passo por ti na matiné de domingo.
os ombros chocalham, os olhos nem tanto.
as tuas ágeis mãos
pousadas no balcão
remetem-se ao silêncio.
mas ainda aceitas um brinde
de coração rachado, desinteressado do futuro
e distraidamente
deixas a triste saliva da memória
escorrer e desenhar-te um sorriso no rosto.
contam-me que pagaste com intenso choro
todo o mal que te fiz
mas agora a saudade já não te pesa
e com o tempo foste perdendo a urgência de retribuir.
sinto muito.
à noite,
deitada num fio precário de sono e suor,
beijo o teu corpo de cabeça
(ainda o sei de cor)
como quem coça um membro amputado.
