terça-feira, 25 de setembro de 2007

O colar

havia um rio ao fundo da rua e tu pedalavas devagar na tua bicicleta, descrevendo arcos de sete cores entre as pedras da estrada para a cidade.
eu era uma flecha de fulgor acasalando com o centro do teu peito e lia realidades paralelas nos recados que me deixavas em cima da mesa do pequeno-almoço.
às vezes amachucava a folha do bloco de notas nas mãos vazias e estendia-me no tapete a imaginar o que o teu gato sonharia naquelas manhãs quentes no terraço, com o sol a bater-lhe nos bigodes.
mas na maioria dos dias limitava-me a espiar o namoro das árvores pela janela entreaberta. e esperava-te até à noite no meu mundo despido, languidamente enternecida pela memória do teu cheiro nos meus dedos.
certa madrugada trouxeste-me um colar de nuvens.
o céu é uma cortina teimosa, disseste.
e eu disse: não desistas.
no nosso beijo ergueu-se então o amor todo. a tua respiração susteve-se no espaço do meu abraço e o meu coração enrolou-se entre as tuas clavículas.
e eu cantei, com o pescoço adornado de um branco impossível.

2 comentários:

Frambú disse...

como mais ninguém. tu.

de quantas histórias são feitas os amores nascidos no teu coração?

Berta Cem Mil disse...

querida frambú,
as histórias são feitas de amores, os amores são feitos de inefáveis... e no meu coração cabem mais histórias do que no livro da sherazade.
obrigada por vires. um beijo.