segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Raízes

metáforas são subtilezas tecidas a negro,  criadas para vestir as palavras normais, cansadas de apenas nomear o mundo. 

carregadas de cores, fios, sentidos, 

já não sabem o que são

e, como gente que se esconde e disfarça, 

jamais podem ser encontradas

por quem as procurar.


é essa a grande doença da poesia:

o que lhe dá poder mágico

é também a sua inevitável perdição. 


o amor, como calculas, tem a mesma raiz.

e no subtexto do meu coração, 

profundo como árvore, 

interior como poema, 

não há como medir raízes.


e se as desenterrares, perguntas,

a viajar no verso do André, 

inspirado traje de trauma, medo, preconceito teimoso.


a planta corre o risco de morrer, respondo. 


pois que morra. tudo o que é vivo renascerá, 

com sorte mais humano, rebates tu. 


não suspeitas que é de mim que falo.

nem que morrer mais uma vez

pode extinguir-me para sempre.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Primata

sempre apreciaste os meus lábios simiescos
mas não os meus maus hábitos. 
também terias alguns, 
tão insalubres como os meus, 
porém mais silenciosos,
de que desviavas a atenção
para me vigiares.
e nem eu os via.

esse teu cuidado 
feito de olhos ataviados de fome
fazia-me sorrir, 
descuidada do que dizias.
amei-o sempre 
mesmo sem o ver,
adejante sobre a minha boca, 
até começar a feri-la 
com os afiados lamentos 
que, sem notares, soçobraram o amor. 

agora vive emboscado na minha escrita, 
um mau hábito pretérito e futuro
tão meu e primitivo 
como o desassossego que me sitia as noites 
e te apartou de mim.

sei que não tem fim o teu não regressar
e apenas caminhas para a luz.
que abraçar primatas, 
ainda que ensinem os melhores beijos, 
está hoje fora do teu alcance.

terias de aprender a fé antiga das árvores 
e escutar a cegueira da natureza,
que continua a parir erros, 
descuidada, 
como eu sorridente, 
uma filha ilegítima de deus.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Abrir a janela

choro a mãe do Odair, 

como antes a do Paulo, 

sim, a minha, 


e a falta do teu colo.


então vejo-te, 

um recorte perfeito no branco da paisagem,

e logo retomo a marcha,

a fingir-me nova.


drama a mais nunca fez bem. 

antes café, vinho, pão com manteiga 

e as imagens da memória, 

fixadas em palavras, 

sobreviventes das procelas, do tempo, da saudade, 

outra vez a luzir.


só me apetece abrir a janela,

enxugar as lágrimas,

esquecer.


e pôr a mão de fora 

para o teu amor pousar.


segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Arco-íris

amei a vida intensamente, 

com todas as zonas cinzentas e as cores do arco-íris.


fui homem e mulher, criança vezes sem conta, 

e quase mordo a velhice agora que me despeço, 

eu mesma e outros ao mesmo tempo, 

à passagem deste verão de todos os frutos a escorrer-me pelo queixo.


todas as coisas que vivi são só minhas e vão comigo. 

deixo cartas, versos

e um caixote de fotografias, 

beatas no cinzeiro, 

vinhos na garrafeira, 

casa nenhuma, 

algum dinheiro no banco

e lições de amor em três ou quatros corações

que hão de lembrar-me 

com o meu sorriso fácil, 

as minhas danças noturnas,

os discos, os livros, as canetas,

tudo espalhado 

para ainda dar trabalho 

e continuar a ser depois de ser

quando já não for senão cinza 

e uma coleção de gestos, jeitos, gostos e feições 

nos corpos dos meus filhos.


amei muito.

amei mal e distraidamente,

amei bem sem reconhecimento, todos os dias.

e não me importo.


nunca quis aplausos senão na cama, à beira dos sonhos, 

o meu palco sem género, sem máscara, sem roupa, sem nome.

apenas humanidade 

e fim.


terça-feira, 30 de julho de 2024

Hoje vivo

com os teus olhos eloquentes
o teu sorriso inconstante 
a tua pele insurrecta
agitaste-me o coração, 
amigo íntimo do sol,
e adentraste-me rumo ao âmago 
pelos trilhos molhados do desejo.
foste marcando tudo
gestos decididos,
indicador em riste, 
palavras vulcânicas,
e queimando o que tocasses, 
até cobrires de terra 
a minha preciosa estrela interior.

e eu esqueci-me de viver.

árida,
já não me restavam sonhos, 
nem gestos, nem música,
mas tinha ainda a argamassa fértil do silêncio para moldar 
e um corpo que se movia.

como a sombra só desenha onde há luz,
atirei-me à escuridão para me salvar.

hoje vivo.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Apagão

apago dos versos 
o verbo amar,
o nome amor 
e a variante, amante

e pouco resta
além do rumor da ausência,
um fio de tempo,
o frio de existir na treva.

a escrita é um apagão. 

domingo, 21 de julho de 2024

Quatro vezes três

a poesia dança-me nos dedos,
ritmada como funk.
e obriga-me a ouvi-la
com estes olhos de espanto.

quimera impercetível,
devora-me por dentro,
qual bailarina prematura
a reter-me o pensamento.

dela nasce lume, orvalho,
brisa com e sem aroma.
não sei como me apanha
se já não lhe pertenço.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Por minutos

para que eu te amasse
teve o Viriato que bater num romano,
o primeiro Afonso que correr com os espanhóis
e o terceiro com os mouros.

para que tu me amasses
tiveram as naus que furar os mares,
os monarcas que cair
e os capitães que marchar até ao Carmo.

para que nos amássemos
o meu pai teve que seduzir a minha mãe,
o teu que convencer a tua
e alguém que inventar a informática.

mas
uma vez que não te amo,
nem tu a mim,
tudo isso terá sido em vão.

ou nem tudo.
por minutos o nosso encontro serviu
para darmos um nome à esperança.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Sem resposta

quando o espelho me pergunta

quantos sonhos tenho por viver

chego-me à frente sem dizer nada

e sorrio-lhe.


ele devolve-me a boca arqueada às avessas, 

os sinais familiares

as velhas rugas de expressão, 

redobradas interrogações.

e reconhece-me.


sabe quase quem sou:

pronuncia o meu nome,

mas não todas as idades que tenho em mim,

apenas aquela que os meus olhos conseguem ver,

nutrida de dores,

desvairada de mágoas,

ainda pulsante e amiúde feliz.


as outras guarda 

para o que está por vir e eu desconheço.


não sei que lhe diga.


os meus lábios tremem,

a minha testa engelha-se 

e as horas passam.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Estes meus versos

estes meus versos 

tão normais

não são capazes de abraçar.

os meus braços sim.

contudo nem uns nem outros 

te chegam.

são fracos, quase mudos

mal se sentem.


como as feministas  

noutro tempo

foram praticamente silenciados 

pelas dores diárias

e pelos apertos da culpa, 

mesmo sendo 

tão normais.


porque o normal, 

numa mulher, 

é ser branda, calma, comedida,

dentro das estribeiras, 

não fazer barulho. 


olha os vizinhos, 

murmuram estes meus versos

tão normais 

como um abraço ausente.


eu consigo ouvi-los

tu não.

domingo, 16 de junho de 2024

As lágrimas não perdoam

abri a porta e ela entrou de rompante em mim desprevenida como nunca. 

e aquele lugar arejado onde eu morava

ficou inundado de amarguras dela,

esperanças dela, 

águas dela,

medos dela, 

sons indeléveis.

encolheu tanto, 

fechado ao mundo, bafiento

que as paredes me encheram de pontapés

e o tecto baixou e me apertou 

como os braços de um agressor furtivo, 

de que instintivamente qualquer mulher, 

a sós numa rua escura, 

numa floresta noturna, 

numa cidade deserta, 

não hesitaria em fugir.


ainda tenho o chão molhado para rastejar, dormir, fazer flexões. 

já não serve para espalhar livros, 

mas não importa: 

apodreceram há muito, incapazes de flutuar. 


as lágrimas não perdoam.


quinta-feira, 13 de junho de 2024

Skincare

repetiu duas vezes aquele nome
que não era o meu
colado à palavra amor
e com tanta ternura que quis acreditar
que era a mim que chamava.

deixei-me ficar mais uns minutos
e quando começou a respirar pesado
puxei enfim o braço
largado sob a nuca dela
desde os últimos beijos,
peguei na roupa
e vesti-me em silêncio
junto à porta da rua.

não saí ilesa.

caminhei então pelas ruas desertas,
dobrei as esquinas
e tripliquei-me em tremores,
segurando a mão que mais tremia com a outra,
e mandei-a parar.

quase obedeceu.

os olhos também tremiam sobre as rugas fundas
e a boca, mais ainda,
descaindo como sempre contra a minha vontade.

mudei de passeio e continuei,
como se tivesse destino,
estugando o passo até encontrar aquele único banco de jardim
que não cheirava a vinho nem a merda nem a mentiras
nesta alvorada de santo antónio.

aí abri a página inicial
e chorei de júbilo ao descobrir que naquele instante
alguém me lia na coreia do sul.
não sei o seu nome, mas poderia repeti-lo
duas vezes
ou muitas
colado à palavra amor.

e jamais o trocaria por skincare,
embora esteja mesmo a precisar.


terça-feira, 4 de junho de 2024

Uma forma de existir

chamavas às frutas 
presentes de deus 
e às flores 
ilhas de luz
no tom solene de quem desvenda 
os grandes mistérios do universo
e desenhavas monstros 
com pernas de inseto e rostos humanos, 
idênticos aos dos teus pais.

eu escrevia o livro fundamental 
movida a fumo, vinho e calafrios, 
com novas rugas na boca, 
que te escondi, 
enquanto me extinguia.

escrever é uma forma de existir, dizia então.
como não escrever, dizias tu, 
e deitavas-te, alheia a tudo.

depois levantou-se a febre. 
tu perdeste o traço e eu o verbo,
caminhaste para longe 
e eu mudei de cama 
para me esquecer que morri.

hoje grito o teu nome 
para dentro da fronha da almofada
e coso-a com linhas mudas. 

aos meus sonhos, pelo menos,
não voltarás a escapar.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

E depois do adeus

por vezes ainda saio de casa, 

para caminhar,

esticar as pernas, 

arejar os ossos,

tonificar os músculos.


dizem-me que é um remédio para esta tristeza funda, 

tal como praticar o convívio, 

rir, misturar-me nas coisas,

desafiar o intelecto.


mas os cheiros do mundo agoniam-me 

e o ruído constante impele-me a recolher de novo 

ao idílico planeta 

do pensamento doméstico.


concentro-me nele e caio

sem amparo 

no teu abraço gelado como a morte.


encaracolando-me, 

arfante, culpada,

no espaço exíguo entre o meu corpo encolhido 

e o teu colo hostil,

dou lastro à memória dos nossos instantes felizes, 

na realidade para sempre perdidos

no martírio da saudade.


e aqui me deixo ficar,

imóvel, só, vazia,

até amanhã, depois de amanhã, depois da vida, 

como se soubesse quem sou, ou fui, ou serei, 

e que há futuro em mim 

depois do amor, 

depois de nós, 

depois de ti.


sexta-feira, 24 de maio de 2024

Pássaros nos olhos

naquele tempo trazias pedras da beira-mar para decorares as janelas 
e pássaros nos olhos para não me veres voar. 

dessa cegueira à seguinte era apenas uma estação. 
tu sabias 
e mesmo assim deixaste-a passar. 

eu tinha as asas presas à nossa casa de sonhos 
e amava-te nela como se fosse real, 
com os sentidos embotados 
pelas tuas certezas e as minhas contradições. 
estarei sempre aqui e lá fora, dizia, 
enquanto podava as orquídeas e enchia o copo mais uma vez, 
ébria já, fechada em mim, surda ao teu desejo. 

mas não mentia. 

outra estação passou e eis-me no mesmo lugar 
a olhar para o teu pedregoso silêncio. 

sei como ele é certo e justo e merecido 
e por isso abraço-o como os oceanos aos rios 
as mães aos bebés 
a terra às raízes. 

já não há espaço nas janelas 
nem pássaros que fiquem parados 
à espera 
até que eu me decida a habitar-te. 

mas ainda há tempo para voltares a ver.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Cinderela

não foi num baile real que nos encontrámos,
mas quase.
sem tafetás nem laçarotes,
sem máscaras, nem sequer as de agora, sanitárias,
sem brilhos nem maquilhagem ou tiaras nos cabelos
e no entanto dançámos.

um passo, depois outro,
três voltas à pista, ou mais
palavras gritadas aos ouvidos, gelo a derreter nos copos
e os sorrisos a insinuar beijos,
até ao toque na pele que dali para fora nos levou,
em suspiros ansiosos e curiosa incerteza.

pouco depois,
por magia de fada madrinha
ou destino acabado de nascer,
inventámos a alegria de caminhar lado a lado
de mãos entrelaçadas
e vento no rosto

mas tínhamos os olhos voltados para dentro
e não vimos o mesmo no horizonte
portanto ao soar de uma meia noite escura de inverno
fugiste.

deixaste para trás o coração, mas não corri atrás de ti

faltava-me caber nos teus sapatos.

domingo, 31 de maio de 2020

Lobo Mau

quando comecei a soprar,
de fòlego renovado pela primavera amena,
quase sem achaques alérgicos,
já tinha engolido a avó e a sua idosa sabedoria conformada,
e adicionado a neta no Instagram,
uma espécie de seguro de vida,
para o caso de tudo o resto falhar.
só tinha de meter conversa,
enviar o retrato de dentes recolhidos e barba rala,
sorridente no bosque florido.
agora não havia quem não se rendesse à natureza,
mesmo que só em fotografia.
não era o que eu queria
mas nem sempre se pode ter o que se quer
e já teria sorte tendo o que precisava,
um abrigo na estação das chuvas e um ombro suave para te chorar.

a primeira casa desabou em três tempos.
o telhado de colmo, as paredes de juncos, o mobiliário têxtil.
não estavas lá.

da segunda casa, um desses bungalows com alpendre
de resort
hippie chique moderno,
a corrente de ar dos meus pulmões,
há três meses apenas sem tabaco,
destruiu as janelas,
quatro em linha numa simétrica perfeição como a do teu rosto.

espreitei
mas também não te encontrei.

só a terceira, de pedra, terra e cal,
forrada a lágrimas e música serena,
era a tua casa.

tive a certeza mal vi as sardinheiras na varanda
e, pelas frestas, os livros espalhados na sala.

faltou-me o ar e despi,
uma a uma, as peles da maldade,
como se não me pertencessem desde o início dos tempos.
e levei a bomba da asma à boca,
reconduzindo a custo o sopro de desejo no ego sublimado
ao assobio voador que noutra estação te prendera.

felizmente vieste à porta.

não me reconheceste e deixaste-me entrar,
ou talvez sim, mas preferiste esconder-me a verdade,
para de novo podermos viver o amor pela primeira vez.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Pé de feijão


atordoada pela fome do teu corpo
trepei pelo caule interminável
que nasceu em pouco tempo
daqueles feijões mágicos,
com raízes no passado,
que me ajudaste a plantar.

de estômago embrulhado em fastio
uma nota de choro na garganta
o sexo sem fulgor
as pernas fraquejaram
um par de vezes
mas trepei e trepei,
sem olhar para baixo
não fosse sentir vertigens em estreia
como se não tivesse já dançado em câmara lenta
no topo dos arranha-céus
e atravessado nuvens,
funâmbula de improviso

cheguei arfante.
lá no alto,
não havia ovos de ouro nem harpas,
muito menos o declive do teu colo,
onde poderia deitar a cabeça
e descansar.

apenas o gigante coração
que um dia me prometeste
inquieto
pulsante
mas que para esta fome
do corpo não serve.

olho para ele, quase desfaleço
mas ao menos o ar aqui é puro.
inspiro, expiro, hesito.

não sei se o atire,
se o abrace e tente descer.

domingo, 10 de maio de 2020

Perspectiva

arranco-me do medo,
retraio-me do desânimo,
esqueço a culpa
que ainda há dias trotava como cavalos na arena infernal
da minha consciência.

de novo idealista,
insensata talvez,
volto a acreditar no nosso amor,
inextinguível no cume da montanha mais íngreme,
infinito no fim da estrada mais incerta,
cintilante no interior mais esquálido da noite.

e oiço violinos pungentes
em declinações enlevadas
enquanto me preparo para ir ao teu encontro.

cabelo lavado,
unhas cortadas,
pele hidratada,
roupa cheirosa.

visto-me de sorriso na boca e alma agitada
na perspectiva do milagre:
um abraço apenas
e a vastidão do mundo nele contido,
à flor do teu corpo.

estou a caminho,
sem vergonha,
imperfeita, insegura, mas decidida.

mas tu dizes, não venhas.

eu recolho-me, dispo-me,
não discuto.

sei que tendes para o real
como eu para a maresia
e é sagrado o teu tempo e forte o sentimento.

e que toda a verdade depende da perspectiva
e o milagre, claro é,
sempre esteve somente na minha fantasia.

sábado, 9 de maio de 2020

A Princesa e a Ervilha

à tua porta, tremendo de frio,
numa noite de lua cheia
a enganar a escuridão,
deponho o meu futuro,
com as mãos caídas, cativas na dúvida,
o sangue amotinado nas veias
o choro calado,
a clamar por ser grito, nos olhos.

consigo entrar,
tornada estilhaço transparente,
com o embalo do vento.
e de gestos recolhidos
vou-me insinuando para lá do discurso
para me infiltrar na tua insónia sem que notes
e de ti me alimentar mais uma vez.

já não tremo.
permaneço.

morro da vida que me dás a cada sopro
e descubro o modo de beber o céu
até me dissipar nos teus lábios
suspensos no meu nome.

depois sorvo o teu ser
quase por inteiro
nesse quarto íntimo onde não caibo
enquanto me fazes a cama com mil colchões
para que eu não te possa tocar.

lá no alto, porque sou uma verdadeira princesa,
ainda sinto nas costas
o teu imenso desalento,
disfarçado de ervilha nas frestas do soalho.

e só então pergunto,
descendo ao teu luto:
quando te vens deitar?

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Bela Adormecida

no alto da torre, isolando-me muito além do necessário
faço likes no teu perfil,
não vá o mundo desconfiar que te perdi.

já não desço os degraus mesmo que morra de sede,
nem transponho a porta.
habituei-me às alturas e às janelas cerradas.

em balanço autista, deixo-me ficar
por vezes nua, já que ninguém me vê,
outras vestida de farrapos carregados de azedume
que me atiram ao chão de cada vez que me levanto.
sou noite inflamada,
monumento de palavras, aqui deixada para contemplação futura
a esvair-me em lágrimas, a deitar-me com o silêncio
enquanto tu vives,
aí em baixo, na sombra,
entre o arvoredo e as redes sociais.

tudo o que é nosso está aí e aqui
e é tudo excesso como os espinhos das rosas,
as tempestades no mar,
mas também ausência,
príncipe enlutado, abraçado ao vazio,
a cobrir de negro o nosso amor.

eu nunca perco a pose, sou a musa do abandono,
a inspiração virtual,
e na batalha do ódio ganho sempre.

mas tu ganhas aos versos.

são facas na minha carne,
o afiado fuso da roca que noutra história me adormeceu.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Penélope

neste tempo espartano,
inacreditavelmente igual a outro,
o dos nossos antepassados,
vedado à ambição da plenitude,
(comida na mesa,
vinho doce pelas festas,
tecto e cama, roupa lavada,
nenhum destino maior a que aspirar,
igualo-me à natureza,
qual folha ao vento,
pólen de flores,
pássaro entre corolas
(e já não é pouco.

o sonho teima, porém.
mesmo neste tempo espartano,
em que nada se pode desejar,
não consigo evitá-lo.

nesta casa que é uma ilha,
Ítaca inundada de luz, mas vazia até ao cume,
perduro humana, e envolta em fumo,
sem nitidez ao reflectir-me nas gotas unidas da água do banho,
ainda te espero.

e diariamente teço e desteço a memória
materializada em laços e nós de fios de cabelo branco,
mais grossos que os outros,
quase agasalhos,
que anunciam o teu regresso:

o abraço mais longamente sonhado.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Mais um quarto crescente

um tempo de incerteza estugou-me o passo.
de repente a pressa de chegar a um fim
voltou-me para o princípio,
o bem maior de um novo começo,
e um turbilhão de ondas
desfez-me contra as cintilações do passado,
ainda vivo do outro lado das noites quietas.

adormecida, julgando-me desperta,
de olhos turvos, fingindo atenção,
de tornozelos presos a correntes
a ensaiar a prudência,
passei as mãos por todas as estações
e direcções,
escolhendo a mais dolorosa
para te poupar ao drama de me veres definhar
enquanto te ouvia enumerar desilusões imponderáveis
e disparar invisíveis gritos
contra os meus poemas quotidianos.

músicas e danças de todas as nações fizeram-me companhia,
a mil trabalhos me entreguei,
sem argumentos que pudessem atrasar a morte,
e na lua cheia encontrei-me com o remorso,
de garganta em nó a pedir-te perdão em sonhos,
por orgulho inefável,
na manhã seguinte.

agora que o quarto cresce, nem acredito no que vejo:
esta boca fechada já se fundiu na tua,
este lençol deserto chegou a ter a forma do teu corpo,
estas cinzas, este pó a cobrir tudo
foram outrora o nosso amor.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Peter Pan

triste herói
este, que voa
e portanto se crê acima dos sonhos mortais.


regressado da sua viagem,
extenuado e distante,
sem alma viva que o possa contradizer,
não pode evitar aquela sensação de carência a alastrar.

é então que começa a ficar agressivo,
transformando em palavras audíveis
o que nesses momentos pensa,
que toda a terra do nunca o desaponta
e o amor não basta
por jamais coincidir com a resposta exacta,
escrita a espada e fogo,
aos seus desejos de menino encantado.

trazendo na pele o vento e as tempestades na boca,
espera ser adivinhado,
mas é sempre um novo enigma
que o aguarda no regresso,
enquanto todos se recolhem,
temendo a sua fúria,
velha conhecida em crescimento constante.

leva anos a decifrá-lo
e de caminho pratica a solidão,
corajoso como um rio em cortejo pelas matas da memória,
sem que ninguém lhe testemunhe as lágrimas.

e lentamente
o amor apodrece, de raízes encharcadas.

quando finalmente ele está pronto para a doçura,
capaz de admitir a carência, parar com as viagens
e conformar-se com o amor possível,
já é tarde para recuperar toda e qualquer criança perdida.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Branca de Neve

diariamente,
na mais perfeita solidão,
ao espelho mágico perguntava,
espelho meu, espelho meu,
porque é que todos os outros são
mais felizes do que eu?
e o espelho,
cumprindo a sua natureza de coisa inanimada,
embora mágico, incapaz de mentir,
não respondia.

passaram-se semanas, meses.
e ele calado.

uma vez esteve quase.
o reflexo embaciou-se,
diluindo-lhe as rugas,
reconstruindo-lhe o sorriso de menina,
dando-lhe nova vivacidade à pele,
como um filtro do Instagram.
e ela ficou ainda mais bela,
com aquele rosto de vinte anos
e o olhar calejado dos quarenta.
mas o silêncio persistiu.

ano a ano, passou-se uma década
em que
ela drenou os lagos dos seus pensamentos chorosos,
arranjou sete amigos de ocasião na floresta e, para se sentir útil,
arrumou-lhes a casa,
foi com eles à pesca e numerosas vezes ao supermercado,
tricotou cachecóis,
regou flores, abraçou animais, plantou árvores
e descodificou o enredo das missas
e os mistérios da confeitaria.
ainda falou com fantasmas e aprendeu o nome dos pássaros
e a medir a humidade do ar
e a entender as suas próprias comoções.
mas nunca abriu a porta
a ninguém.

certo dia o espelho,
fazia já tantos anos que lhes perdera a conta
e tanto tinha feito sem reparar nisso
que já era incapaz de confiar em magias,
sem que ela nada perguntasse,
quebrou o silêncio:
podes acreditar num amor encantado, imortal,
maior que todas as alegrias precárias,
sujeitas à passagem do tempo.
é certo que nada é mais humano que a solidão
e nenhuma princesa alguma vez foi feliz para sempre,
mas, com a porta fechada, nem um dia.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Educação

a poesia é leal:
tantas vezes sem tempo para ela,
ocupada a viver,
e nunca me abandona.

mesmo que não fale dela a ninguém,
não a apresente nos foyers dos teatros, nos cafés,
não lhe dê nome nem espessura ou carinho,
fica ali, à minha espera no branco da página,
e nada pede em troca.

às vezes pergunta,
porque é que me guardas?
talvez por habitar em mim,
ou por outra razão que desconheço,
tem aquela necessidade de chamar a atenção,
como a que me define.
e eu, sabendo como ela gosta
de se sentir importante,
respondo-lhe,
és modesta e só ocupas duas gavetas.
ela parece acatar,
mas duvido que entenda.

pode ser que um dia descubra,
sem que lho diga,
porque é o meu mais fundo segredo,
que não a posso dar ao mundo
porque é tua,
como o corpo e o coração.
e a minha mãe,
que tão bem me educou,
à moda antiga,
ensinou-me que não se pode dar
o que não é nosso.

permanecerá comigo depois?

domingo, 26 de abril de 2020

Marcas


era um dia quente de outono
depois de uma noite feliz.

a cama ainda desarrumada,
as notícias lidas,
os copos por lavar,
os dentes escovados,
mais uns beijos e um ar de leveza,
o teu abraço a esculpir uma nuvem no meu ombro,
a minha face a deixar marcas na tua,
à nascença condenadas ao inevitável desaparecimento
como os pés na areia a caminho do mar.

estava a calçar os sapatos quando disseste,
mesmo que não fique contigo
vou amar-te para sempre.
e eu disse,
se não estiveres comigo,
para nada o teu amor servirá.

depois fomos dar um passeio,
como se fosse outro dia qualquer.

não era, mas eu não sabia
porque não percebi o que dizias.
que a expressão do amor é como deus,
intermitente,
e por mais que os joelhos se dobrem,
as mãos se unam,
as preces se repitam,
ora existe, ora não.

havia nas tuas palavras,
sei-o agora,
o prenúncio do silêncio
que por estes dias me obriga
a conjugar os verbos no condicional.
mas na hora seguinte,
mergulhada no momento,
era como se não te tivesse ouvido.

o passeio durou até de madrugada e até chegámos a dançar.

sábado, 25 de abril de 2020

Revolução

por esta altura, arreliada por não ganhares o feriado,
porque é importante o trabalho,
a subsistência, o pé de meia,
talvez planeasses descer a avenida de braço dado comigo
e fotografar os homens e as mulheres da liberdade,
escravos dos juros bancários,
das contas da luz
e da responsabilidade familiar,
suposta fonte de máximas alegrias,
deslumbrada com a tenacidade deles,
embora definidos,
pouco mais,
pelo prazer de uma cerveja na esplanada do bairro
e mais uma vitória do benfica na televisão.

é o que agora mais falta lhes faz,
muito mais que o cravo na lapela e a grândola na voz.

por esta altura, provavelmente temerias mais uma noite em claro,
a ouvir-me dormir em tumulto inexplicável,
praguejando contra o vinho e a minha fraqueza.

todavia, sem o esperarmos ou querermos,
o curso dos planos foi interrompido,
a cidade esvaziada,
os sinais mediúnicos baralhados,
o sussurro do espontâneo
vertido numa janela de grades invisíveis,
que num pestilento ápice nos congelou.

por isso, e devido a este incontrolável escrevinhar,
meu pão de cada dia,
por esta altura já gastei
inteiramente
o caderninho vermelho que me deste
com pensamentos avulsos,
que jamais conhecerão o prelo
ou o retorno em pé de meia que idealizaste.
são perfeitamente imprestáveis
como esta mania de viver os dias um a um,
qual gato caseiro,
acreditando que a tudo tem direito
menos a caçar para comer.

por esta altura,
sem ti,
uma chaga reaberta,
cada hora é uma revolução calada.

bato na mesa,
ergo-me, visto o casaco, calço os sapatos e digo,
agora é que vou lá, seja feita a minha vontade,
tenho pernas para andar
e lábios para beijar
e mãos para tocar.

mas logo a seguir esmoreço.
dispo o casaco, descalço os sapatos, respiro fundo
e de peito em sangue
arranco às entranhas o que sinto,
despejando todo o tumulto no copo.

por esta altura, bebo-te em silêncio.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Motown

um golpe no indicador,
a pele num instante branca
como o vinco de um lençol
e logo a seguir aquele vermelho todo,
recorda-me que talvez prefira a morte
a este silêncio insípido,
a estes gestos doentes que não vês,
estes lábios mordidos de nervos
e o coração partido em dois.

depois reparo que o sol nasce sempre
apesar da noite que carrego dentro
sem que alguém mo aponte,
e levanto-me.

a sombra deste amor
é um abismo de ruídos estridentes que não ouço.
quem dera fossem harmoniosos
para me esgueirar neles e dançar.
assim vivo em queda
como se pudesse morrer muitas vezes.

pergunto-me
onde estão as pedras para as covas dos olhos,
agora que só me restam as fotografias,
onde sorris parada, mais uma vez?
o que faço destas memórias esfumadas,
irrecuperáveis,
que me dão a impressão,
como o branco dos teus olhos nos retratos,
das coisas belas que aniquilam?

se um dia te fizer falta,
eu e os meus erros,
a jactância,
a inquietude,
o riso que me desponta ao teu lado,
o cheiro peculiar,
diz,
não hesites.
é tudo teu, como é teu este amor antigo,
a passar de moda como uma canção da Motown.
e tua cada inútil lágrima que deito.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Natural

se me empurras para longe, só me apontas as falhas
e a minha maneira de salvar os dias
apenas te parece um erro de empatia que não podes entender,
se a ternura não chega quando a carne se cala,
amputados os nossos corpos por tua vontade,
eu afasto-me.
a reacção é natural,
também aqui estou de rastos,
com as tuas raízes no meu coração insignificante,
sob os astros que se não vêem,
a subir esta íngreme colina onde gostava de levar-te,
fizesse a minha existência alguma diferença no teu mundo.

é a raiva que te alimenta os versos, dizes.
e eu digo, julgas-me maior do que sou,
prosaica e terrena como o quotidiano,
estou melhor sem poesia do que sem ti.

mas
se me dás um caminho, eu ando.
a reacção é natural,
também aqui estou neste jardim nascente
com um lago ao centro,
amorosa companhia que nada exige,
onde as memórias flutuam descompassadas
e os pássaros se refrescam mudos
e as flores se olham ao espelho, altivas,
tão conscientes da sua justa beleza como tu.

mesmo que não escutes o som dos meus passos,
eles só conhecem uma direcção,
a luz dos teus olhos apagada de momento
e a paz do teu abraço, naturalmente.

domingo, 19 de abril de 2020

Navegável

não sou do tamanho da minha tristeza,
mas mais pequena,
grão de terra da herdade imensa,
poeira vocal no cântico dos fantasmas
que me trazem crianças pela mão
e se misturam nas teias de nuvens suspensas dos tectos.

ainda não é a hora, dizem.
e eu digo, que o desejo não se consuma
nem o fulgor da noite me disperse. e tu dizes,
isso não é o que quero dizer,
sei bem do que preciso
e nada me isolará do futuro.

as plantas contra a morte distraem-me da fome,
no pensamento ardem-me,
imagino-as florestas góticas,
de ramos desmanchados e folhas acumuladas
como leitos a abraçar os nossos corpos,

agiganto-me a imaginar, enquanto me
esqueço que o prazer existia,
e o surpreendente amor, em fios de cabelos tecidos,
se ajustava ainda à medida da minha dor.

os mendigos mendigam,
os alegres alegram,
os herdeiros herdam,
os tristes enfadam, eu sei.
e sou todos ao mesmo tempo,
temor nenhum
porque já fui o teu suspiro,
rica só em presságios.

hoje em lágrimas navegável,
cozinho duas vezes por dia
como as mães extremosas de antigamente,
simulacro de uma sinfonia doméstica em busca de sentido,
sem rumo.

fosse eu maior que a minha tristeza
e não deixaria rasto no universo.

dava-te novas vagas de gestos musicais
e o que precisasses.

então poderíamos ser felizes.

mas há quem prefira conclusões à tona da água.

sábado, 18 de abril de 2020

Ilegível

bravas no primeiro passo,
logo nos acobardamos no seguinte,
presas afiadas,
tementes à loucura,
por hábito parceiras da solidão
em defesa do que somos,
uma no caos por poder,
outra na pressa por querer,
para lá do amor por cumprir.

há pequenos acontecimentos que persistem, dizes.
têm aparência humana,
em múltiplas combinações de corpos,
corações e mentes, digo eu,
no teu bairro, estrangeira
na tua casa, visita
na tua cama, sem descanso,
na minha natureza própria,
ilegível mesmo quando me prostro nua à tua frente.

nada há de objectivo no que sinto,
só que o amanhã me dói dos pés à alma,
tanto quanto ontem desejava abraçar-te uma e outra vez, digo agora.
não duvido, dizes tu, distante.

e a luz respira como no tempo das primeiras palavras,
enquanto o mundo desperta
de novo
não propício ao toque,
brincando connosco na sua impecável limpeza
de risos e beijos.

ainda te lembras da nossa velhice?