parto o que encontro, quebro por dentro, a saudade fala
ouço um fado, quadras, mais nada.
não sei que faça a tanta noite
como não sei que fazer a este dia
ao nascer já magoado
a ranger como papel de jornal
sem as tuas doces mãos a impedir-me
de partir o que encontro
de partir,
por dentro quebrada,
a fingir que não ouço a saudade
forçando-me a chorar.
ouço um fado, quadras, mais nada.
e piso a chuva no caminho.
são lágrimas, digo.
tu pedes silêncio e apagas a luz ao sol.
segunda-feira, 31 de março de 2014
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Ainda que me separe
acordei com o teu nome na boca
dobrei-o ao meio
encaixei-o (silencioso
entre dois livros
e desliguei o rumor de escrita
que ameaçava tornar-se carne (ruinosa
nas minhas mãos
e desconheci-me
nesta tranquilidade satisfeita
entre monges e predadores
a tricotar gorros de desejo (ruidoso
na minha cabeça
como sabes
procurei por muito tempo
o sentido do nosso tempo
sem calcular o tempo do teu ódio (sagaz
nem a extensão da tua ausência
mas nunca esqueci as cores
em que preferes vestir-te
a tua colecção de botas
a altura das tuas pernas
o reflexo da minha pele no teu olhar (impaciente
o tamanho do teu sorriso a dançar
não sei para quê
como também sabes
não posso apagar os segredos que me consolam
ainda que me separe do coração (mudo
e demais de ti
dobrei-o ao meio
encaixei-o (silencioso
entre dois livros
e desliguei o rumor de escrita
que ameaçava tornar-se carne (ruinosa
nas minhas mãos
e desconheci-me
nesta tranquilidade satisfeita
entre monges e predadores
a tricotar gorros de desejo (ruidoso
na minha cabeça
como sabes
procurei por muito tempo
o sentido do nosso tempo
sem calcular o tempo do teu ódio (sagaz
nem a extensão da tua ausência
mas nunca esqueci as cores
em que preferes vestir-te
a tua colecção de botas
a altura das tuas pernas
o reflexo da minha pele no teu olhar (impaciente
o tamanho do teu sorriso a dançar
não sei para quê
como também sabes
não posso apagar os segredos que me consolam
ainda que me separe do coração (mudo
e demais de ti
terça-feira, 2 de julho de 2013
Enquanto não me vês igual
pensas em mim
como uma estrela que grita
um grão solitário entre a areia
à procura (contra a própria natureza
de uma cor que o faça único
porque sabes de mim
pela dramaturgia
que te imponho
estendida ao sol (às primeiras horas do dia
tão limpa e ainda toda por usar
tranquila como as camisas lavadas
dos rapazes caídos do céu
e escrita ao ponto de te iludir
de vez em quando
olhas para mim (espelhada na noite
a soletrar
em paz a paixão desamparada
e supões que o mar jamais seca ou a lua se apaga
enquanto não me vês
igual aos outros
como uma estrela que grita
um grão solitário entre a areia
à procura (contra a própria natureza
de uma cor que o faça único
porque sabes de mim
pela dramaturgia
que te imponho
estendida ao sol (às primeiras horas do dia
tão limpa e ainda toda por usar
tranquila como as camisas lavadas
dos rapazes caídos do céu
e escrita ao ponto de te iludir
de vez em quando
olhas para mim (espelhada na noite
a soletrar
em paz a paixão desamparada
e supões que o mar jamais seca ou a lua se apaga
enquanto não me vês
igual aos outros
terça-feira, 25 de junho de 2013
Mais uma vez
num silêncio amoroso
olho as ondas de pés
mergulhados na areia molhada
e conservo os teus olhos no meu aquário interior.
ouço o mundo dizer
era aqui que devia ter aninhado, o teu passarinho,
mas ignoro-o tal como às redes
a rebentar de palavras de que já não preciso.
e namoro as coisas do verão:
o sol a estalar sem dizer nada,
a água impossível de contar,
o peixe à espera das estrelas,
enquanto o mar aberto te fecha
os olhos
mais uma vez.
olho as ondas de pés
mergulhados na areia molhada
e conservo os teus olhos no meu aquário interior.
ouço o mundo dizer
era aqui que devia ter aninhado, o teu passarinho,
mas ignoro-o tal como às redes
a rebentar de palavras de que já não preciso.
e namoro as coisas do verão:
o sol a estalar sem dizer nada,
a água impossível de contar,
o peixe à espera das estrelas,
enquanto o mar aberto te fecha
os olhos
mais uma vez.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Sem legendas
preciso de encontrar a imperfeição certa
para te dizer o que só a música pode
(sem legendas
até lá brinco às escondidas
com outras artes, esse engodo para predadores
(de beleza
em perfeito silêncio
para te dizer o que só a música pode
(sem legendas
até lá brinco às escondidas
com outras artes, esse engodo para predadores
(de beleza
em perfeito silêncio
terça-feira, 9 de abril de 2013
Reclusão
de lagartos amarrados uns aos outros ao pescoço
e uma ideia remota de sol
(incapaz de te secar as poças de dentro
espremes insónias para cima do piano
e acolhes a criança encolhida há anos no armário
nos teus braços
bem dobrados
lá fora
recuperas. e quase consegues ver.
bebes da taça de granito
(a dos pássaros que sobrevoam a primavera
e sem receio voltas-te para o frio
repartindo as frutas pelo arvoredo japonês.
mas não avanças.
de volta à casa
vasculhas na gaveta
(impoluta como um cemitério de aldeia
o vazio do tempo perdido
onde lês que os olhares nunca se perdem
nem sequer se esgotam no acto de olhar,
numa carta esmaecida que um dia
(muito antes de teres escolhido a reclusão
te cobriu de beijos.
em êxtase cais
de rosto ainda virado para a noite
e o mais novo testamento
(esculpido pelas traças
inscreve-se no teu peito.
a porta do armário fecha-se,
acidental.
o piano desata a rir,
os lagartos despertam.
mas nem pestanejas.
longe de mim e do mundo
deixas fugir a criança.
e enredas os fios
da tua própria mortalha.
e uma ideia remota de sol
(incapaz de te secar as poças de dentro
espremes insónias para cima do piano
e acolhes a criança encolhida há anos no armário
nos teus braços
bem dobrados
lá fora
recuperas. e quase consegues ver.
bebes da taça de granito
(a dos pássaros que sobrevoam a primavera
e sem receio voltas-te para o frio
repartindo as frutas pelo arvoredo japonês.
mas não avanças.
de volta à casa
vasculhas na gaveta
(impoluta como um cemitério de aldeia
o vazio do tempo perdido
onde lês que os olhares nunca se perdem
nem sequer se esgotam no acto de olhar,
numa carta esmaecida que um dia
(muito antes de teres escolhido a reclusão
te cobriu de beijos.
em êxtase cais
de rosto ainda virado para a noite
e o mais novo testamento
(esculpido pelas traças
inscreve-se no teu peito.
a porta do armário fecha-se,
acidental.
o piano desata a rir,
os lagartos despertam.
mas nem pestanejas.
longe de mim e do mundo
deixas fugir a criança.
e enredas os fios
da tua própria mortalha.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Para voltar à nuvem
a chuva inunda a natureza
e eu repetidamente
estendo pontes entre a minha boca e a tua
enxuta como a raiz dos cabelos
na semântica da tarde
sonolenta escondo na terra
tudo o que merece ser poema
e lavo a memória neste inverno póstumo
simplificado pelo amor feliz
para voltar à nuvem que desagua nas tuas mãos
e eu repetidamente
estendo pontes entre a minha boca e a tua
enxuta como a raiz dos cabelos
na semântica da tarde
sonolenta escondo na terra
tudo o que merece ser poema
e lavo a memória neste inverno póstumo
simplificado pelo amor feliz
para voltar à nuvem que desagua nas tuas mãos
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
As mãos lembram
as mãos lembram.
decorados os contornos
dos corpos
nelas permanece
(como chaga antiga
a textura da pele.
as mãos lembram.
livres hoje das conjecturas
que as petrificavam
sóbrias entre a multidão
(nunca escondidas
ninguém dá por elas.
nada mudou, no entanto.
ainda me esqueço de tirar os sapatos à chegada
e passo tempo a mais à procura de papéis.
os meus olhos dilatam-se na televisão
mas ainda não precisam de óculos.
continuo sem gato, nem saias, nem cortinados,
uso o mesmo código no multibanco
e às vezes paro à tua porta
a reescrever o teu rosto
nos mapas e nas multas da emel.
desfigurado
(como numa velha fotografia
dá-me um silêncio de voz nítida
que cheira a água e relva.
que
as mãos lembram.
mas o coração não responde.
decorados os contornos
dos corpos
nelas permanece
(como chaga antiga
a textura da pele.
as mãos lembram.
livres hoje das conjecturas
que as petrificavam
sóbrias entre a multidão
(nunca escondidas
ninguém dá por elas.
nada mudou, no entanto.
ainda me esqueço de tirar os sapatos à chegada
e passo tempo a mais à procura de papéis.
os meus olhos dilatam-se na televisão
mas ainda não precisam de óculos.
continuo sem gato, nem saias, nem cortinados,
uso o mesmo código no multibanco
e às vezes paro à tua porta
a reescrever o teu rosto
nos mapas e nas multas da emel.
desfigurado
(como numa velha fotografia
dá-me um silêncio de voz nítida
que cheira a água e relva.
que
as mãos lembram.
mas o coração não responde.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Casa morta
esta manhã senti a tua luz inesgotável
a bater em cheio nos meus olhos
e encostei ao ouvido as tuas palavras
fechadas no búzio onde
(para meu consolo
só assobiam mares de solidão.
à noite, quando apertar nas mãos
o rio da minha consciência
dizendo-me que o tamanho das coisas depende da perspectiva
e lembrando-me que ao teu lado
tive tudo o que os outros tiveram,
nem mais nem menos
amor
música
cimento
ginástica,
tentarei esquecer mais uma vez que a nossa casa morreu
(e os recantos todos do jardim também
no dia em que fechaste a janela
aos meus quatro sonhos diários,
entalados no pão de deus.
nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
resta agora
apenas uma memória de pranto
com três anos e cor nenhuma
que sedentariamente se senta
(de manta sobre os joelhos
no sofá da melancolia,
relendo vezes infindas
(até se tornar pedra
aquela frase roubada ao kafka,
a esperança existe mas não para nós.
nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
hoje é só mais uma quarta-feira
(de cinza
pendurada no cabide do tempo
e justa de mais para te servir.
a bater em cheio nos meus olhos
e encostei ao ouvido as tuas palavras
fechadas no búzio onde
(para meu consolo
só assobiam mares de solidão.
à noite, quando apertar nas mãos
o rio da minha consciência
dizendo-me que o tamanho das coisas depende da perspectiva
e lembrando-me que ao teu lado
tive tudo o que os outros tiveram,
nem mais nem menos
amor
música
cimento
ginástica,
tentarei esquecer mais uma vez que a nossa casa morreu
(e os recantos todos do jardim também
no dia em que fechaste a janela
aos meus quatro sonhos diários,
entalados no pão de deus.
nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
resta agora
apenas uma memória de pranto
com três anos e cor nenhuma
que sedentariamente se senta
(de manta sobre os joelhos
no sofá da melancolia,
relendo vezes infindas
(até se tornar pedra
aquela frase roubada ao kafka,
a esperança existe mas não para nós.
nas paredes gastas,
no telhado podre,
em cada canteiro murcho
hoje é só mais uma quarta-feira
(de cinza
pendurada no cabide do tempo
e justa de mais para te servir.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
A arte da fuga
lês o terror no espelho, arquivado sob os teus olhos
pensas no suicídio
em sexo
na arte da fuga de bach
(para sempre incompleta, como nós
com todos os dedos enfiados no lavatório
embora saibas que não basta lavares as mãos
para te desembaraçares de mim
terias de lavar o coração.
sem pressa, como de costume,
penduras a camisa
que a tua mãe zelosamente engomou
no charriot interminável do teu quarto
e lembras-te que há um fosso intransponível
entre o teu corpo e a roupa que vestes
como entre a minha pele e a tua,
(perpetuamente inacabadas até ao instante
em que me convidares a rasgar-te
e a beber o teu sangue inquieto
da nossa velha fotografia.
agora que nenhum pássaro te canta,
que não carregas estrelas nem pertences aos meus poemas
(inteira como um cadáver, já não ouves
o maior perigo é o fracasso que te precede, digo.
e tu dizes, deixo sempre para amanhã o que perdura.
e trancas-me a porta e as veias,
ameaças o terror ao espelho, de rosto fechado
e em verso extasias-te com um novo amor
enquanto me adias para o juízo final.
pensas no suicídio
em sexo
na arte da fuga de bach
(para sempre incompleta, como nós
com todos os dedos enfiados no lavatório
embora saibas que não basta lavares as mãos
para te desembaraçares de mim
terias de lavar o coração.
sem pressa, como de costume,
penduras a camisa
que a tua mãe zelosamente engomou
no charriot interminável do teu quarto
e lembras-te que há um fosso intransponível
entre o teu corpo e a roupa que vestes
como entre a minha pele e a tua,
(perpetuamente inacabadas até ao instante
em que me convidares a rasgar-te
e a beber o teu sangue inquieto
da nossa velha fotografia.
agora que nenhum pássaro te canta,
que não carregas estrelas nem pertences aos meus poemas
(inteira como um cadáver, já não ouves
o maior perigo é o fracasso que te precede, digo.
e tu dizes, deixo sempre para amanhã o que perdura.
e trancas-me a porta e as veias,
ameaças o terror ao espelho, de rosto fechado
e em verso extasias-te com um novo amor
enquanto me adias para o juízo final.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Ao abrigo do passado
não invejo esses olhos devolutos
(fantasmas à espreita
como os dos palácios italianos
onde mortos deslizam nas paredes
a alimentar fendas de névoa e osgas
nem desejo esse majestoso tronco
(de peito inchado a suster a respiração
como os das estátuas gregas
e os das árvores que não merecem
como nós, o fim do mundo.
nos dedos
cinco direitos, outros esquerdos,
só guardo a infância
(de luvas e camisolões
no recreio arenoso,
teimoso de risos claros e sem relógio,
a correr contra a campainha.
assim me refaço
(ao abrigo do passado
para resolver o grande enigma.
(fantasmas à espreita
como os dos palácios italianos
onde mortos deslizam nas paredes
a alimentar fendas de névoa e osgas
nem desejo esse majestoso tronco
(de peito inchado a suster a respiração
como os das estátuas gregas
e os das árvores que não merecem
como nós, o fim do mundo.
nos dedos
cinco direitos, outros esquerdos,
só guardo a infância
(de luvas e camisolões
no recreio arenoso,
teimoso de risos claros e sem relógio,
a correr contra a campainha.
assim me refaço
(ao abrigo do passado
para resolver o grande enigma.
terça-feira, 10 de julho de 2012
O meu agora
verificas mensagens
ao dia dois
apagas versos
ao dia quatro
e ao dia sete não sais nem pestanejas
no patamar da casa onde
em dias distantes me esperaste
de abraço ferido
e memória carregada.
sempre que me lembras
dói-te cada um dos
trinta e cinco músculos
e os vinte e sete ossos das pontas dos dedos,
mas logo te recompões;
fechas a porta
desces as escadas sem pressa e atacas a marginal.
quando ao dia dezassete regressas
para arrumar o quarto
tudo se põe a morrer, incluindo a tua pele
como se eu tivesse no meu rosto retido
todo o teu sangue
e nas minhas mãos, como armadilhas
guardasse ainda o aterrorizado amor que
aos dias trinta desfazes em lume.
e nenhum fantasma te pára.
tenho a vida toda para te chorar, dizes.
podes dizê-lo porque o teu tempo continua barato.
o meu agora vale corações.
ao dia dois
apagas versos
ao dia quatro
e ao dia sete não sais nem pestanejas
no patamar da casa onde
em dias distantes me esperaste
de abraço ferido
e memória carregada.
sempre que me lembras
dói-te cada um dos
trinta e cinco músculos
e os vinte e sete ossos das pontas dos dedos,
mas logo te recompões;
fechas a porta
desces as escadas sem pressa e atacas a marginal.
quando ao dia dezassete regressas
para arrumar o quarto
tudo se põe a morrer, incluindo a tua pele
como se eu tivesse no meu rosto retido
todo o teu sangue
e nas minhas mãos, como armadilhas
guardasse ainda o aterrorizado amor que
aos dias trinta desfazes em lume.
e nenhum fantasma te pára.
tenho a vida toda para te chorar, dizes.
podes dizê-lo porque o teu tempo continua barato.
o meu agora vale corações.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Exagero
o desespero leva-te a acreditar em dias felizes
sorrisos pasteleiros
vívidas experiências
cores de sol
facas de desejo atiradas ao coração
sangue prestável e futuro
não queres sal
nem mais fruta verde
amarga dureza ou
fome de morte
nos teus caminhos
avanças de voz baixa
cabeça erguida
resolutos passos
com os braços carregados de tudo o que
por fora
te acontece
já nem me acenas
e ao meu exagerado amor
no meu mundo deixaste outra
a fazer de ti
que parte pão eternamente
e nunca apanha as migalhas
sorrisos pasteleiros
vívidas experiências
cores de sol
facas de desejo atiradas ao coração
sangue prestável e futuro
não queres sal
nem mais fruta verde
amarga dureza ou
fome de morte
nos teus caminhos
avanças de voz baixa
cabeça erguida
resolutos passos
com os braços carregados de tudo o que
por fora
te acontece
já nem me acenas
e ao meu exagerado amor
no meu mundo deixaste outra
a fazer de ti
que parte pão eternamente
e nunca apanha as migalhas
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Exílio
enquanto ouvia os teus velhos segredos
a cair
(um a um
nas carruagens de trémulo azul,
o comboio continuava
(assombroso
a sua viagem ao sombrio vale
(rumo ao fumo
entre pontes de vinil e desesperados montes
feitos com caixas de ovos
revestidas a fungos e líquenes
tão antigos como a tua primeira morada
chegava-me a eles
de flanela nas mãos
e toda sorrisos sem preço
pronta a silenciá-los num suave embrulho
e a arrancar
(ao quarto
dois metros de carris
enquanto o rufus martelava
as vantagens do exílio
nas teclas pretas
mas a mudez
que à cadência dos teus segredos sucedia
como remo afundado
pássaro estendido
ramo seco
nunca me satisfez
por isso comecei a cavar
(de enxada ao alto no soalho
contra a fome
que em segredo deixaste
neste coração exilado
a cair
(um a um
nas carruagens de trémulo azul,
o comboio continuava
(assombroso
a sua viagem ao sombrio vale
(rumo ao fumo
entre pontes de vinil e desesperados montes
feitos com caixas de ovos
revestidas a fungos e líquenes
tão antigos como a tua primeira morada
chegava-me a eles
de flanela nas mãos
e toda sorrisos sem preço
pronta a silenciá-los num suave embrulho
e a arrancar
(ao quarto
dois metros de carris
enquanto o rufus martelava
as vantagens do exílio
nas teclas pretas
mas a mudez
que à cadência dos teus segredos sucedia
como remo afundado
pássaro estendido
ramo seco
nunca me satisfez
por isso comecei a cavar
(de enxada ao alto no soalho
contra a fome
que em segredo deixaste
neste coração exilado
terça-feira, 5 de junho de 2012
Pai
cabe a minha infância
(e os teus afazeres
no ferro velho.
e aquela fotografia
contigo
(de dedos enlaçados
as botas ortopédicas
as jardineiras
os sonhos todos na medida da franja
no quarto atrás da escada.
serve o meu espanto
(e a tua ausência
para medir
(ainda
o amor que levaste
no padrão repetido da gravata
(em cinzas
que foi do meu irmão.
pudesse eu lembrar-te
sem me tremerem os olhos
(como me tremem as mãos
e permanecerias de pé
crescente na terra
entre as flores
(e os meus afazeres
apesar de nós.
(e os teus afazeres
no ferro velho.
e aquela fotografia
contigo
(de dedos enlaçados
as botas ortopédicas
as jardineiras
os sonhos todos na medida da franja
no quarto atrás da escada.
serve o meu espanto
(e a tua ausência
para medir
(ainda
o amor que levaste
no padrão repetido da gravata
(em cinzas
que foi do meu irmão.
pudesse eu lembrar-te
sem me tremerem os olhos
(como me tremem as mãos
e permanecerias de pé
crescente na terra
entre as flores
(e os meus afazeres
apesar de nós.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Mas isso era se
sem apetência para o êxito
que à preguiça sempre escapou,
o teu amor (imprestável para poema
via-se ao espelho, indiferente à cor,
nas montras das sapatarias.
prosaica (como a passagem das horas
andavas descalça.
e dizias,
sou despida quase feliz
nas pedras, nas nuvens, nas almofadas.
só de cordas (sobre os ombros
para me atar
a ouvir o riso
das manhãs (sem roupa
arrepiada de medo
e com pássaros à cabeça,
deixavas-me estar
na sombra.
à noite eu tinha tempo
e colhia morangos do teu corpo
(nem sempre biológicos
no resto
desejava que te vestisses,
calçasses
e finalmente descesses à cidade.
mas isso era se
as montras tivessem a cor
(a forma dos olhos
das manhãs.
que à preguiça sempre escapou,
o teu amor (imprestável para poema
via-se ao espelho, indiferente à cor,
nas montras das sapatarias.
prosaica (como a passagem das horas
andavas descalça.
e dizias,
sou despida quase feliz
nas pedras, nas nuvens, nas almofadas.
só de cordas (sobre os ombros
para me atar
a ouvir o riso
das manhãs (sem roupa
arrepiada de medo
e com pássaros à cabeça,
deixavas-me estar
na sombra.
à noite eu tinha tempo
e colhia morangos do teu corpo
(nem sempre biológicos
no resto
desejava que te vestisses,
calçasses
e finalmente descesses à cidade.
mas isso era se
as montras tivessem a cor
(a forma dos olhos
das manhãs.
terça-feira, 27 de março de 2012
Lembro-me da água toda
comprei-te a camisa
num inédito repente
(nunca fui de te vestir se não de lábios
e pedi-te que a usasses
tão rente à pele como eu
.
fazia-te doer, dizias, o coração
como os quadros do Rothko
(de uma só cor roubada à alma
te feriam os olhos
naqueles dias de dezembro americano
.
não liguei. como poderia
se cada um só pode saber
da sua dor e nunca a tua
me chegou aos ossos
(muito menos à respiração
?
despi-te a camisa
(pintada de fresco
e abri-te túneis de humanidade
ternamente
eternamente
a partir do umbigo
...
lembro-me da água toda
cada gota
cada onda
até
(por fim
alcançar o teu fim
.
num inédito repente
(nunca fui de te vestir se não de lábios
e pedi-te que a usasses
tão rente à pele como eu
.
fazia-te doer, dizias, o coração
como os quadros do Rothko
(de uma só cor roubada à alma
te feriam os olhos
naqueles dias de dezembro americano
.
não liguei. como poderia
se cada um só pode saber
da sua dor e nunca a tua
me chegou aos ossos
(muito menos à respiração
?
despi-te a camisa
(pintada de fresco
e abri-te túneis de humanidade
ternamente
eternamente
a partir do umbigo
...
lembro-me da água toda
cada gota
cada onda
até
(por fim
alcançar o teu fim
.
terça-feira, 20 de março de 2012
Prefiro os animais sem passado
fremente vai
este dia de primavera
com as suas saias vaporosas,
um só tom de verde a colorir a erva,
a azálea de braços estendidos
e a cerejeira em flor
(que te convida a entrar
como aquela no pátio da modesta casa normanda
habituada ao amor feliz.
levanto as pálpebras para a lua redonda
a despenhar-se dos telhados
sobre as ruas onde se riem
crianças velhos tolos
e passo a mão pela vista.
troco-a por pensamentos
enquanto outra vida se vai urdindo
na minha pele à tua espera
(como penélope a tecer a sós o perdão
que a hora incerta te entregarei.
temo entretanto falar alto
e acordar a tua longa ausência
mas ainda digo
baixinho, prefiro os animais
sem passado às árvores
(eternas como deuses sem estação.
e abraço os teus olhos que em água
dizem, toma-me
como as estrelas perfuram a noite
(enfim.
este dia de primavera
com as suas saias vaporosas,
um só tom de verde a colorir a erva,
a azálea de braços estendidos
e a cerejeira em flor
(que te convida a entrar
como aquela no pátio da modesta casa normanda
habituada ao amor feliz.
levanto as pálpebras para a lua redonda
a despenhar-se dos telhados
sobre as ruas onde se riem
crianças velhos tolos
e passo a mão pela vista.
troco-a por pensamentos
enquanto outra vida se vai urdindo
na minha pele à tua espera
(como penélope a tecer a sós o perdão
que a hora incerta te entregarei.
temo entretanto falar alto
e acordar a tua longa ausência
mas ainda digo
baixinho, prefiro os animais
sem passado às árvores
(eternas como deuses sem estação.
e abraço os teus olhos que em água
dizem, toma-me
como as estrelas perfuram a noite
(enfim.
terça-feira, 13 de março de 2012
Anterior ao pão do dia
agora que já não me dói a memória,
amo cada manhã por usar
como um vestido perfeitamente engomado
à espera de sair
e essa pele na minha pele
enquanto não acordo,
anterior ao pão do dia.
na cama lisa
beijo esse ar abençoado
que ao meu lado dorme
mas pede licença para entrar nos meus sonhos
e antes de pisar o chão
persigo o aroma das flores que se partiram na noite
e faço mais um traço vermelho
no calendário atrás das almofadas.
então solto-me do abraço
e fixo residência em mim
desejando apenas tornar-me mais nítida
ao atravessar a neblina dos teus olhos.
e lavro no rosto o campo da felicidade
(adoravelmente branco,
como esta folha por escrever.
amo cada manhã por usar
como um vestido perfeitamente engomado
à espera de sair
e essa pele na minha pele
enquanto não acordo,
anterior ao pão do dia.
na cama lisa
beijo esse ar abençoado
que ao meu lado dorme
mas pede licença para entrar nos meus sonhos
e antes de pisar o chão
persigo o aroma das flores que se partiram na noite
e faço mais um traço vermelho
no calendário atrás das almofadas.
então solto-me do abraço
e fixo residência em mim
desejando apenas tornar-me mais nítida
ao atravessar a neblina dos teus olhos.
e lavro no rosto o campo da felicidade
(adoravelmente branco,
como esta folha por escrever.
segunda-feira, 5 de março de 2012
O mundo todo para te deitar
nas minhas reais ficções,
sou a projecção verbal do que nem me atrevo a pensar
e enumero
as vezes em que me fingi idiota (era prático e seguro
as cicatrizes acima do tornozelo (chamo-lhes jonas
os sulcos no rosto com o teu nome (dão para plantar oásis
os beijos que me recusaste (retalho-os inteiramente, humanos
os medos atirados para um canto (indiferentes às fotografias.
entro na mesquita como quem vai à discoteca
todas as semanas sem pagar bilhete
nem sequer o consumo mínimo,
e desenlaço um deserto por altar
e estendo tapetes para os joelhos.
e tenho o mundo todo para te deitar
enquanto a água me abençoa o corpo em obras permanentes,
fechado de novo como quando
não me vias.
e digo, não há bairro
alto como esse onde fomos iguais
ao que éramos antes do tejo desaguar no bósforo, dizes tu
(e ignoras o teu amigo de turbante,
cachimbo aceso ao espelho e o coração a transbordar
do copo (como se o amor não coubesse num só mergulho.
sou a projecção verbal do que nem me atrevo a pensar
e enumero
as vezes em que me fingi idiota (era prático e seguro
as cicatrizes acima do tornozelo (chamo-lhes jonas
os sulcos no rosto com o teu nome (dão para plantar oásis
os beijos que me recusaste (retalho-os inteiramente, humanos
os medos atirados para um canto (indiferentes às fotografias.
entro na mesquita como quem vai à discoteca
todas as semanas sem pagar bilhete
nem sequer o consumo mínimo,
e desenlaço um deserto por altar
e estendo tapetes para os joelhos.
e tenho o mundo todo para te deitar
enquanto a água me abençoa o corpo em obras permanentes,
fechado de novo como quando
não me vias.
e digo, não há bairro
alto como esse onde fomos iguais
ao que éramos antes do tejo desaguar no bósforo, dizes tu
(e ignoras o teu amigo de turbante,
cachimbo aceso ao espelho e o coração a transbordar
do copo (como se o amor não coubesse num só mergulho.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Apontando a Bizâncio
não espero riquezas nem ambiciono alegrias,
ou que me oiças os versos
e os repetidos risos
(sei que só a boca pelo amor tocada
ganha voz
pois também as folhas
mudas permanecem nos ramos
enquanto o vento não as faz cantar.
e assim nas formas balsâmicas do silêncio
encontro eu a casa das minhas palavras
(tuas
como o velho sofá
onde jaz o pequeno buda de pedra
há anos escondido
da inveja.
nenhuma morte nos afastará
(segredou-me ele antes da queda
e eu quase acreditei: no calor da tua mão
a fé era fácil como caminhar.
passo, como sabes,
pela tua vida e a minha
como passei
de asas caladas e alta glória
e hei-de passar ainda
rasando a tua janela
na plumagem do pássaro de yeats
apontando a bizâncio e junto aos sábios
descarnada e a rebentar de febre
(alma e coração no artifício
trabalhoso da eternidade.
só os frutos nas árvores são perfeitos e mesmo assim
nem todos,
dizes quando passo.
eu aceno ao mundo aí em baixo e digo,
que múltiplas manhãs de verão te sucedam,
em tremenda e perfeita humanidade
(contradição de quem nada pede, exigindo tudo
tanto dá.
morrerás, como eu
de flor ao peito e fios de esperança no cabelo.
ou que me oiças os versos
e os repetidos risos
(sei que só a boca pelo amor tocada
ganha voz
pois também as folhas
mudas permanecem nos ramos
enquanto o vento não as faz cantar.
e assim nas formas balsâmicas do silêncio
encontro eu a casa das minhas palavras
(tuas
como o velho sofá
onde jaz o pequeno buda de pedra
há anos escondido
da inveja.
nenhuma morte nos afastará
(segredou-me ele antes da queda
e eu quase acreditei: no calor da tua mão
a fé era fácil como caminhar.
passo, como sabes,
pela tua vida e a minha
como passei
de asas caladas e alta glória
e hei-de passar ainda
rasando a tua janela
na plumagem do pássaro de yeats
apontando a bizâncio e junto aos sábios
descarnada e a rebentar de febre
(alma e coração no artifício
trabalhoso da eternidade.
só os frutos nas árvores são perfeitos e mesmo assim
nem todos,
dizes quando passo.
eu aceno ao mundo aí em baixo e digo,
que múltiplas manhãs de verão te sucedam,
em tremenda e perfeita humanidade
(contradição de quem nada pede, exigindo tudo
tanto dá.
morrerás, como eu
de flor ao peito e fios de esperança no cabelo.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Hoje não há festejos
queria contar-te os meus dias novos
e de como consertei
os meus sonhos e as persianas
que me descem sobre os calafrios
até à espinha (dura de acordar
gostava de te falar dos mundos que estranho,
das guerras sem tradução no teu idioma,
das pazes que não fizemos, das mãos quentes
apagadas no cinzeiro,
e não forçosamente ao ouvido
nem abraçada (sequer
queria mostrar-te como abro e fecho as portas desertas
por onde passam as noites a caminho do bairro
de braço dado
às duzentas mortes com nome de mulher
que conheci
e dizer-te que a vista me abisma e a luz do amor me doi
mais ainda do que a memória
mas hoje
não há festejos, não há
chuva e dilúvio
nem prato e faca
ou vinho ou queijo (ou chá e pão
só este canto maduro, enxuto de lágrimas
a rasgar (teimoso
o silêncio de gelo dos teus últimos olhos.
e de como consertei
os meus sonhos e as persianas
que me descem sobre os calafrios
até à espinha (dura de acordar
gostava de te falar dos mundos que estranho,
das guerras sem tradução no teu idioma,
das pazes que não fizemos, das mãos quentes
apagadas no cinzeiro,
e não forçosamente ao ouvido
nem abraçada (sequer
queria mostrar-te como abro e fecho as portas desertas
por onde passam as noites a caminho do bairro
de braço dado
às duzentas mortes com nome de mulher
que conheci
e dizer-te que a vista me abisma e a luz do amor me doi
mais ainda do que a memória
mas hoje
não há festejos, não há
chuva e dilúvio
nem prato e faca
ou vinho ou queijo (ou chá e pão
só este canto maduro, enxuto de lágrimas
a rasgar (teimoso
o silêncio de gelo dos teus últimos olhos.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Se lhe pões um ponto
esse verso diário
que na tua boca
se forma às nove
trago no ouvido
(disfarçado pelo sol nos cabelos
o amor que me dás
arrumo na lancheira
e como à secretária
quando bate a uma
(com talheres de tinta e verbo
pára-me o pulso
à roda das seis
treme-me a folha
as mãos descaem
(pela imprestável memória
às oito sacudo
o vento do casaco
sento-me à mesa,
mordo o lábio
(enquanto chegas para jantar
o silêncio vem
abraça a alma
abro-me, dispo-te
passa das onze
(ressoam suspiros pelo quarto
e cresce, cresce
como menino
o nosso poema
noite adentro
(tão bem ajustado ao tempo
se lhe pões um ponto, eu ainda o publico
que na tua boca
se forma às nove
trago no ouvido
(disfarçado pelo sol nos cabelos
o amor que me dás
arrumo na lancheira
e como à secretária
quando bate a uma
(com talheres de tinta e verbo
pára-me o pulso
à roda das seis
treme-me a folha
as mãos descaem
(pela imprestável memória
às oito sacudo
o vento do casaco
sento-me à mesa,
mordo o lábio
(enquanto chegas para jantar
o silêncio vem
abraça a alma
abro-me, dispo-te
passa das onze
(ressoam suspiros pelo quarto
e cresce, cresce
como menino
o nosso poema
noite adentro
(tão bem ajustado ao tempo
se lhe pões um ponto, eu ainda o publico
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Nessa funesta casa de campo
nessa funesta casa de campo
de onde nunca nasceram flores
nem sequer se abriram bocas de espanto
(se não ao fim dos ossos,
segurei a tua morte e ascendi à poesia,
de pão de centeio no bolso,
tomate, folhas de prata e três fatias de rosbife,
sem relógio.
ouvia-se a fome na cidade
(triunfante
os assobios do asfalto, as paredes remendadas
e por vezes havia luar nas janelas
a deslizar-nos para as entranhas.
e quando sob a manta me tocavas
parecia que me atavas um nó por dentro
de modo a que jamais nos separássemos.
mas
(tudo em ti era um corvo,
partias todas as noites enquanto te falava
com a cabeça inclinada, voando
de mãos paradas nas minhas
e os olhos em filmes dos Óscares,
dardejados de fantasmas.
e eu, num débil gesto de vida extraviada,
agarrava-me ao útero vazio e cobria-te
(de alma silenciosa
à espera que regressasses.
já não espero nada.
de onde nunca nasceram flores
nem sequer se abriram bocas de espanto
(se não ao fim dos ossos,
segurei a tua morte e ascendi à poesia,
de pão de centeio no bolso,
tomate, folhas de prata e três fatias de rosbife,
sem relógio.
ouvia-se a fome na cidade
(triunfante
os assobios do asfalto, as paredes remendadas
e por vezes havia luar nas janelas
a deslizar-nos para as entranhas.
e quando sob a manta me tocavas
parecia que me atavas um nó por dentro
de modo a que jamais nos separássemos.
mas
(tudo em ti era um corvo,
partias todas as noites enquanto te falava
com a cabeça inclinada, voando
de mãos paradas nas minhas
e os olhos em filmes dos Óscares,
dardejados de fantasmas.
e eu, num débil gesto de vida extraviada,
agarrava-me ao útero vazio e cobria-te
(de alma silenciosa
à espera que regressasses.
já não espero nada.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Como quando me perguntas
vens gritar-me sem razão aparente
o teu secreto desalento
em espuma,
dentes e volume
de pedra por esculpir
chegas-me pelo avesso
a fintar a chuva açucarada
que te cai liricamente
do meu peito ruminante
e não sabes que mais fazer ao desejo
que descarregas das mãos
para as gavetas
e a tábua de engomar
eu entrego-me ao jogo inútil
de esfacelar a felicidade
sem sequer te beber os olhos
ou secar os meus,
como quando me perguntas,
julgando que sei, se o amor é importante
e eu te digo,
tanto como a água,
enquanto deito os dedos
na matemática dos teus gestos
e viro a cabeça para sul.
o teu secreto desalento
em espuma,
dentes e volume
de pedra por esculpir
chegas-me pelo avesso
a fintar a chuva açucarada
que te cai liricamente
do meu peito ruminante
e não sabes que mais fazer ao desejo
que descarregas das mãos
para as gavetas
e a tábua de engomar
eu entrego-me ao jogo inútil
de esfacelar a felicidade
sem sequer te beber os olhos
ou secar os meus,
como quando me perguntas,
julgando que sei, se o amor é importante
e eu te digo,
tanto como a água,
enquanto deito os dedos
na matemática dos teus gestos
e viro a cabeça para sul.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Melhor (talvez
entrego-me ao amor sem saber o que sorver
desse sabor a estrelas (de lume essencial
que trazes nas mãos.
entendo apenas o que o teu rosto (nada literário
me diz,
consciente de que (como todos os seres
temos os dias contados
apesar do ímpeto juvenil com que matamos o tempo
e prendemos enfeites (que caem um a um,
como as fachadas,
ao coração.
organizo as cores (noite dentro
em malas de brincar
e pinto épicas batalhas (tão inúteis como as outras
nesse silêncio de mágoas antigas
que nem quando bebes gargalhadas
consegues esconder.
deixo-te (em momentâneo aturdimento
abraçares-me pela cintura,
desconfiada do que me ofereces
quando consolo
é o que o teu olhar pede (cegamente dominador
como a minha mão direita
ao escrever.
melhor (talvez
seria levantar-me à hora dos padeiros
para (num vagar doméstico
negar cada verso que longe de ti levo
da imaginação.
e entregar-me (sem poemas
ao grande mundo onde (em chaga
nos afundamos.
desse sabor a estrelas (de lume essencial
que trazes nas mãos.
entendo apenas o que o teu rosto (nada literário
me diz,
consciente de que (como todos os seres
temos os dias contados
apesar do ímpeto juvenil com que matamos o tempo
e prendemos enfeites (que caem um a um,
como as fachadas,
ao coração.
organizo as cores (noite dentro
em malas de brincar
e pinto épicas batalhas (tão inúteis como as outras
nesse silêncio de mágoas antigas
que nem quando bebes gargalhadas
consegues esconder.
deixo-te (em momentâneo aturdimento
abraçares-me pela cintura,
desconfiada do que me ofereces
quando consolo
é o que o teu olhar pede (cegamente dominador
como a minha mão direita
ao escrever.
melhor (talvez
seria levantar-me à hora dos padeiros
para (num vagar doméstico
negar cada verso que longe de ti levo
da imaginação.
e entregar-me (sem poemas
ao grande mundo onde (em chaga
nos afundamos.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Enquanto a massa
ponho-te ao peito, meu amor sem palavras de cortar,
e em sossego levo-te para casa
(de poema murmurado na rebentação das ondas
enquanto o teu mais belo par de olhos
trespassa de luz
as noites solitárias da minha memória.
as pedras brilham como luas cheias
à medida que sobre elas avançamos
(remorsos nenhuns, pés completos
os quatro
e as mãos quentes como conchas fechadas,
neste outono sem rasuras,
onde não reconheces o desfolhamento
que a terra te mostrou à entrada da infância.
não sei se há bibliotecas no mar,
dizes, ou igrejas sem enigmas nas nuvens.
e dás o braço ao meu coração
(nove meses sobranceiro aos filhos que criei
enquanto a massa ferve e me beijas.
eu
ainda antes do jantar
assisto um supremo instante
ao nosso milagre intacto.
e ponho-te ao peito, meu amor sem lágrimas de corroer,
pronta para negar o passado mais uma vez.
não têm rosto os pássaros que partem, digo
(nem os de forma humana,
na celeste brisa oceânica desta cidade
onde nos tornamos de um sangue só.
tu
vertes um suspiro para dentro de mim e
(sem preces
serves a massa.
e em sossego levo-te para casa
(de poema murmurado na rebentação das ondas
enquanto o teu mais belo par de olhos
trespassa de luz
as noites solitárias da minha memória.
as pedras brilham como luas cheias
à medida que sobre elas avançamos
(remorsos nenhuns, pés completos
os quatro
e as mãos quentes como conchas fechadas,
neste outono sem rasuras,
onde não reconheces o desfolhamento
que a terra te mostrou à entrada da infância.
não sei se há bibliotecas no mar,
dizes, ou igrejas sem enigmas nas nuvens.
e dás o braço ao meu coração
(nove meses sobranceiro aos filhos que criei
enquanto a massa ferve e me beijas.
eu
ainda antes do jantar
assisto um supremo instante
ao nosso milagre intacto.
e ponho-te ao peito, meu amor sem lágrimas de corroer,
pronta para negar o passado mais uma vez.
não têm rosto os pássaros que partem, digo
(nem os de forma humana,
na celeste brisa oceânica desta cidade
onde nos tornamos de um sangue só.
tu
vertes um suspiro para dentro de mim e
(sem preces
serves a massa.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Na última pedra bordada de sal
dobro a onda que me enrola
de flanela rente à tua respiração litoral
e estico o mar nos olhos
(tingidos de cinza,
espreitam-te a morte nas acções distantes.
as chamas arranham-me o espírito (sem novas palavras
desfaço
a ternura em farrapos, as dores em gotas
(altos luxos
despenham-se das nuvens que perguntam as horas
despenham-se no sítio das cantigas, do medo natural
despenham-se sem coroa nem brilho
na última pedra bordada de sal
(e lavo os dentes contigo, lado a lado,
a perda de tempo prevenindo.
todos os dias
bebemos demasiadas certezas, digo.
e tu dizes, nada há mais instável que o desejo.
sob o mistério da luz ofereço-te as mãos em florido desespero,
enquanto roda soul (your love was meant for me
na orla do sol
e os teus gestos reservados ao amor repetem-se no meu corpo.
todos os dias
o consolo chega tarde, digo.
e tu dizes, também as folhas falam ao vento sem que as oiçam.
e os meus gestos (vulneráveis, cantando
abraçam a longa travessia de regresso à solidão.
como sabes,
espera-nos outra vida.
de flanela rente à tua respiração litoral
e estico o mar nos olhos
(tingidos de cinza,
espreitam-te a morte nas acções distantes.
as chamas arranham-me o espírito (sem novas palavras
desfaço
a ternura em farrapos, as dores em gotas
(altos luxos
despenham-se das nuvens que perguntam as horas
despenham-se no sítio das cantigas, do medo natural
despenham-se sem coroa nem brilho
na última pedra bordada de sal
(e lavo os dentes contigo, lado a lado,
a perda de tempo prevenindo.
todos os dias
bebemos demasiadas certezas, digo.
e tu dizes, nada há mais instável que o desejo.
sob o mistério da luz ofereço-te as mãos em florido desespero,
enquanto roda soul (your love was meant for me
na orla do sol
e os teus gestos reservados ao amor repetem-se no meu corpo.
todos os dias
o consolo chega tarde, digo.
e tu dizes, também as folhas falam ao vento sem que as oiçam.
e os meus gestos (vulneráveis, cantando
abraçam a longa travessia de regresso à solidão.
como sabes,
espera-nos outra vida.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Entre estas paredes
o amor era agora,
quando dávamos as mãos à minha incontinência romântica
e atravessávamos sete colinas e um sonho
no teu silencioso olhar.
o amor era agora,
quando não largávamos a cama enquanto há sol e há chuva,
dois vulcões de carne sem ponderação nenhuma
e as horas a esvair-se nos lençóis.
saíamos de braço dado,
como as marroquinas sem malícia
e os casacos até aos dentes fechados como cartas.
havia festa no cais do sodré, os sorrisos perdendo-se pelas esquinas
e resvalando em desperdício pelas sarjetas.
a música já esteve pior, dizes.
e eu digo,
só não danço sem ti.
até voltarmos para casa.
o amor seria agora,
enquanto a massa dos crepes escorrega na sertã
e nós em turva lucidez a misturar o gershwin na canela.
o amor seria agora,
com a minha boca molhada de visita à tua pele.
o amor seria agora, entre estas paredes.
e fácil. mas a cidade não vê.
quando dávamos as mãos à minha incontinência romântica
e atravessávamos sete colinas e um sonho
no teu silencioso olhar.
o amor era agora,
quando não largávamos a cama enquanto há sol e há chuva,
dois vulcões de carne sem ponderação nenhuma
e as horas a esvair-se nos lençóis.
saíamos de braço dado,
como as marroquinas sem malícia
e os casacos até aos dentes fechados como cartas.
havia festa no cais do sodré, os sorrisos perdendo-se pelas esquinas
e resvalando em desperdício pelas sarjetas.
a música já esteve pior, dizes.
e eu digo,
só não danço sem ti.
até voltarmos para casa.
o amor seria agora,
enquanto a massa dos crepes escorrega na sertã
e nós em turva lucidez a misturar o gershwin na canela.
o amor seria agora,
com a minha boca molhada de visita à tua pele.
o amor seria agora, entre estas paredes.
e fácil. mas a cidade não vê.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Pelo sim pelo não
à cautela abro um pouco a porta e deixo entrar
a tua história (luz fendida em solo gasto,
todos os momentos
das tuas outras vidas.
e oiço-te. vasculho-te. aliso-te.
e digo,
tens direito a não saber como viver.
e tu dizes, faço-me à ternura
pelo sim pelo não.
arranjas, como o cabelo, o coração
antes de saíres à rua e voares
do meio-dia ao desmaio, até aos meus braços
(demora só mais cinco minutos, vale a pena
e vês-me enfim, reconhecendo
o meu tamanho de nada e pó
(no teu colo redentor.
pelo sim pelo não ao dependuro largo
no hall os segredos (que me vestiam
enquanto o sol incendeia
os teus olhos mendigos
(pedem fulgor à corrida do rio
e encontram-me ao poente.
a oriente
minaretes perfuram o céu,
crianças morrem soterradas,
mulheres em asfixia gatinham de preto.
e tu ainda te queixas,
no passeio liso,
no jardim suspenso,
no tempo limpo,
a arrancar espinhos ao amor.
dizes, já não sou a mesma rapariga que sobreviveu
ao chocolate do natal de oitenta e oito
(vale à flor da cascata.
mas ainda te derretes em calda
(fio a metro que te mede,
digo eu.
e o mar canta pleno
universal, nas nossas mãos abertas
uma na outra,
pelo sim pelo não.
a tua história (luz fendida em solo gasto,
todos os momentos
das tuas outras vidas.
e oiço-te. vasculho-te. aliso-te.
e digo,
tens direito a não saber como viver.
e tu dizes, faço-me à ternura
pelo sim pelo não.
arranjas, como o cabelo, o coração
antes de saíres à rua e voares
do meio-dia ao desmaio, até aos meus braços
(demora só mais cinco minutos, vale a pena
e vês-me enfim, reconhecendo
o meu tamanho de nada e pó
(no teu colo redentor.
pelo sim pelo não ao dependuro largo
no hall os segredos (que me vestiam
enquanto o sol incendeia
os teus olhos mendigos
(pedem fulgor à corrida do rio
e encontram-me ao poente.
a oriente
minaretes perfuram o céu,
crianças morrem soterradas,
mulheres em asfixia gatinham de preto.
e tu ainda te queixas,
no passeio liso,
no jardim suspenso,
no tempo limpo,
a arrancar espinhos ao amor.
dizes, já não sou a mesma rapariga que sobreviveu
ao chocolate do natal de oitenta e oito
(vale à flor da cascata.
mas ainda te derretes em calda
(fio a metro que te mede,
digo eu.
e o mar canta pleno
universal, nas nossas mãos abertas
uma na outra,
pelo sim pelo não.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
O rio que sei
trocas de chapéu mais uma vez
e sais para a noite à espera do fim.
imaginas gravatas nos decotes,
andas sem tréguas pelas pedras irregulares,
adivinhas derramamentos de sal nas caras bêbadas.
e a cada curva inventas segredos líquidos,
sem medo de deixares outra vida a meio.
encontras-me em tinta fresca na ponte das duras penas.
não há esquina nenhuma por perto,
só um chilrear sem asas a bater no caminho,
o rio que sei ainda branco a guardar o silêncio,
a medida certa de luz amarela.
falas-me da cor e do espírito guerreiro,
das imagens que sentes e dos gritos que dás.
queres saber o que poderás ter e te ensine o rumo,
a lua parada de todo
a prometer-te pouco e vago descanso,
os joelhos trémulos, os olhos a boca as mãos secas,
uma dor inexplicável no pé direito.
eu elevo-me ao muro da ponte num fio de palavras
e não danço.
falo-te do amor que pede,
mas nada exige. das coisas transitórias imateriais,
do sonho que aqui morreu há onze anos e um dia,
do desapego.
depois acendo-te um cigarro.
fazes-me chorar, dizes.
e eu digo, preferia fazer-te.
então recolho-me ao correr da página
e tu reapareces em poema.
e sais para a noite à espera do fim.
imaginas gravatas nos decotes,
andas sem tréguas pelas pedras irregulares,
adivinhas derramamentos de sal nas caras bêbadas.
e a cada curva inventas segredos líquidos,
sem medo de deixares outra vida a meio.
encontras-me em tinta fresca na ponte das duras penas.
não há esquina nenhuma por perto,
só um chilrear sem asas a bater no caminho,
o rio que sei ainda branco a guardar o silêncio,
a medida certa de luz amarela.
falas-me da cor e do espírito guerreiro,
das imagens que sentes e dos gritos que dás.
queres saber o que poderás ter e te ensine o rumo,
a lua parada de todo
a prometer-te pouco e vago descanso,
os joelhos trémulos, os olhos a boca as mãos secas,
uma dor inexplicável no pé direito.
eu elevo-me ao muro da ponte num fio de palavras
e não danço.
falo-te do amor que pede,
mas nada exige. das coisas transitórias imateriais,
do sonho que aqui morreu há onze anos e um dia,
do desapego.
depois acendo-te um cigarro.
fazes-me chorar, dizes.
e eu digo, preferia fazer-te.
então recolho-me ao correr da página
e tu reapareces em poema.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Há coisas que não têm palavras
esquecida das duzentas dores que carrego no peito
sou capaz de voar no teu breve abraço,
anterior à rotina da manhã.
e o dia começa.
na cama ainda quente ficou o desalinho,
nas mãos a nudez, gemidos misturados a pender das cortinas.
e junto à nuca suada as velhas decisões que te tenho lido ao acaso,
como notícias de jornal.
sorrio por seis metros, entre o quarto e a banheira,
e conto-te os sinais sem que notes.
na água do duche deslocam-se de vida,
minúsculas ilusões em carne escura a impor-se aos meus olhos,
mais que o umbigo ou a linha das ancas ou o declive dos ombros,
e procuro cuidar do que trazes dentro
enquanto me ensaboas.
e o dia espera.
dos copos por lavar à cabeceira
espreitam lágrimas do vinho que ontem
nos encheu de precária alegria,
oxidado de vez.
e tu viras-lhes as costas para pintares as unhas.
e o dia avança.
redefines as sobrancelhas, soltas-te no espelho,
ignoras o meu desejo.
há coisas que não têm palavras, dizes.
eu visto-me de bálsamos de ternura disfarçada
e afasto as paredes ao encontro da tua pele.
em vão.
todo o inefável é ausência, digo.
tu vês as horas em vez dos meus lábios cosidos ao teu nome
e apertas os sapatos.
arrumas o tabaco, as chaves, os segredos
e o dia leva-te.
eu baixo a cabeça de sonhos e já ao volante penso,
o amor é de pedra. mas eu, não.
sou capaz de voar no teu breve abraço,
anterior à rotina da manhã.
e o dia começa.
na cama ainda quente ficou o desalinho,
nas mãos a nudez, gemidos misturados a pender das cortinas.
e junto à nuca suada as velhas decisões que te tenho lido ao acaso,
como notícias de jornal.
sorrio por seis metros, entre o quarto e a banheira,
e conto-te os sinais sem que notes.
na água do duche deslocam-se de vida,
minúsculas ilusões em carne escura a impor-se aos meus olhos,
mais que o umbigo ou a linha das ancas ou o declive dos ombros,
e procuro cuidar do que trazes dentro
enquanto me ensaboas.
e o dia espera.
dos copos por lavar à cabeceira
espreitam lágrimas do vinho que ontem
nos encheu de precária alegria,
oxidado de vez.
e tu viras-lhes as costas para pintares as unhas.
e o dia avança.
redefines as sobrancelhas, soltas-te no espelho,
ignoras o meu desejo.
há coisas que não têm palavras, dizes.
eu visto-me de bálsamos de ternura disfarçada
e afasto as paredes ao encontro da tua pele.
em vão.
todo o inefável é ausência, digo.
tu vês as horas em vez dos meus lábios cosidos ao teu nome
e apertas os sapatos.
arrumas o tabaco, as chaves, os segredos
e o dia leva-te.
eu baixo a cabeça de sonhos e já ao volante penso,
o amor é de pedra. mas eu, não.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Serra
já a noite engoliu os rochedos
na varanda teimam
as memórias a tremeluzir nas velas,
ainda te espera um copo de vinho
uma ladainha fraterna
um palácio de beijos.
e sentas-te num degrau de pedra
para rezar
missas inteiras com aroma a love story,
as horas a passar-te confusas pelo sangue
as mãos nervosas por distracção,
a música em vez da língua
o sonho em estado de pele.
e os uivos em eco.
eu chego-me a ti
com as minhas elaboradas concepções do mundo
o casaco de lã, os cigarros
um tremor nas pernas com cadência de tango
dois suspiros para tentares agarrar com os olhos
e um presente de instantâneo amor
que desembrulhas sem sorrir.
dizes inverosímil,
que a queda não te aconteça.
e eu digo,
nunca antes de me seres essencial.
pisamos atabalhoadamente
de mãos dadas, à tua vontade
os juncos que deveriam estar no rio,
chão nosso por um instante,
e só o teu desejo fala ao meu consolo.
depois
as árvores calam-nos
quando nos encostamos
a ternura abre-nos um sulco na carne
e mistura-nos como ar.
eu digo impassível,
há luar nos teus braços.
e tu dizes,
todo o abraço tem uma gota de azul.
então afastas-me
cambaleando desligas as estrelas
sobes devagar os degraus de pedra
e puxas-me para casa.
na varanda teimam
as memórias a tremeluzir nas velas,
ainda te espera um copo de vinho
uma ladainha fraterna
um palácio de beijos.
e sentas-te num degrau de pedra
para rezar
missas inteiras com aroma a love story,
as horas a passar-te confusas pelo sangue
as mãos nervosas por distracção,
a música em vez da língua
o sonho em estado de pele.
e os uivos em eco.
eu chego-me a ti
com as minhas elaboradas concepções do mundo
o casaco de lã, os cigarros
um tremor nas pernas com cadência de tango
dois suspiros para tentares agarrar com os olhos
e um presente de instantâneo amor
que desembrulhas sem sorrir.
dizes inverosímil,
que a queda não te aconteça.
e eu digo,
nunca antes de me seres essencial.
pisamos atabalhoadamente
de mãos dadas, à tua vontade
os juncos que deveriam estar no rio,
chão nosso por um instante,
e só o teu desejo fala ao meu consolo.
depois
as árvores calam-nos
quando nos encostamos
a ternura abre-nos um sulco na carne
e mistura-nos como ar.
eu digo impassível,
há luar nos teus braços.
e tu dizes,
todo o abraço tem uma gota de azul.
então afastas-me
cambaleando desligas as estrelas
sobes devagar os degraus de pedra
e puxas-me para casa.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Sonata
na ânsia fátua do segundo andamento
(dolente
que abstracta vibra no meu peito à espera de continuação
tento interminavelmente viver para hoje
(sem pressa.
estremece comigo o teu corpo
em milagre acontecendo no calor
das minhas mãos.
investigo-lhe os sinais escavados na pele,
mapas em relevo que de noite vejo melhor
e em silencioso rosário
oiço avançar
como bravos navios nas pautas imateriais.
do espelho recorto as chamas,
crepitante chuva de pessoas caídas
diluindo-se breves
nas águas da memória,
lamentáveis como mortes prematuras,
para guardar no fundo dos erros mais imprudentes.
e esqueço as violetas de lume
(dengosas
que ainda brincam na imagem,
como na outra vida, minha
sem a leveza dos beijos.
e apago as manhãs sempre velhas
(devagar
como corvos, enlutadas
apesar do balanço do sol nas janelas
que diariamente de coração aberto
se fechavam à entrada dos sonhos.
agora contigo
estremece
(pouco a pouco
o meu corpo
em cascatas
(variantes
de remanescentes harmonias.
e no teu abraço
(em todos os tempos
atraso
a conclusão.
(dolente
que abstracta vibra no meu peito à espera de continuação
tento interminavelmente viver para hoje
(sem pressa.
estremece comigo o teu corpo
em milagre acontecendo no calor
das minhas mãos.
investigo-lhe os sinais escavados na pele,
mapas em relevo que de noite vejo melhor
e em silencioso rosário
oiço avançar
como bravos navios nas pautas imateriais.
do espelho recorto as chamas,
crepitante chuva de pessoas caídas
diluindo-se breves
nas águas da memória,
lamentáveis como mortes prematuras,
para guardar no fundo dos erros mais imprudentes.
e esqueço as violetas de lume
(dengosas
que ainda brincam na imagem,
como na outra vida, minha
sem a leveza dos beijos.
e apago as manhãs sempre velhas
(devagar
como corvos, enlutadas
apesar do balanço do sol nas janelas
que diariamente de coração aberto
se fechavam à entrada dos sonhos.
agora contigo
estremece
(pouco a pouco
o meu corpo
em cascatas
(variantes
de remanescentes harmonias.
e no teu abraço
(em todos os tempos
atraso
a conclusão.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Rotação
enquanto acordas, eu
lucidamente consigo ouvir-te a largar dos membros
o repouso.
vejo acender-se claramente
essa pequena, como eu
temerária chama
de terno amor jovem (à
um quarto para as duas,
afadigada e radiante
como os anjos de luz, as ameixas e as alvoradas tardias
que à volta dos teus braços se enrolam,
pulseiras de lume
em rotação,
rosas dos ventos com sentido,
ramos frágeis numa equação em espiral
sem esfera definida
ou categoria sequer. liberdade em movimento.
enquanto tu,
nua,
acordas, eu (à
um quarto para as três,
sorrio horas adentro
em contido júbilo, mas real.
és minha e viva
e quase te permites aceitar
a vontade da alegria, o meu tamanho e inclinação.
acordas (à
um quarto para as cinco,
para o meu rosto sonhador,
e tocas-me
até ao coração enquanto o mundo dorme
e os morcegos cantam
ainda.
abres os braços, as pernas,
a alma,
e eu (à
um quarto para as seis,
esqueço-me do tempo
e naturalmente
entro em ti.
lucidamente consigo ouvir-te a largar dos membros
o repouso.
vejo acender-se claramente
essa pequena, como eu
temerária chama
de terno amor jovem (à
um quarto para as duas,
afadigada e radiante
como os anjos de luz, as ameixas e as alvoradas tardias
que à volta dos teus braços se enrolam,
pulseiras de lume
em rotação,
rosas dos ventos com sentido,
ramos frágeis numa equação em espiral
sem esfera definida
ou categoria sequer. liberdade em movimento.
enquanto tu,
nua,
acordas, eu (à
um quarto para as três,
sorrio horas adentro
em contido júbilo, mas real.
és minha e viva
e quase te permites aceitar
a vontade da alegria, o meu tamanho e inclinação.
acordas (à
um quarto para as cinco,
para o meu rosto sonhador,
e tocas-me
até ao coração enquanto o mundo dorme
e os morcegos cantam
ainda.
abres os braços, as pernas,
a alma,
e eu (à
um quarto para as seis,
esqueço-me do tempo
e naturalmente
entro em ti.
terça-feira, 12 de julho de 2011
De feição
corre de feição este vento de amor possível
a desatar nós à memória,
a fibrilar o algodão das nuvem cinza
para que perdure,
a soprar açúcar (colado aos dentes
ao ouvido deste animal desvairado que
(repetidamente
marra de frente
(sem guia
contra os muros do tempo.
avança de feição este vento
(exactamente
para onde deve ir,
exactamente
à medida
da silhueta do meu desejo
desenhada na tua pele.
voa de feição este vento de imodesta vontade,
vai sem alarme pelas margens da ternura
a despejar canções sobre os meus dedos
e a beijar-me a nuca de brisas solares
(como essas que à noite me entregas
na almofada virada a oeste,
alinhada com a janela dos autocarros
mas falta (talvez
delicadeza ao mundo
para segui-lo,
tomá-lo nas mãos e dividi-lo
(como pão
pelos dias magros da cidade.
morre-me (pois
de feição outro vento
recortado no espelho
à imagem do que não és.
a desatar nós à memória,
a fibrilar o algodão das nuvem cinza
para que perdure,
a soprar açúcar (colado aos dentes
ao ouvido deste animal desvairado que
(repetidamente
marra de frente
(sem guia
contra os muros do tempo.
avança de feição este vento
(exactamente
para onde deve ir,
exactamente
à medida
da silhueta do meu desejo
desenhada na tua pele.
voa de feição este vento de imodesta vontade,
vai sem alarme pelas margens da ternura
a despejar canções sobre os meus dedos
e a beijar-me a nuca de brisas solares
(como essas que à noite me entregas
na almofada virada a oeste,
alinhada com a janela dos autocarros
mas falta (talvez
delicadeza ao mundo
para segui-lo,
tomá-lo nas mãos e dividi-lo
(como pão
pelos dias magros da cidade.
morre-me (pois
de feição outro vento
recortado no espelho
à imagem do que não és.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Dedicatória
pergunto-me como estará marraquexe este verão.
em madrid há portuguesinhas atrevidas
ao méxico vou de tequilla
goa arde-me nos olhos.
atavio-me para o mundo por ver, a mala o chapéu
cigarros e cinto
a fronteira só azul
o tempero de não saber
sol e vento na pele quente
e escrevo,
desde que passe por corações humanos
na viagem de tempo a ruir
dedico-te o meu passaporte.
em madrid há portuguesinhas atrevidas
ao méxico vou de tequilla
goa arde-me nos olhos.
atavio-me para o mundo por ver, a mala o chapéu
cigarros e cinto
a fronteira só azul
o tempero de não saber
sol e vento na pele quente
e escrevo,
desde que passe por corações humanos
na viagem de tempo a ruir
dedico-te o meu passaporte.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Este é o meu encontro
este é o meu encontro contigo.
preparo-me de aromas e visto-me de música transparente,
há muito cansada de me envelhecer neste canto
a fumar sarcasmos
sem objectivo
a cavar
e a enterrar sombras
em camas de trigo.
analiso-te as unhas e o tremor
à chegada,
dois pingos de ternura depois
aterro no teu abraço
e abro a boca quase tua. digo,
o medo é um amigo falso.
e tu dizes, como sabes tenho a fé por baixo do verniz.
agora, por mais bravo
sem os teus olhos é trivial
cada gesto
meu.
pede anteontem.
preparo-me de aromas e visto-me de música transparente,
há muito cansada de me envelhecer neste canto
a fumar sarcasmos
sem objectivo
a cavar
e a enterrar sombras
em camas de trigo.
analiso-te as unhas e o tremor
à chegada,
dois pingos de ternura depois
aterro no teu abraço
e abro a boca quase tua. digo,
o medo é um amigo falso.
e tu dizes, como sabes tenho a fé por baixo do verniz.
agora, por mais bravo
sem os teus olhos é trivial
cada gesto
meu.
pede anteontem.
terça-feira, 14 de junho de 2011
São as horas
longas são as horas em que redesenho o teu rosto
na superfície indefinida da memória
só o espelho sabe que ainda me mexo
enquanto retomo o tremendo amor
que numa noite despida me entregaste,
muito antes de te escrever o primeiro poema
e do efeito secundário dos teus olhos na minha boca.
longas são as horas em que me adio pelo teu corpo
na superfície segura da memória
observo-te a dançar she works hard for the money
e depois a fatiar corações numa tábua de pinho
como se não tivesses outro quotidiano que te servisse.
pergunto-te por mim,
se me vês e se
ainda te lembras do sismo suado que nos fendeu o peito.
tu dizes,
sou uma menina sem maldades,
e temendo que eu duvide apressas-te a puxar o decote.
longas são as horas em que te cubro de terra
na superfície calada da memória
em êxtase olho a paisagem que me resta até ao fim da fome
e desconvoco o cheiro a flores e os violinos.
tu encostas-te ao parapeito e sonhas comigo.
na superfície indefinida da memória
só o espelho sabe que ainda me mexo
enquanto retomo o tremendo amor
que numa noite despida me entregaste,
muito antes de te escrever o primeiro poema
e do efeito secundário dos teus olhos na minha boca.
longas são as horas em que me adio pelo teu corpo
na superfície segura da memória
observo-te a dançar she works hard for the money
e depois a fatiar corações numa tábua de pinho
como se não tivesses outro quotidiano que te servisse.
pergunto-te por mim,
se me vês e se
ainda te lembras do sismo suado que nos fendeu o peito.
tu dizes,
sou uma menina sem maldades,
e temendo que eu duvide apressas-te a puxar o decote.
longas são as horas em que te cubro de terra
na superfície calada da memória
em êxtase olho a paisagem que me resta até ao fim da fome
e desconvoco o cheiro a flores e os violinos.
tu encostas-te ao parapeito e sonhas comigo.
sábado, 11 de junho de 2011
O silêncio é de pedra
é ascendente o trajecto que me leva aos teus braços.
vou resoluta como quando atava fios de pranto aos pulsos
e temia os teus olhos.
atropelo a mulher descalça
que caminha no sentido contrário do amor,
a atirar-se contra os passeios
e a espreitar pelas janelas.
ignoro o homem de cinza que vende
pantomimas tão perfeitas que parecem vidas
e parece feliz e sabe onde vou.
enfio pelas ruas impossíveis, pelas arestas
pelos passos sombrios.
na subida
não reparo nos anjos como dantes
nem nos lábios bravios das raparigas,
às vezes encosto-me a uma rocha e durmo
e aos sábados paro para sonhar.
pela manhã
lentamente dou corda ao relógio da nostalgia
e na solidão que procuro encontro a tua voz que repete
o silêncio é branco
o silêncio é preto
o silêncio é de pedra
não parte.
vou resoluta como quando atava fios de pranto aos pulsos
e temia os teus olhos.
atropelo a mulher descalça
que caminha no sentido contrário do amor,
a atirar-se contra os passeios
e a espreitar pelas janelas.
ignoro o homem de cinza que vende
pantomimas tão perfeitas que parecem vidas
e parece feliz e sabe onde vou.
enfio pelas ruas impossíveis, pelas arestas
pelos passos sombrios.
na subida
não reparo nos anjos como dantes
nem nos lábios bravios das raparigas,
às vezes encosto-me a uma rocha e durmo
e aos sábados paro para sonhar.
pela manhã
lentamente dou corda ao relógio da nostalgia
e na solidão que procuro encontro a tua voz que repete
o silêncio é branco
o silêncio é preto
o silêncio é de pedra
não parte.
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