis, estatutos superiores...

TL disse...

deliciosas palavras. Brindo ao seu conteúdo e à sua forma.

Brindo também, a quem lhes pertence a vida, a ti.

Que as sentes, reais ou virtuais, mas sentes e consegues transparecê-lo muitíssimo bem.

abraço de beijos. T.

Berta Cem Mil disse...

minha cara arianne h: acende-me e ascendes comigo...

querida t, brindemos.

Frambú disse...

onde anda a minha formiga-cadente?

bisou *